sexta-feira, 12 de junho de 2015

51 – O nadador – J. Cheever

John Cheever, (1912-1982), escritor norte americano nascido em Quincy, Massachussetts, é por muitos considerado como um dos maiores contistas do século 20. Seu conto “O nadador” originalmente publicado no The New Yorker em Julho de 1964, foi depois adaptado ao cinema com Burt Lancaster. É um conto construído com extrema precisão. Nada ali foi colocado ao acaso. Cada paragrafo e cada palavra, vão construindo o inesperado final que obriga o leitor a uma interessante reflexão. 
  
O nadador
John Cheever

Era um daqueles domingos de verão em que todo mundo diz: "Ontem à noite bebi demais." Podiam-se ouvir os fiéis a sussurra-lo ao sair da igreja, ou da boca do próprio padre, a tentar livrar-se da sotaina na sacristia, podia-se ouvir no golfe e na quadra de tênis, ou na reserva natural onde o chefe do grupo Audubon de observadores de pássaros curtia uma tremenda ressaca. "Bebi demais", disse Donald Westerhazy. "Todos bebemos demais", disse Lucinda Merrill. "Deve ter sido o vinho", disse Helen Westerhazy. "Bebi demais daquele clarete."
Passava-se isto na borda da piscina dos Westerhazy. A piscina, alimentada por um poço artesiano com alto teor de ferro, era de um verde pálido. Estava um dia magnífico. A Oeste havia uma densa formação de cúmulos tão parecida com uma cidade vista de longe - da proa de um barco que se aproximasse - que podia ter um nome. Lisboa. Hackensack. O sol estava quente. Neddy Merrill estava sentado junto da piscina, uma mão dentro d’água verde, outra segurando um copo de gin. Era um homem esguio – parecia ter a elegância particular da juventude - e embora estivesse longe de ser novo, nessa manhã descera pelo corrimão e dera um piparote nas costas de bronze da Afrodite de cima da mesa da entrada, enquanto trotava em direção ao cheiro do café na sala de jantar. Poderia ser comparado a um dia de Verão, mais precisamente às últimas horas da tarde, e apesar de não trazer uma raquete de tênis, a impressão que dava era decididamente de juventude, de esportista e de tempo ameno. Tinha estado a nadar e agora respirava profundamente, arquejante como se pudesse engolir pelos pulmões os elementos desse momento, o calor do sol, a intensidade do prazer que sentia. Parecia fluir-lhe tudo para o peito. A casa dele ficava em Bullet Park, cerca de treze quilômetros para Sul, onde as suas quatro lindas filhas já teriam almoçado e deviam estar a jogar tênis. Ocorreu-lhe então que se fizesse um desvio para Sudoeste podia ir a nado para casa.
A vida dele não era uma prisão, e o prazer que esta observação lhe deu não se podia explicar pela evasão que sugeria. Parecia vendo, com olho de cartógrafo, a linha de piscinas, aquele riacho quase subterrâneo que traçava uma curva através da região. Tinha feito uma descoberta, uma contribuição para a geografia moderna; iria dar ao rio o nome de Lucinda, como a mulher. Não era pessoa dada a brincadeiras e não era bobo, mas era decididamente original e tinha uma vaga e modesta ideia de si mesmo como uma figura lendária. O dia estava bonito e pareceu-lhe que nadar uma grande distância podia aumentar e comemorar essa beleza.
Tirou o pulôver que tinha sobre os ombros e mergulhou. Sentia um desprezo inexplicável pelos homens que não se atiravam às piscinas. Nadou num crawl sacudido, respirando ora a cada braçada, ora à quarta braçada e contando, algures no fundo da consciência, o um-dois, um-dois, da batida dos pés. Não era a braçada indicada para longas distâncias, mas o treino da natação tinha imposto ao esporte a sela de alguns costumes e nesta parte do mundo o crawl era um costume. Ser abraçado e sustentado pela água verde-clara era menos um prazer, dava a impressão, do que o reassumir de uma condição natural, e teria gostado de nadar sem calções, mas isso não era possível, considerando o seu projeto. Içou-se para a borda no canto oposto – nunca usava a escada - e afastou-se pelo gramado. Quando Lucinda perguntou onde ia, disse que ia para casa a nado.
Os únicos mapas e roteiros que tinha de seguir eram de memória ou imaginários, mas suficientemente claros. Primeiro havia os Grahams, os Hammers, os Lears, os Howlands, e os Crosscups. Atravessava Ditmar Street para os Bunkers e seguia, depois de uma curta corrida, para os Levys, os Welchers, e a piscina pública de Lancaster. Depois havia os Hallorans, os Sachses, os Biswangers, Shirley Adams, os Gilmartins, e os Clydes. O dia estava magnífico, e viver num mundo tão generosamente fornecido de água parecia-lhe um verdadeiro dom, uma dádiva. Sentia o coração ligeiro e atravessou a grama correndo. Voltar a casa por uma rota desacostumada fazia-o sentir-se um peregrino, um explorador, um homem com um destino, e sabia que iria encontrar amigos ao longo de todo o caminho; as margens do Rio Lucinda estariam cobertas de amigos.
Atravessou uma sebe que separava o terreno dos Westerhazy do dos Grahams, passou debaixo de umas macieiras em flor, seguiu até onde estavam a bomba e o filtro e foi dar à piscina dos Grahams. "Olha o Neddy", disse a Sra. Graham, "que bela surpresa. Passei a manhã ao telefone a ver se te encontrava. Vai, deixa-me arranjar-te uma bebida." Percebeu e não, como qualquer explorador, que os costumes e tradições de hospitalidade dos nativos tinham de ser tratados com diplomacia se realmente quisesse chegar ao seu destino. Não queria deixar confusos os Grahams nem parecer indelicado, mas não tinha tempo para se demorar ali. Nadou a piscina de uma ponta à outra e foi se encontrar com eles ao sol, sendo salvo, minutos depois, pela chegada de dois carros cheios de amigos de Connecticut. No meio do alarido do encontro conseguiu escapar-se. Desceu pela frente da casa dos Grahams, passou por cima de uma sebe com espinhos e atravessou um terreno vago para os Hammers. A Sra. Hammer, levantando os olhos das roseiras, viu-o passar a nado embora não percebesse muito bem quem era. Os Lears ouviram-no passar a espadanar pelas janelas abertas da sala de estar. Os Howlands e os Crosscups estavam fora. Depois de sair dos Howlands atravessou Ditmar Street e dirigiu-se aos Bunkers, onde podia ouvir, mesmo àquela distância, o ruído de uma festa.
