sábado, 18 de julho de 2015

56 – O ex-mágico da Taberna Minhota – M. Rubião

Murilo Rubião (1916-1991) escritor mineiro nascido em Carmo de Minas. Andou pelo jornalismo, pela politica e até pelo serviço diplomático. Seus contos são considerados como exemplos de literatura fantástica, mas para mim, o que mais impressiona é o bom humor com o qual ele conta suas historias... ainda que sejam tristes.


O ex-mágico da Taberna Minhota
Murilo Rubião

Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me;
 porque eu sou desvalido e pobre.
(Salmos. LXXXV, I)

Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior.
Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.


Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.


Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.


O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.


Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.


O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz, que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.


Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.


A plateia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número, em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob o meu olhar distante.


O gerente do circo, a me espreitar de longe, danava-se com a minha indiferença pelas palmas da assistência. Notadamente se elas partiam das criancinhas que me iam aplaudir nas matinês de domingo. Por que me emocionar, se não me causavam pena aqueles rostos inocentes, destinados a passar pelos sofrimentos que acompanham o amadurecimento do homem? Muito menos me ocorria odiá-las por terem tudo que ambicionei e não tive: um nascimento e um passado.


Com o crescimento da popularidade a minha vida tornou-se insuportável.


Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.


Se, distraído, abria as mãos, delas escorregavam esquisitos objetos. A ponto de me surpreender, certa vez, puxando da manga da camisa uma figura, depois outra. Por fim, estava rodeado de figuras estranhas, sem saber que destino lhes dar.


Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.


Situação cruciante.


Quase sempre, ao tirar o lenço para assoar o nariz, provocava o assombro dos que estavam próximos, sacando um lençol do bolso. Se mexia na gola do paletó, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, das minhas calças deslizavam cobras. Mulheres e crianças gritavam. Vinham guardas, ajuntavam-se curiosos, um escândalo. Tinha de comparecer à delegacia e ouvir pacientemente da autoridade policial ser proibido soltar serpentes nas vias públicas.



Não protestava. Tímido e humilde mencionava a minha condição de mágico, reafirmando o propósito de não molestar ninguém.


Também, à noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.


Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.



Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo.


Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.


Na manhã seguinte regressaram e se puseram, acintosos, diante de mim.


— O que desejam, estúpidos animais?! — gritei, indignado.


Sacudiram com tristeza as jubas e imploraram-me que os fizesse desaparecer:


— Este mundo é tremendamente tedioso — concluíram.


Não consegui refrear a raiva. Matei-os todos e me pus a devorá-los. Esperava morrer, vítima de fatal indigestão.


Sofrimento dos sofrimentos! Tive imensa dor de barriga e continuei a viver.


O fracasso da tentativa multiplicou minha frustração. Afastei-me da zona urbana e busquei a serra. Ao alcançar seu ponto mais alto, que dominava escuro abismo, abandonei o corpo ao espaço.


Senti apenas uma leve sensação da vizinhança da morte: logo me vi amparado por um paraquedas. Com dificuldade, machucando-me nas pedras, sujo e estropiado, consegui regressar à cidade, onde a minha primeira providência foi adquirir uma pistola.


Em casa, estendido na cama, levei a arma ao ouvido. Puxei o gatilho, à espera do estampido, a dor da bala penetrando na minha cabeça.


Não veio o disparo nem a morte: a máuser se transformara num lápis.


Rolei até o chão, soluçando. Eu, que podia criar outros seres, não encontrava meios de libertar-me da existência.



Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.


Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isso empreguei-me numa Secretaria de Estado.



1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.


Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.


Quando era mágico, pouco lidava com os homens -o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.


O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via -me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.


O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.


Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!


1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)


Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois, tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.


Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.


Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.


Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.


Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.


Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.


Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.


Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.


Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.



Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a Terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.

sábado, 11 de julho de 2015

55 – Sredni Vashtar – Saki

Hector High Munro (1870-1916), escritor britânico nascido em Burma, mais conhecido como Saki, foi um dos mestres do conto inglês. Seus contos, quase sempre macabros, são escritos em uma linguagem sutil e elegante e Sredni Vashtar é um dos maiores exemplos.  
Sredni Vashtar
Saki
Conradin tinha dez anos quando o médico decretou que ele não teria mais do que cinco para viver. Mas a opinião desse médico meloso e incompetente não valia nada para Mrs. De Ropp.
Mrs. De Ropp, prima e tutora de Conradin, representava aos olhos do garoto os três quintos do que o mundo continha de inevitável, de desagradável e de real. Em perpétuo conflito, os outros dois quintos se resumiam a ele mesmo e a sua imaginação. Qualquer dia desses, fantasiava Conradin, ele terminaria por desmoronar sob o peso esmagante das coisas inevitáveis e difíceis – tais como as doenças, a vigilância sufocante de que era objeto e o tédio mortal que o destruía. Não fosse a imaginação desenfreada que a solidão costuma estimular, há muito ele já teria sucumbido.
Mrs. De Ropp jamais confessaria que não gostava de Conradin. Talvez tivesse uma vaga consciência de que contrariá-lo “para o seu bem” era um dever ao qual deveria se dedicar, mas admitir isso seria outra história. Já Conradin, ele a odiava do fundo do coração, embora se esforçasse para dissimular. Os pequenos prazeres que se proporcionava adquiriam um sabor particular quando sabia que desagradariam a sua tutora.
O jardim, morno e sem vida, sobre o qual se debruçavam tantas janelas prontas a se abrir para chamá-lo à ordem – não faça isso, faça aquilo, venha tomar seus remédios – não o atraía muito. Havia, porém, num canto esquecido, meio escondido por um pequeno e triste bosque, uma casinha onde, em tempos idos, eram guardadas as ferramentas. Nela Conradin criou o seu refúgio, o seu porto seguro, um local mágico. Segundo seu humor, ele a transformava em sala de jogos ou catedral, povoando-a com uma legião de fantasmas familiares, evocações saídas de histórias antigas ou da sua própria imaginação. Ela podia ainda se orgulhar de possuir dois pensionistas em carne e osso: em um canto vivia uma pobre galinha meio depenada, a quem ele dedicava uma afeição que lá fora raramente tinha ocasião de exprimir; um pouco afastado, na obscuridade, havia uma grande caixa com dois compartimentos, sendo um fechado na frente por barras de ferro. Ela abrigava um furão.
A gaiola e o animal foram introduzidos clandestinamente por um jovem e simpático açougueiro, em troca de algumas moedas de prata que Conradin economizara muito em segredo, durante um longo tempo. Ele morria de medo desse animal de pelo macio e dentes pontudos, mas esse era o seu bem mais precioso. A presença do furão no local enchia Conradin de uma alegria secreta misturada com medo, e nunca deveria ser conhecida por “Aquela mulher”, que era assim que ele, em pensamento, se referia à prima.
Um dia, e só Deus sabe de onde lhe teria vindo a inspiração, o garoto conseguiu encontrar um nome maravilhoso para o animal: Sredni Vashtar. E logo ele foi elevado ao status de divindade, a quem Conradin prestava um verdadeiro culto.
Uma vez por semana, Aquela Mulher ia à igreja, levando o garoto consigo. Para ele, o serviço religioso não era mais do que um ritual estranho e incompreensível, mas deu-lhe a orientação necessária para que criasse outros rituais. Assim, todas as terças-feiras, na penumbra bolorenta e silenciosa do seu templo, ele se ajoelhava na frente da gaiola de madeira e adorava Sredni Vashtar, o Grande Furão. Conradin elaborara um complexo cerimonial, cheio de misticismo. À guisa de oferenda, ele colocava flores vermelhas no altar, já que Sredni Vashtar era um deus que encarnava a ferocidade e a impaciência, enquanto os deus Daquela Mulher, a partir do que Conradin pudera observar, professava exatamente o contrário. Por ocasião das festas especiais, ele espalhava noz-moscada ralada diante da gaiola e o rito exigia que ela tivesse sido roubada.
Essas cerimônias não respeitavam um calendário preciso e tinham lugar normalmente por ocasião de algum evento excepcional. Assim, quando Mrs. De Ropp sofreu, por três dias, uma fenomenal dor de dentes, Conradin prolongou a festa e celebrou durante todo o período, quase se convencendo realmente de que Sredni Vashtar era pessoalmente responsável pelo infortúnio da prima. Se a dor tivesse persistido um dia mais, a reserva de noz-moscada da cozinha teria desaparecido por completo.
A galinha nunca tinha sido convidada para participar do culto a Sredni Vashtar. Muito tempo antes, Conradin havia decretado que ela era anabaptista. Ele não tinha a menor ideia do que poderia ser o anabaptistismo, mas esperava secretamente que fosse algo extravagante e não muito respeitável. Uma vez que Mrs. De Ropp representava a própria imagem da respeitabilidade, toda respeitabilidade tornava-se detestável. 
Após algum tempo, o interesse de Conradin pela velha casinha de ferramentas acabou por atrair a atenção da tutora.