A água refratava o som das vozes e dos risos e parecia deixá-lo suspenso no ar. A piscina dos Bunkers ficava numa elevação e teve de subir umas escadas até um terraço onde uns vinte e cinco ou trinta homens e mulheres estavam bebendo. A única pessoa na água era Rusty Towers, que estava num colchão de inflável. Oh, como eram boas e verdejantes as margens do Rio Lucinda! Homens e mulheres prósperos reunidos junto às águas cor de safira, enquanto empregados de casaco branco lhes serviam gin gelado. Nos ares, um pequeno avião De Haviland dava voltas e voltas no céu com o que parecia a alegria de uma criança num balanço. Ned sentiu uma afeição passageira pela cena, um enternecimento por aquele convívio, como se fosse uma coisa que pudesse tocar. Ao longe ouviu um trovão. Assim que Enid Bunker o viu, começou a berrar: "Oh, olha quem está aqui! Mas que bela surpresa! Quando a Lucinda me disse que não podias vir, quase morri." Abriu caminho até ele pelo meio do grupo, e depois de trocarem um beijo levou-o até ao bar, um percurso interrompido por ter de beijar outras oito ou dez mulheres e apertar a mão a outros tantos homens. Um barman sorridente que tinha visto numas cem festas serviu-lhe um gin com água tônica e Ned deixou-se ficar um pouco junto ao bar, ansioso por não se deixar segurar em alguma conversa que lhe pudesse atrasar a travessia. Quando parecia estar prestes a ficar cercado, deu um mergulho e nadou junto à borda para evitar colidir com o colchão de Rusty. Na ponta oposta da piscina passou pelos Tomlisons com um grande sorriso e seguiu em passo de corrida pela trilha do jardim. Os gravetos cortavam-lhe os pés, mas era a única coisa desagradável. A festa estava confinada à piscina, e à medida que avançava em direção à casa, ouvia o som vivo e aquático das vozes mais apagado, ouvia o ruído de um rádio na cozinha dos Bunkers, onde alguém escutava um jogo de beisebol. Domingo à tarde. Esgueirou-se pelo meio dos carros estacionados e desceu pelo caminho gramado até Alewives Lane. Não queria que o vissem na estrada de shorts, mas não havia trânsito e percorreu a curta distância que o separava do caminho de entrada dos Levys, assinalado com uma tabuleta de PROPRIEDADE PRIVADA e um tubo verde para o New York Times. Todas as portas e janelas da casa enorme estavam abertas mas não havia sinais de vida; nem sequer um cão latindo. Deu a volta à casa até à piscina e viu que os Levys não tinham saído há muito tempo. Havia copos, garrafas e pratos de nozes em cima de uma mesa junto ao lado fundo da piscina, onde havia um vestiário ou um pavilhão, decorado com lanternas japonesas. Depois de ter nadado uma piscina, pegou num copo e serviu-se de uma bebida. Era a sua quarta ou quinta bebida e nadara cerca de metade do comprimento do Rio Lucinda. Sentia-se cansado, limpo,  contente nesse momento por estar só; contente com tudo.
Ia cair uma tempestade. A formação de cúmulos - a tal cidade - subira e estava mais escura, e enquanto estava ali sentado voltou a ouvir o ribombar do trovão. O De Haviland girava ainda nos ares e Ned teve a impressão de que quase podia ouvir o piloto a rir de prazer na tarde; mas quando se ouviu um novo trovão largou para casa. Soou o apito de um trem e perguntou-se que horas seriam. Quatro? Cinco? Imaginou o salão da estação àquela hora, onde um empregado de mesa, o smoking sob um avental de plástico, um anão com um ramo de flores embrulhado em jornal, uma mulher que tinha estado a chorar, estariam á espera do trem suburbano. De repente começou a escurecer; foi nesse momento que os pássaros minúsculos deram a impressão de mudar o seu canto para um qualquer agudo e reconhecível anúncio da aproximação da tempestade. Ouviu então o tênue ruído de água a cair da copa de um carvalho atrás dele, como se alguém tivesse aberto uma torneira. E então um ruído de fontes chegou-lhe das copas de todas as árvores altas. Porque gostaria de tempestades, que significado teria a sua excitação quando as portas se escancaravam e os ventos da chuva irrompiam violentamente pelas escadas acima, porque lhe teria a simples tarefa de fechar as janelas de uma casa antiga parecido necessária e urgente, porque tinham para ele as primeiras notas líquidas de uma tempestade o som inconfundível das boas notícias, das novas festivas e alegres ? Depois houve uma explosão, um cheiro a pólvora, e a chuva fustigou as lanternas japonesas que a Sra. Levy tinha comprado em Quioto há dois anos, ou fora ainda no ano antes desse?
Deixou-se ficar no pavilhão dos Levys até passar a tempestade. A chuva arrefecera o ar e Ned estremeceu. A força do vento tinha despido um plátano das folhas vermelhas e amarelas, espalhando-as pela grama e a água. Era em fins de Junho, pelo que a ·árvore devia estar com míldio, no entanto sentiu uma tristeza estranha com este sinal do Outono. Retesou os ombros, esvaziou o copo, e encaminhou-se para a piscina dos Welchers. Isto significava atravessar o picadeiro dos Lindleys e ficou admirado ao vê-lo cheio de mato e todos os obstáculos desmontados. Perguntou-se se os Lindleys teriam vendido os cavalos ou se teriam ido passar fora o Verão e deixado os animais em pensão. Pareceu-lhe lembrar-se de ter ouvido qualquer coisa sobre os Lindleys e os cavalos, mas a lembrança era confusa. Prosseguiu então, descalço pela grama molhada, para os Welchers, onde descobriu que a piscina estava seca.
Esta quebra na sua corrente de água desapontou-o de um modo absurdo, e sentiu-se como um explorador que procura uma nascente torrencial e encontra um regato morto. Sentia-se desapontado e ludibriado. Era bastante comum ir para fora no Verão, mas nunca ninguém esvaziava a piscina. Os Welchers tinham claramente ido embora. Os apetrechos da piscina estavam dobrados, empilhados e cobertos com uma lona. O vestiário estava fechado á chave. Todas as janelas da casa estavam fechadas, e quando deu a volta até á entrada viu uma tabuleta de VENDE-SE pregada numa árvore. Quando fora a última vez que ouvira falar nos Welchers - ou melhor, quando fora a última vez que ele e Lucinda tinham recusado um convite deles para jantar? Parecia ter sido apenas há uma semana ou à volta disso. Será que a memória lhe começava a falhar ou ser· que a tinha disciplinado de tal modo na repressão dos fatos desagradáveis que acabara por lhe atingir o sentido da verdade? E então ouviu ao longe o som de um jogo de tênis. Isto animou-o, apagou todas as suas apreensões, permitindo-lhe olhar o céu carregado e o frio do ar com indiferença. Este era o dia em que Neddy Merrill tinha atravessado a nado o distrito. Grande dia! Encaminhou-se então para a sua passagem mais difícil.
Quem tivesse ido dar uma volta de carro nessa tarde de domingo, tê-lo-ia visto, praticamente nu, parado na beira da Estrada 424, à espera de uma oportunidade para atravessar. Poderiam ficar a pensar se teria sido vítima de alguma brincadeira de mau gosto, se o carro teria quebrado, ou se era simplesmente algum maluco. Ali postado, descalço no meio dos detritos da autoestrada - latas de cerveja, papéis e remendos de borracha – exposto ao ridículo, tinha um ar patético. Sabia desde o começo que isto fazia parte da travessia - figurava nos seus mapas - mas confrontado com as filas de trânsito, contorcendo-se na luz estival, percebeu não estar preparado. Riam-se dele, faziam chacota, atiraram-lhe uma lata de cerveja, e sentia-se sem dignidade nem disposição para enfrentar a situação. Podia ter voltado para trás, para os Westerhazys, onde Lucinda ainda devia estar sentada ao sol. Não tinha assinado nada, prometido nada, nem feito qualquer juramento, nem sequer a si próprio. Acreditando como acreditava que toda a teimosia humana era sensível ao bom-senso, por que era incapaz de voltar para trás? Por que estava ele determinado a completar a travessia mesmo que isso significasse pôr a vida em perigo? A partir de que altura esta brincadeira, esta piada, esta criancice, se tinha tornado numa coisa séria? Não podia voltar para trás, não conseguia sequer lembrar-se com clareza da água verde dos Westerhazys, do sentimento de inalar os elementos do dia, as vozes amigas e calmas dizendo que tinham bebido demais. No espaço de uma hora, mais ou menos, tinha coberto uma distância que tornara o regresso impossível.
Um homem de idade, rodando pela auto-estrada a vinte quilômetros por hora, permitiu-lhe atingir o meio da estrada, onde havia um ilha de grama. Ficava agora exposto à zombaria do trânsito que seguia para Norte, mas ao fim de dez ou quinze minutos conseguiu atravessar. Daqui não tinha de caminhar muito para chegar ao Centro Recreativo no limite da aldeia de Lancaster, onde havia alguns campos de handebol e uma piscina pública.
O efeito da água nas vozes, a ilusão de brilho e de suspense, era o mesmo que nos Bunkers, mas os sons aqui eram mais altos, ásperos, e havia mais guinchos, e assim que entrou no recinto apinhado deparou com o regulamento. "TODOS OS BANHISTAS DEVEM TOMAR UMA DUCHA ANTES DE ENTRAR NA PISCINA. TODOS OS BANHISTAS DEVEM PASSAR PELO LAVA-PÉS. TODOS OS BANHISTAS DEVEM USAR O CRACHÁ DE IDENTIFICAÇAO." Tomou uma ducha, andou por uma solução turva e acre, e abriu caminho até à borda da piscina. Tresandava a cloro e dava-lhe a impressão de um tanque. Dois salva-vidas em duas torres, a intervalos que pareciam regulares, sopravam apitos de polÌcia e descompunham os banhistas através de alto-falantes. Neddy lembrou-se com saudade da água cor de safira dos Bunkers e pensou que se calhar ia ficar contaminado - arriscando a prosperidade e o encanto - ao nadar naquele caldo, mas lembrou-se que era um explorador, um peregrino, e que isto não passava de uma curva estagnada no Rio Lucinda. Mergulhou, com um franzir desgostado, no cloro e viu-se obrigado a nadar com a cabeça fora da água para evitar colisões, mas mesmo assim não deixaram de esbarrar nele, de o salpicar, de o empurrar. Quando atingiu a parte baixa, ambos os guardas estavam aos berros: "Eh! Você, você sem crachá de identificação, saia já da piscina." Obedeceu, mas não tinham maneira de o perseguir e ele continuou, por entre cheiro de bronzeador e cloro, pela vedação de rede e passou os campos de handebol. Atravessando a estrada entrou na parte arborizada da propriedade dos Hallorans. A mata não tinha sido limpa, o caminho era traiçoeiro e difícil até chegar ao gramado e à sebe aparada de faia que rodeava a piscina.
Os Hallorans eram amigos, um casal idoso com uma fortuna enorme que parecia deliciar-se com a suspeita de que pudessem ser comunistas. Eram devotados reformistas, mas não eram comunistas, e no entanto, sempre que os acusavam, como por vezes acontecia, de subversão, dava a impressão de que isso lhes agradava e os entusiasmava. A sebe de faia estava amarela e Ned pensou que deveria estar com mÌldio, tal como o plátano dos Levys. Gritou olé, olé, para avisar os Hollorans da sua chegada, para atenuar a invasão da sua privacidade. Os Hallorans, por razıes que nunca lhe tinham sido explicadas, não usavam maiôs. Nem havia, de fato, explicações a dar. O nudismo era um aspecto do seu inflexível zelo reformista e Ned tirou educadamente os shorts antes de passar pela abertura na sebe.