– Não é bom para ele viver enfiado nesse lugar, faça chuva ou faça sol! – decretou ela, imediatamente.
E foi assim que, uma bela manhã, ela anunciou, durante o desjejum, que a galinha tinha sido vendida e levada embora durante a noite. Com os seus olhos míopes, ela encarava Conradin, esperando uma explosão de cólera e tristeza, que se apressaria a reprimir sob um dilúvio de recomendações. Mas o garoto não disse nada: não havia nada a dizer. Alguma coisa, talvez, no seu rosto pálido e determinado, fez nascer nela um remorso fugidio, pois, à tarde, havia pão assado para acompanhar o chá, algo que ela tinha banido sob o pretexto de que não era bom para ele. Mas Conradin nem sequer tocou no mimo e, assim que pôde, desapareceu, refugiando-se na casinha.
Naquele dia, o garoto introduziu uma invocação no culto ao deus da gaiola. Normalmente, ele louvava suas qualidades, mas agora lhe pediu um favor:
– Faça uma coisa para mim, Sredni Vashtar.
Conradin não disse o que queria: na qualidade de deus, ele deveria saber. E, quando olhou para o outro lado, agora vazio, sufocou um soluço e retornou àquele mundo que tanto odiava.
A partir desse dia – noite após noite, na obscuridade quente do seu quarto; no final da tarde, na casinha; pela manhã, ao se levantar – Conradin dizia a sua amarga ladainha:
– Faça uma coisa para mim, Sredni Vashtar.
Vendo que as visitas à casa de ferramentas não tinham parado, Mrs. De Ropp decidiu fazer uma nova inspeção.
– O que você esconde lá? – perguntou ela. – Aposto que são porquinhos-da-índia! Vou dar sumiço neles, já!
Conradin não abriu a boca, mas Aquela Mulher fuçou o quarto até que encontrou a chave cuidadosamente escondida. Na mesma hora, ela dirigiu-se à casinha, para arrematar sua descoberta. Fazia frio, e o garoto não tinha permissão para sair. Ele, então, foi postar-se à última janela da sala de jantar, de onde podia ver a porta do seu refúgio disfarçada por uma moita de arbustos. Viu quando a mulher penetrou na casa. Imaginou-a abrindo a porta da gaiola sagrada e apertando os olhos míopes para conseguir enxergar o leito de palha onde o seu deus repousava. Talvez ela cutucasse a palha com um pedaço de pau, impaciente e desajeitada… E Conradin murmurou a sua prece com fervor. Pedia, mas, de fato, não acreditava que seu pedido seria atendido. Ele sabia que Aquela Mulher iria logo sair, com um sorriso irônico pregado no canto da boca, sorriso que ele tanto detestava, e que, dali a uma hora ou duas, o jardineiro levaria embora o seu deus maravilhoso, que nem um deus mais seria, mas apenas um simples furão marrom dentro de uma caixa. Ele sabia também que Aquela Mulher triunfaria sempre, como agora, e que ele estaria cada vez mais doente, tiranizado pela implacável sabedoria que ela se atribuía. Até o dia que nada mais teria importância, e todos teriam certeza de que o médico tinha razão. No seu sofrimento e resignação pela derrota, ele começou a cantar baixinho o hino ao ídolo ameaçado. Sua voz era forte e desafiante:
            Sredni Vashtar avançou.
            Tinha pensamentos vermelhos de sangue,
            Mas seus caninos eram brancos.
            Os inimigos imploraram misericórdia,
            Mas ele lhes deu a morte.
            Seja feita a sua vontade, ó Sredni Vashtar, o Magnífico.
Bruscamente, ele se calou e tornou a aproximar-se do vidro da janela, para ver melhor lá fora. A porta da casinha continuava entreaberta, e os minutos se arrastavam. Conradin viu pássaros esvoaçando e correndo pela grama, em pequenos grupos. Contou-os e recontou-os, mantendo um olho fixo na porta. A empregada entrou e pôs a mesa para o chá, enquanto Conradin, sempre imóvel, perscrutava a porta.
Pouco a pouco, a esperança foi abrindo caminho no coração do garoto e uma auréola de triunfo iluminou os seus olhos. Uma vez mais, ele sussurrou o hino da vitória e da destruição. Desta vez, foi recompensado: na soleira da porta apareceu um animal longo e sinuoso, com o pelo arruivado. Ele piscou os olhos à luz do dia. Em redor das mandíbulas e do pescoço, manchas úmidas e sombrias maculavam sua pelagem. Conradin caiu de joelhos, mas não sem antes ver quando o animal esgueirou-se no meio das folhagens e tomou o rumo do riacho, no fundo do jardim, onde desapareceu para sempre.
A empregada entrou na sala de jantar, perguntando pela senhora.
– Ela foi na direção da casinha do jardim, já faz um bom tempo – respondeu o garoto.
Enquanto a empregada procurava pela patroa, Conradin pegou um garfo na gaveta do armário, espetou nele um pedaço de pão e começou a assá-lo. E, durante todo o tempo em que ele o dourou, depois de passar bastante manteiga, antes de lentamente saboreá-lo, ouvia, vindo do corredor, os barulhos entrecortados de bruscos silêncios, os gritos histéricos da empregada, o eco das exclamações incrédulas provenientes da cozinha, os passos precipitados e os pedidos de socorro. Enfim, após um breve período de calma, soluços de pavor e passos cambaleantes de alguém que trazia um pesado fardo às costas encheram a casa.
– Quem vai contar para a pobre criança? Eu não tenho coragem! – disse uma voz aguda.
Enquanto eles discutiam o assunto entre si, Conradin preparava um outro pedaço de pão para assar.