A Sra. Halloran, uma mulher corpulenta de cabelos brancos e rosto sereno, estava lendo o Times. O Sr. Holloran estava a retirar folhas da piscina com um apanhador. Não pareciam surpreendidos ou desagradados por o verem. A piscina deles era talvez a mais antiga da região, um retângulo em alvenaria, alimentada por um riacho. Não tinha filtro nem bomba e a água era do dourado opaco da torrente.
– Estou atravessando o Condado a nado - disse Ned.
– Sim? Não sabia que era possível - exclamou A Sra. Halloran.
– Bem, já consegui vir desde os Westerhazys - disse Ned. - Devem ser uns seis quilômetros e tal.
Deixou os shorts junto ao lado fundo da piscina, dirigiu-se à parte baixa e fez a distância a nado. Quando estava saindo da água ouviu a Sra. Halloran dizer: "Ficamos imensamente tristes com todas as suas desgraças, Neddy."
– As minhas desgraças? – perguntou Ned. – Não sei do que está falando.
–  Então, mas ouvimos dizer que vendeu a casa e que as suas pobres filhas...
– Não me lembro de ter vendido a casa – disse Ned – e as meninas estão em casa.
–  Pois - suspirou a Sra. Halloran – Pois é.... –  A voz dela enchia o ar de uma melancolia inesperada e Ned respondeu com vivacidade:
– Obrigado pelo mergulho.
– Então, bom passeio – disse a Sra. Halloran.
Passando a sebe, vestiu os shorts. Estavam largos e Ned perguntou-se se, no espaço de uma tarde, poderia ter perdido algum peso. Estava com frio e cansado e os Hallorans nus e a água escura deles tinham-no deprimido.
Tanto tempo a nadar era demasiado para as suas forças, mas como poderia tê-lo adivinhado, ao escorregar pelo corrimão nessa manhã ou sentado ao sol em casa dos Westerhazys? Sentia os braços sem forças. As pernas pareciam de borracha e doíam-lhe nas articulações. O pior era o frio nos ossos e o pressentimento de que não voltariam a aquecer. As folhas caíam á sua volta e sentiu o cheiro de fumaça de lenha no vento. Quem estaria fazendo fogueiras nesta época do ano?

Precisava de uma bebida. Um uísque havia de o aquecer, de lhe levantar o moral, aguentá-lo durante a última parte da jornada, renovando-lhe o sentimento de que era original e valoroso atravessar o distrito a nado. Os nadadores do Canal bebiam brandy. Precisava de um estimulante. Atravessou o gramado em frente da casa dos Hallorans e foi por uma vereda que descia até onde eles tinham construÌdo uma casa para a filha única, Helen, e o marido, Eric Sachs. A piscina dos Sachs era pequena e Ned encontrou lá Helen e o marido.
–  Oh, Neddy – disse Helen –  Almoçou em casa da mãe?
– Não foi bem isso – disse Ned. – Passei para ver os teus pais. – Pareceu-lhe ser uma explicação suficiente –  Lamento imenso uma intrusão destas, mas apanhei um resfriado e pensei se me dariam uma bebida.
– Pois, teria muito prazer – disse Helen – mas nesta casa nunca mais houve nada que se bebesse desde a operação do Eric. Já lá vão três anos.
Será que estava perdendo a memória, será que a sua capacidade para ignorar fatos penosos fizera com que se esquecesse de que tinha vendido a casa, que as filhas estavam com problemas, e que o amigo tinha estado doente? Os olhos desviaram-se do rosto de Eric para o seu abdomem, onde viu três cicatrizes apagadas, suturadas, duas delas com pelo menos trinta centímetros de comprimento. O umbigo tinha desaparecido, e como seria, pensou Neddy, quando a mão tateante que às três da manhã avalia o que recebemos da natureza encontrasse uma barriga sem umbigo, sem nenhuma ligação ao nascimento, uma tal quebra na sucessão?
– Tenho a certeza de que encontra uma bebida nos Biswangers – disse Helen.
– Há uma festa enorme. Ouve-se daqui. Escute!
Helen levantou a cabeça e do outro lado da estrada, dos gramados, dos jardins, do arvoredo, dos campos, Ned ouviu de novo o animado som das vozes por cima da água. "Bem, vou-me molhar", disse ele, continuando a sentir que não tinha liberdade de escolha quanto aos seus meios de viajar. Mergulhou na água fria dos Sachs e, arquejante, quase se afogando, atravessou a piscina de uma ponta à outra. "Lucinda e eu queremos imenso vê-los – disse ele por cima do ombro, o rosto voltado para casa dos Biswangers. – Lamentamos ter deixado passar tanto tempo e vamos telefonar muito em breve."
Atravessou alguns campos até chegar a casa dos Biswangers e aos ruídos de farra que de lá vinham. Haviam de sentir que era uma honra dar-lhe uma bebida, seria um prazer darem-lhe uma bebida. Os Biswangers convidavam-no para jantar, a ele e Lucinda, quatro vezes por ano, com seis semanas de antecedência. Eram sempre rejeitados e mesmo assim continuavam a mandar-lhes convites, sem querer compreender as rígidas e pouco democráticas realidades da sua sociedade. Eram o tipo de pessoas que discutem o preço das coisas nas recepções, que trocam dicas sobre a Bolsa durante o jantar, e que depois do jantar contam anedotas porcas sem olhar quem está por perto. Não pertenciam ao círculo de Ned - nem sequer estavam na lista de cartões de Natal de Lucinda. Dirigiu-se à piscina deles com um sentimento de indiferença, de benevolência, e alguma inquietação, uma vez que parecia estar escurecendo, quando estes eram os dias mais compridos do ano. A festa, quando entrou, estava animada e com muita gente. Grace Biswanger era o tipo de anfitriã que convidava o oculista, o veterinário, o agente imobiliário, e o dentista. Não havia ninguém a nadar e o crepúsculo, refletindo-se na água da piscina, tinha uma claridade de inverno. Havia um bar e Ned dirigiu-se para lá. Quando Grace Biswanger o avistou veio ter com ele, não amistosamente como tinha todo o direito de esperar, mas sim com ar belicoso.
–  Olha, nesta festa há de tudo – disse ela em voz alta – até mesmo penetras.
Não que lhe pudesse incomodar - tal hipótese estava fora de questão e por isso não se encolheu.
– E como penetra – perguntou delicadamente – tenho direito a bebida?"
–  Faça como entender – disse ela. – Não me parece que ligue muito a convites.
Virou-lhe as costas e Ned dirigiu-se ao bar e pediu um uísque. O barman serviu-o, mas serviu-o com maus modos. Ned pertencia a um universo onde os empregados respeitavam os escalões sociais e ser enxovalhado por um tipo que era barman de meio espediente significava que tinha sofrido alguma perda de estima social. Ou talvez o homem fosse novo e mal informado. E então ouviu Grace dizer às suas costas: "Perderam tudo de um ia para o outro – ficaram só com o ordenado – e ele apareceu aqui bêbado um domingo e pediu cinco mil dólares emprestados..." Aquela estava sempre a falar em dinheiro. Pior do que comer ervilhas com faca. Mergulhou na piscina, nadou de uma ponta à outra e foi-se embora.
A piscina seguinte na lista, a antepenúltima, era a da sua antiga amante, Shirley Adams. Se em casa dos Biswangers sofrera algumas feridas, seriam saradas aqui. O amor - a intimidade sexual, na verdade - era o supremo elixir, o analgésico, a pílula de cores alegres capaz de trazer de novo a Primavera à sua vida, a alegria de viver ao seu coração. Tinham tido um caso na semana passada, no mês passado, no ano passado. Não conseguia lembrar-se. Tinha sido ele a romper, ele é que saíra por cima, e transpôs a cancela do muro que rodeava a piscina sem sequer lhe aflorar alguma sombra à sua autoconfiança. Parecia-lhe de certo modo ser a sua própria piscina, pois que o amante, especialmente o amante ilícito, dispõe dos bens da amante com uma autoridade que o sagrado matrimônio desconhece. Shirley estava lá, o cabelo cor de cobre, mas a sua figura, na borda da água luminosa, cerúlea, não despertou nele nenhuma lembrança profunda. Tinha sido, pensou, um caso ligeiro, embora ela tivesse chorado quando ele rompeu. Pareceu-lhe ficar confusa ao vê-lo e Ned perguntou-se se ainda estaria magoada. Será que ela, Deus queira que não, iria chorar outra vez?
– Que é que que você quer? – perguntou ela.
– Estou a atravessar o Condado a nado.
–  Meu Deus. Será que nunca mais cresces?
– O que está acontecendo?
–  Se veio pedir dinheiro - disse ela - não te dou nem mais um centavo.
–  Podia me oferecer uma bebida.
– Podia, mas não ofereço. Não estou só.
–  Bem, então vou andando.
Mergulhou e atravessou a piscina, mas quando tentou içar-se para a borda apercebeu-se de ficara sem força nos braços e nos ombros e esbracejou até às escadas, subindo-as para sair. Olhando por cima do ombro viu, no vestiário iluminado, um homem novo. Ao sair para a grama escura sentiu o cheiro dos crisântemos ou malmequeres - um desses teimosos aromas outonais - no ar da noite, forte como um gás. Levantando os olhos, viu que as estrelas já tinham surgido, mas por que tinha a impressão de estar vendo Andrômeda, Cefeu e a Cassiopéia? Onde estavam as constelações de Junho? Começou a chorar.
Era provavelmente a primeira vez em sua vida de adulto que chorava, e seguramente a primeira vez na vida que se tinha sentido tão perdido, enregelado, cansado e confuso. Não conseguia entender a grosseria do barman ou a brusquidão de uma amante que tivera ajoelhada aos seus pés e lhe molhara de lágrimas as calças. Tinha nadado demais, tinha estado imerso demasiado tempo, e o nariz e a garganta doíam-lhe por causa da água. Precisava de uma bebida, de um pouco de companhia, e algumas roupas lavadas e secas, e embora pudesse ir diretamente pela estrada para casa, prosseguiu em direção à piscina dos Gilmartins. Aqui, pela primeira vez na sua vida, não mergulhou, descendo antes a escada para as águas gélidas e nadou de lado, sem jeito, uma coisa que devia ter aprendido em rapaz. Cambaleava de fadiga ao caminhar para casa dos Clydes e esbracejou a todo o comprimento da piscina deles, detendo-se várias vezes com a mão na borda para descansar. Subiu pela escada e perguntou a si próprio se teria forças para chegar a casa. Tinha feito o que queria, tinha atravessado o Condado a nadar, mas estava tão aturdido de cansaço que o triunfo lhe surgia vago. Curvado, segurando-se às estacas da cerca como apoio, subiu o caminho da sua própria casa.

Estava tudo às escuras. Seria assim tão tarde que já estavam todos deitados? Será que Lucinda tinha ficado em casa dos Westerhazys para jantar? E que as meninas tinham ido se encontrar com ela ou tinham ido a qualquer outro lugar? Então não tinham combinado, como faziam todos os domingos, não aceitar nenhum convite e ficar em casa? Experimentou as portas da garagem para ver que carros estavam, mas as portas estavam fechadas à chave e as mãos ficaram-lhe cheias da ferrugem dos puxadores. Dirigindo-se a casa, viu que a violência da tempestade tinha desprendido uma calha. Pendia agora por cima da porta de entrada como uma vareta de guarda-chuva, mas podia repará-la na manhã seguinte. A casa estava fechada, e Ned pensou que o estúpido do cozinheiro ou a estúpida da empregada deviam ter fechado tudo à chave até que se lembrou que há muito tempo não tinham cozinheiro nem empregada. Gritou, bateu à porta, tentou força-la com o ombro, e então, espreitando pela janela, viu que a casa estava vazia.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

50 – Onnagata – Y. Mishima

Yukio Mishima escritor japonês (1925-1970), levou a extremos o amor por seu país, criando para si próprio um personagem de difícil compreensão, que saiu bombasticamente de cena com um seppuku (haraquiri) o ritualístico suicídio japonês, depois de uma teatral tentativa de golpe de estado para restaurar em 1970 os poderes do imperador. Da sua paixão pela cultura japonesa e pelo teatro, nasce "Onnagata", um conto tão elegante, sutil e misterioso quanto o ator de Kabuki que ele descreve.