FIM

sábado, 4 de julho de 2015

54 – O moço do saxofone – L. F. Telles

Lygia Fagundes Telles escritora paulista nascida em 1923 publicou seu primeiro livro com quinze anos. Desde então publicou quatro romances vinte e um livros de contos gravando seu nome na historia da literatura portuguesa. “O moço do saxofone” ,publicado em 1970 como parte do livro Antes do Baile Verde, é absurdamente triste,mas ao mesmo tempo extremamente belo e sensível.

O moço do saxofone
Lygia Fagundes Telles

Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-moscas. Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavucando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-moscas eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone.
Não que não gostasse de música, sempre gostei de ouvir tudo quanto é charanga no meu rádio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado. Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava.
— O que é isso? — eu perguntei ao tipo das giletes. Era o meu primeiro dia de pensão e ainda não sabia de nada. Apontei para o teto que parecia de papelão, tão forte chegava a música até nossa mesa. Quem é que está tocando?
— É o moço do saxofone.
Mastiguei mais devagar. Já tinha ouvido antes saxofone, mas aquele da pensão eu não podia mesmo reconhecer nem aqui nem na China.
— E o quarto dele fica aqui em cima?
James meteu uma batata inteira na boca. Sacudiu a cabeça e abriu mais a boca que fumegava como um vulcão com a batata quente lá no fundo. Soprou um bocado de tempo a fumaça antes de responder.
— Aqui em cima.
Bom camarada esse James. Trabalhava numa feira de diversões, mas como já estivesse ficando velho, queria ver se firmava num negócio de bilhetes. Esperei que ele desse cabo da batata, enquanto ia enchendo meu garfo.
— É uma música desgraçada de triste — fui dizendo.
— A mulher engana ele até com o periquito — respondeu James, passando o miolo de pão no fundo do prato para aproveitar o molho. — O pobre fica o dia inteiro trancado, ensaiando. Não desce nem para comer. Enquanto isso, a cabra se deita com tudo quanto é cristão que aparece.
— Deitou com você?
— É meio magricela para o meu gosto, mas é bonita. E novinha. Então entrei com meu jogo, compreende? Mas já vi que não dou sorte com mulher, torcem logo o nariz quando ficam sabendo que engulo gilete, acho que ficam com medo de se cortar...
Tive vontade de rir também, mas justo nesse instante o saxofone começou a tocar de um jeito abafado, sem fôlego como uma boca querendo gritar, mas com uma mão tapando, os sons espremidos saindo por entre os dedos. Então me lembrei da moça que recolhi uma noite no meu caminhão. Saiu para ter o filho na vila, mas não aguentou e caiu ali mesmo na estrada, rolando feito bicho. Arrumei ela na carroceria e corri como um louco para chegar o quanto antes, apavorado com a ideia do filho nascer no caminho e desandar a uivar que nem a mãe. No fim, para não me aporrinhar mais, ela abafava os gritos na lona, mas juro que seria melhor que abrisse a boca no mundo, aquela coisa de sufocar os gritos já estava me endoidando. Pomba, não desejo ao inimigo aquele quarto de hora.
— Parece gente pedindo socorro — eu disse, enchendo meu copo de cerveja.  — Será que ele não tem uma música mais alegre?
James encolheu o ombro.
— Chifre dói.
Nesse primeiro dia fiquei sabendo ainda que o moço do saxofone tocava num bar, voltava só de madrugada. Dormia em quarto separado da mulher.
— Mas por quê? — perguntei, bebendo mais depressa para acabar logo e me mandar dali. A verdade é que não tinha nada com isso, nunca fui de me meter na vida de ninguém, mas era melhor ouvir o tro-ló-ló do James do que o saxofone.
— Uma mulher como ela tem que ter seu quarto — explicou James, tirando um palito do paliteiro. — E depois, vai ver que ela reclama do saxofone.