Onnagata
Yukio Mishima
Tradução de Aulide. S. Rodrigues

Masuyama ficara completamente encantado com a arte de Mangiku; assim, depois de se formar em literatura clássica japonesa, resolveu empregar-se no teatro Kabuki. O desempenho de Mangiku Sanokawa o deixara extasiado.
O gosto de Masuyama pelo Kabuki começou a se manifestar quando estava no ginásio. Nessa época Mangiku, então principiante como onnagata, fazia papeis sem importância, como o da borboleta fantasma em Kagami Jishi ou, na melhor das hipóteses, a empregada Chidori, no Repudio de Genta. A interpretação de Mangiku era ortodoxa e sem personalidade; ninguém imaginava que pudesse chegar a sua atual eminência. Porém, já naquele tempo, Masuyama percebia as chamas geladas que emanavam da beleza altiva do ator. O publico em geral, naturalmente, não notava coisa alguma. Além disso, nenhum critico de teatro jamais chamara a atenção para aquela estranha qualidade de Mangiku, aquelas centelhas de chamas, visíveis através da neve, que iluminavam seus desempenhos desde o começo de sua carreira. Agora todos falavam como se Mangiku fosse uma descoberta pessoal.
Mangiku Sanokawa era um verdadeiro onnagata, espécie raramente encontrada nos nossos dias. Ao contrario da maioria dos onnagatas contemporâneos, era incapaz de inter­pretar bem papeis masculinos. Sua presença em cena era brilhante, mas com sugestões de sombras, cada gesto seu a essência da delicadeza. Mangiku jamais expressava coisa alguma — força, autoridade, resistência ou coragem — a não ser por meio do único agente disponível a sua arte, a expressão feminina; mas através desse agente conseguia filtrar todo o tipo de emoção humana. Essa é a característica do verdadeiro onnagata, mas nos nossos dias eles são muito raros. Seu colorido musical, produzido por um instrumento espe­cial e muito refinado, não pode ser conseguido com um ins­trumento normal em tom menor, nem reproduzido por uma imitação servil de mulheres de verdade.
Yukihime, a Princesa da Neve, em Kinkakuji era um dos papeis mais perfeitos de Mangiku. Masuyama lembrava-se de ter visto Mangiku no papel de Yukihime dez vezes em um mês, e por mais que repetisse a experiência, seu entusiasmo não diminuía. Tudo o que simbolizava Sanokawa Mangiku podia ser encontrado nessa peça, os elementos entrelaçados, desde as primeiras palavras do narrador: “O Pavilhão Dourado, nas montanhas, refugio do Senhor Yoshimitsu, Primeiro-ministro e Monge do Parque dos Gamos, tem três andares e seu jardim e adornado com belas paisagens: a pedra guardiã da noite, a água escorrendo sob as rochas, a cascata repleta de primavera, os salgueiros e as cerejeiras plantados lado a lado; a capital de lá é um vasto brocado multicolorido.” O brilho ofuscante do cenário, mostrando cerejeiras em flor, uma cachoeira e o cintilante Pavilhão Dourado; os tambores, sugerindo o som surdo da agua caindo e contribuindo para uma constante agitação no palco; o rosto pálido e sádico do lascivo Daizen Matsunaga, o gene­ral rebelde; o milagre da espada magica, que cintila ao sol da manhã com a imagem sagrada de Fudo, mas que mostra a imagem de um dragão quando apontada para o sol poente; o fulgor do pôr-do-sol na cachoeira e nas cerejeiras; as flores das cerejeiras espalhando suas pétalas uma a uma — tudo na peça existe em função de uma mulher, a bela e aristocrática Yukihime. Não há nada de diferente na roupa de Yuki­hime, o vestido de seda vermelha usado por todas as jovens princesas. Mas a presença espiritual da neve, concordando com seu nome, paira sobre essa neta do grande pintor Sesshu, e as paisagens de Sesshu, impregnadas de neve, podem ser sentidas na vastidão do cenário. Essa neve fantasma empresta ao vestido de Yukihime seu brilho ofuscante.
Masuyama gostava especialmente da cena em que a princesa, amarrada com cordas na cerejeira, lembra-se da lenda do seu avô, e com os dedos do pé desenha um rato nas flores caídas, que, adquirindo vida, rói as cordas que a prendem. Não é preciso dizer que Mangiku Sanokawa não se valia dos movimentos mecânicos usados por alguns onnagatas, nessa cena. As cordas que prendiam Mangiku a arvore o faziam parecer mais belo do que nunca: todos os arabescos artificiais desse onnagata — a delicada linguagem do corpo, o jogo dos dedos, a curva da mão — por mais que possam pa­recer forçados para os movimentos da vida diária — adquiriam uma estranha vitalidade quando usados por Yukihime atada à árvore. As atitudes contorcidas e complexas impostas pelas cordas faziam de cada momento uma crise refinada e essas crises pareciam fluir, uma para dentro da outra, com a energia irresistível de ondas sucessivas.
Os desempenhos de Mangiku sem duvida tinham momentos de diabólico poder. Ele usava os belos olhos com tanta arte que em um segundo podia criar em toda a audiência a ilusão de que a característica de uma cena fora completamente alterada: quando seu olhar envolvia o palco, vindo do hanamichi, [1] ou o banamichi, vindo do palco, ou quando voltava-se rápido para cima, para o sino, em Dojoji. Na cena do palácio, em Imoseyama, Mangiku fazia o papel de Omiwa, cujo amante fora roubado pela Princesa Tachibana e que por isso sofrera a zombaria cruel das damas da corte. No fim, Omiwa corre para o hanamichi, quase ensandecida de ciúmes e de raiva; nesse momento escuta as vozes das damas da corte no fundo do palco, dizendo: “Um noivo sem igual foi encontrado para a nossa princesa. Que alegria para todas nos!” O narrador, sentado ao lado do palco, declama com voz forte: “Omiwa, ouvindo isso, imediatamente olha para trás.” Nesse momento Omiwa se transforma completamente e seu rosto revela os sinais de uma devoção possessiva.
Masuyama sentia uma espécie de terror cada vez que testemunhava esse momento. Por um instante, uma sombra diabólica encobria o palco brilhante com seu cenário maravilhoso e belos vestuários, bem como os milhares de espectadores atentos. Essa força emanava visivelmente do corpo de Mangiku, mas ao mesmo tempo transcendia sua carne. Nessas cenas, Masuyama tinha a impressão de que uma fonte escura jorrava daquela figura no palco, aquela figura tão repleta de maciez, fragilidade, graça, delicadeza e encantos femininos. Era algo que não podia identificar, mas sentia que a verdadeira essência daquela fonte escura era uma presença maléfica e estranha, o resíduo final da fascinação do ator, um demônio sedutor que desviava os homens dos seus caminhos, afogando-os em um momento de beleza. Porém, não se explica uma coisa simplesmente dando-lhe um nome.
Omiwa balança a cabeça e seus cabelos se soltam em desordem. No palco, para o qual volta agora, deixando o hanamichi, a lâmina de Funashichi a espera.
“A casa esta repleta de musica com um tom de tristeza outonal”, declama o narrador.
Há algo de terrível na pressa com que os passos de Omiwa a conduzem para a morte. Os pés descalços muito brancos, correndo para o desastre e para o fim, desarrumando apressados as pregas do quimono, parecem saber exatamente quando e onde, no palco, atingirão o objetivo para onde os conduzem as violentas emoções; apressam-se, jubilosos e triunfantes, mesmo entre as torturas do ciúme. A dor que ela demonstra é desenhada em um fundo de alegria, como seu quimono, externamente escuro, raiado de fios de ouro, e na parte interna iluminado com fios de prata de varias cores.
2
A decisão original de Masuyama de se empregar no teatro fora inspirada por seu entusiasmo pelo Kabuki , e especialmente por Mangiku; além disso, sabia que jamais se libertaria daquela servidão se não procurasse se familiarizar com o mundo dos bastidores. Já haviam lhe falado sobre o desencanto dos bastidores, e queria mergulhar naquele mundo e experimentar pessoalmente a desilusão genuína.
Porém, o desencanto que esperava jamais chegou. O próprio Mangiku o tornava impossível. Mangiku seguia fielmente as regras do manual do onnagata do século dezoito, Ayamegusa. “Um onnagata, mesmo no camarim, deve conservar as atitudes de um onnagata. Quando faz suas refeições, deve ter o cuidado de ficar de costas, para que não possam vê-lo.” Sempre que Mangiku, sem tempo para deixar o camarim, era obrigado a comer na presença de visitantes, virava-se para sua mesa e, desculpando-se, comia rapidamente, com tanta discrição que nem se percebia, por trás, que estava comendo.
Sem duvida, a beleza feminina representada por Mangiku no palco havia cativado Masuyama, como homem. Entretanto, por mais estranho que pareça, o encanto não se desfez, nem depois de ter observado atentamente Mangiku no camarim. O corpo de Mangiku, quando tirava o quimono da peça, era delicado, mas completamente masculino. Na verdade, Masuyama ficava um tanto confuso quando Mangiku, sentado na frente da penteadeira, sua quase nudez demonstrando claramente que era um homem, cumprimentava os visitantes com gestos e palavras delicadas e femininas, enquanto passava uma espessa camada de pós nos ombros. Se o próprio Masuyama, há tanto tempo admirador de Kabuki, havia experimentado estranhas sensações nas suas primeiras visitas ao camarim, qual seria a reação das pessoas que não gostam do Kabuki, porque o onnagata as constrange, ao ver aquela cena?
Entretanto, o que Masuyama sentiu ao ver Mangiku depois do espetáculo, despido, a não ser pelas roupas de baixo de gaze, que usava para absorver a transpiração, não foi desencanto e sim alivio. A imagem, por si mesma, poderia parecer grotesca, mas a natureza do fascínio sentido por Masuyama — sua qualidade intrínseca, podemos dizer — não se fundava em uma ilusão superficial, portanto aquela revelação não podia destrui-lo. Mesmo depois de Mangiku tirar a roupa, era evidente que continuava vestido com varias camadas de roupas esplêndidas sob a pele. Sua nudez era uma manifestação passageira. Algo que era responsável por sua aparência refinada no palco estava sem duvida guardado dentro dele.
Masuyama gostava de ver Mangiku quando ele voltava para o camarim, depois de desempenhar um papel importante. O fulgor das emoções do papel que acabava de representar pairava ainda sobre todo o seu corpo, como o brilho do sol poente ou da luz no céu da madrugada. As grandes emoções da tragédia clássica — emoções não relacionadas com nossa vida mundana — podiam parecer orientadas, pelo menos nominalmente, por faros históricos — o mundo das disputas por sucessões, campanhas pela pacificação, guerras civis, e assim por diante — mas na verdade não pertenciam a nenhum período. São as emoções próprias de um mundo estilizado, grotescamente trágico, sobejamente colorido, como numa xilogravura recente. Dor que ultrapassa os limites do homem, paixões sobre-humanas, amor ardente, alegria aterradora, os brados breves de pessoas apanhadas em circunstâncias trágicas demais para serem suportadas por seres humanos; essas eram as emoções que momentos antes haviam se alojado no corpo de Mangiku. Era espantoso que sua estrutura esbelta as pudesse conter sem que destroçassem aquele receptáculo tão delicado.