— E os outros não reclamam?
— A gente já se acostumou.
Perguntei onde era o reservado e levantei-me antes que James começasse a escarafunchar os dentões que lhe restavam. Quando subi a escada de caracol, dei com um anão que vinha descendo. Um anão, pensei. Assim que saí do reservado dei com ele no corredor, mas agora estava com uma roupa diferente. Mudou de roupa, pensei meio espantado, porque tinha sido rápido demais. E já descia a escada quando ele passou de novo na minha frente, mas já com outra roupa. Fiquei meio tonto. Mas que raio de anão é esse que muda de roupa de dois em dois minutos? Entendi depois, não era um só, mas uma trempe deles, milhares de anões louros e de cabelo repartidinho do lado.
— Pode me dizer de onde vem tanto anão? — perguntei à madame, e ela riu.
— Todos artistas, minha pensão é quase só de artistas...
Fiquei vendo com que cuidado o copeiro começou a empilhar almofadas nas cadeiras para que eles se sentassem. Comida ruim, anão e saxofone. Anão me enche e já tinha resolvido pagar e sumir quando ela apareceu. Veio por detrás, palavra que havia espaço para passar um batalhão, mas ela deu um jeito de esbarrar em mim.
— Licença?
Não precisei perguntar para saber que aquela era a mulher do moço do saxofone. Nessa altura o saxofone já tinha parado. Fiquei olhando. Era magra, sim, mas tinha as ancas redondas e um andar muito bem bolado. O vestido vermelho não podia ser mais curto. Abancou-se sozinha numa mesa e de olhos baixos começou a descascar o pão com a ponta da unha vermelha. De repente riu e apareceu uma covinha no queixo. Pomba, que tive vontade de ir lá, agarrar ela pelo queixo e saber por que estava rindo. Fiquei rindo junto.
— A que horas é a janta? — perguntei para a madame, enquanto pagava.
— Vai das sete às nove. Meus pensionistas fixos costumam comer às oito — avisou ela, dobrando o dinheiro e olhando com um olhar acostumado para a dona de vermelho. — O senhor gostou da comida?
Voltei às oito em ponto. O tal James já mastigava seu bife. Na sala havia ainda um velhote de barbicha, que era professor parece que de mágica e o anão de roupa xadrez. Mas ela não tinha chegado. Animei-me um pouco quando veio um prato de pastéis, tenho loucura por pastéis. James começou a falar então de uma briga no parque de diversões, mas eu estava de olho na porta. Vi quando ela entrou conversando baixinho com um cara de bigode ruivo. Subiram a escada como dois gatos pisando macio. Não demorou nada e o raio do saxofone desandou a tocar.
— Sim senhor — eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.
— O pior é que eu estava de porre, mal pude me defender!
Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa. Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio.
— Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele não vem comer nunca?
James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.
— Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente — resmungou ele, tirando um palito. — Fico com pena, mas às vezes me dá raiva, corno besta. Um outro já tinha acabado com a vida dela!
Agora a música alcançava um agudo tão agudo que me doeu o ouvido. De novo pensei na moça ganindo de dor na carroceria, pedindo ajuda não sei mais para quem.
— Não topo isso, pomba.
— Isso o quê?
Cruzei o talher. A música no máximo, os dois no máximo trancados no quarto e eu ali vendo o calhorda do James palitar os dentes. Tive ganas de atirar no teto o prato de goiabada com queijo e me mandar para longe de toda aquela chateação.
— O café é fresco? — perguntei ao mulatinho que já limpava o oleado da mesa com um pano encardido como a cara dele.
— Feito agora.
Pela cara vi que era mentira.
— Não é preciso, tomo na esquina.
A música parou. Paguei, guardei o troco e olhei reto para aporta, porque tive o pressentimento que ela ia aparecer. E apareceu mesmo com o aninho de gata de telhado, o cabelo solto nas costas e o vestidinho amarelo mais curto ainda do que o vermelho. O tipo de bigode passou em seguida, abotoando o paletó. Cumprimentou a madame, fez ar de quem tinha muito o que fazer e foi para a rua.
— Sim senhor!
— Sim senhor o quê? — perguntou James.
— Quando ela entra no quarto com um tipo, ele começa a tocar, mas assim que ela aparece, ele para. Já reparou? Basta ela se enfurnar e ele já começa.
James pediu outra cerveja. Olhou para o teto.
— Mulher é o diabo...
Levantei-me e quando passei junto da mesa dela, atrasei o passo. Então ela deixou cair o guardanapo. Quando me abaixei, agradeceu, de olhos baixos.
— Ora, não precisava se incomodar...
Risquei o fósforo para acender-lhe o cigarro. Senti forte seu perfume.
— Amanhã? — perguntei, oferecendo-lhe os fósforos. — Às sete, está bem?
— É a porta que fica do lado da escada, à direita de quem sobe.
Saí em seguida, fingindo não ver a carinha safada de um dos anões que estava ali por perto e zarpei no meu caminhão antes que a madame viesse me perguntar se eu estava gostando da comida. No dia seguinte cheguei às sete em ponto, chovia potes e eu tinha que viajar a noite inteira. O mulatinho já amontoava nas cadeiras as almofadas para os anões. Subi a escada sem fazer barulho, me preparando para explicar que ia ao reservado, se por acaso aparecesse alguém. Mas ninguém apareceu. Na primeira porta, aquela à direita da escada, bati de leve e fui entrando. Não sei quanto tempo fiquei parado no meio do quarto: ali estava um moço segurando um saxofone. Estava sentado numa cadeira, em mangas de camisa, me olhando sem dizer uma palavra. Não parecia nem espantado nem nada, só me olhava.
— Desculpe, me enganei de quarto — eu disse, com uma voz que até hoje não sei onde fui buscar.
O moço apertou o saxofone contra o peito cavado.
— E na porta adiante — disse ele baixinho, indicando com a cabeça.
Procurei os cigarros só para fazer alguma coisa. Que situação, pomba. Se pudesse, agarrava aquela dona pelo cabelo, a estúpida. Ofereci-lhe cigarro.
— Está servido?
— Obrigado, não posso fumar.
Fui recuando de costas. E de repente não aguentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.
— E você aceita tudo isso assim quieto? Não reage? Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio! Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?
— Eu toco saxofone.
Fiquei olhando primeiro para a cara dele, que parecia feita de gesso de tão branca. Depois olhei para o saxofone. Ele corria os dedos compridos pelos botões, de baixo para cima, de cima para baixo, bem devagar, esperando que eu saísse para começar a tocar. Limpou com um lenço o bocal do instrumento, antes de começar com os malditos uivos.
Bati a porta. Então a porta do lado se abriu bem de mansinho, cheguei a ver a mão dela segurando a  maçaneta para que o vento não abrisse demais. Fiquei ainda um instante parado, sem saber mesmo o que fazer, juro que não tomei logo a decisão, ela esperando e eu parado feito besta, então, Cristo-Rei!? E então? Foi quando começou bem devagarinho a música do saxofone. Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Na rua, tropecei num dos anões metido num impermeável, desviei de outro, que já vinha vindo atrás e me enfurnei no caminhão. Escuridão e chuva. Quando dei a partida, o saxofone já subia num agudo que não chegava nunca ao fim. Minha vontade de fugir era tamanha que o caminhão saiu meio desembestado, num arranco.

O texto acima foi publicado no livro "Antes do Baile Verde", José Olympio Editores - Rio de Janeiro, 1979, e relacionado entre "Os cem melhores contos brasileiros do século", uma seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 233.