De qualquer modo, momentos atrás Mangiku vivera todos aqueles sentimentos grandiosos e irradiara luminosidade no palco justamente porque as emoções que transmitia transcendiam todas as que podiam ter sido experimentadas pela audiência. Talvez isso se aplique a todos os personagens do teatro, mas entre os atores dos nossos dias nenhum parecia estar vivendo honestamente emoções teatrais tão distanciadas da vida quotidiana.
Segundo uma passagem do Ayamegusa, “O encanto e a essência do onnagata. Porem, mesmo o onnagata bonito por natureza perderá o encanto se procurar impressionar com seus movimentos. Se tentar conscientemente ser gracioso, parecera completamente corrupto. Por esse motivo, a não ser que o onnagata viva como mulher quotidianamente, jamais será considerado um onnagata perfeito. Quando no palco, quanto mais se encontrar em um ou outro gesto essencialmente feminino, mais masculino vai parecer. Estou convencido de que o mais importante e o comportamento do ator em sua vida real.”
O comportamento do ator em sua vida real... sim, Mangiku era completamente feminino, tanto no modo de talar quando nos movimentos, em sua vida real. Se Mangiku fosse mais masculino na vida quotidiana, aqueles momentos em que o ardor do papel de onnagata, que acabava de desempenhar, gradualmente se dissolviam como a marca da maré alta na praia, na feminilidade da sua vida diária — que era a extensão da mesma fantasia — aqueles momentos funcionariam como uma divisão completa entre terra e mar, uma porta sombria fechando-se entre o sonho e a realidade. O faz-de- conta de sua vida real concordava com o faz-de-conta do seu desempenho no palco. Masuyama estava convencido de que essa era a marca do verdadeiro onnagata. Um onnagata é o filho nascido da união ilegítima do sonho com a realidade.
3
Quando os famosos atores da geração anterior foram morrendo, um depois do outro, a autoridade de Mangiku nos bastidores tornou-se absoluta. Seus discípulos onnagatas o serviam como empregados particulares; na verdade a hierarquia que observavam, quando acompanhavam Mangiku no palco, como criadas servindo sua princesa ou sua grande dama, era exatamente a mesma observada no camarim.
Quem abrisse as cortinas da porta, com o brasão da família Sanokawa, e entrasse no camarim de Mangiku, certamente teria uma estranha sensação: aquele santuário encantador não abrigava um único homem. Até mesmo as figuras do mesmo elenco sentiam, ali dentro, que estavam na presença do sexo oposto. Sempre que Masuyama ia ao camarim de Mangiku, a serviço, bastava abrir as cortinas da porta para sentir — antes mesmo de entrar — uma sensação estranhamente vivida e carnal de sua própria masculinidade.
Masuyama fora algumas vezes, a serviço da companhia, aos camarins das coristas de revistas. Eram ambientes repletos de uma feminilidade quase sufocante e as moças de pele áspera, esparramadas como animais no zoológico, lançavam olhares entediados para ele, mas nunca se sentiu tão estranhamente deslocado quanto no camarim de Mangiku; nada naquelas mulheres de verdade o fazia sentir-se especialmente masculino.
Os membros do grupo de Mangiku não demonstravam amizade especial para com Masuyama. Ao contrario, ele sabia que falavam dele as escondidas, acusando-o de desrespeito e de ser arrogante, só por ter frequentado a universidade. Sabia também que as vezes se irritavam com sua insistência pedante sobre fatos históricos. No mundo do Kabuki não se da nenhum valor à cultura acadêmica sem talento artístico.
O trabalho de Masuyama tinha certas compensações. As vezes, quando Mangiku pedia um favor a alguém — naturalmente só quando estava de bom humor — girava o corpo diagonalmente na frente da penteadeira, acenando de leve com a cabeça e sorrindo; o encanto indescritível dos seus olhos nesses momentos fazia com que Masuyama nada mais desejasse do que servi-lo como escravo. Mangiku, por sua vez, jamais esquecia sua dignidade: mantinha sempre uma certa distancia, embora obviamente reconhecesse o próprio encanto. Se fosse uma mulher real, todo o seu corpo estaria repleto com a fascinação dos olhos. A fascinação de um onnagata resume-se em uma centelha momentânea, mas o bastante para que tenha existência própria e as características do eterno feminino.
Mangiku estava sentado em frente ao espelho depois de sua atuação no Castelo do Senhor Protetor de Hachijin, o primeiro número do programa. Tirara o quimono e a peruca do papel da Senhora Hinaginu e vestia um roupão, pois não era obrigado a aparecer na parte central do programa. Masuyama, informado de que Mangiku queria vê-lo, havia esperado no camarim pelo fim do Hachijin. O espelho subitamente explodiu em chamas vermelhas quando Mangiku voltou, enchendo a porta com o farfalhar de suas roupas. Três discípulos e encarregados do vestuário aproximaram-se para remover o que devia ser removido e guarda-lo nos respectivos lugares. Os que deviam sair saíram, permanecendo apenas alguns discípulos perto do hibachi[2] no quarto ao lado. O camarim ficou silencioso de um momento para outro. De um alto-falante no corredor vinham os sons dos martelos dos assistentes do palco que desmontavam o cenário da peça. Estavam no fim de novembro e o vapor embaçava as vidraças, tristes como as de uma enfermaria de hospital. Crisântemos inclinavam-se graciosamente em um vaso esmaltado ao lado da penteadeira de Mangiku. Talvez porque seu nome artístico significasse literalmente “dez mil crisântemos”, gostava muito dessa flor.
Estava sentado sobre uma gorda almofada de seda púrpura, de frente para a penteadeira.
— Poderia dizer ao cavalheiro da Rua Sakuragi? — Mangiku, de acordo com o costume antigo, referia-se aos seus professores de dança e canto pelos nomes das ruas onde moravam. — Seria difícil para mim dizer-lhe. — Olhava diretamente para o espelho enquanto falava.
Masuyama, sentado perto da parede, via a nuca de Mangiku e no espelho a imagem do rosto ainda maquilado para o papel de Hinaginu. Os olhos não estavam em Masuyama; contemplavam de frente o próprio rosto. O rubor provocado pelo esforço do desempenho era visível ainda sob a camada de pó, como o sol nascente surgindo através de uma fina camada de gelo. Ele estava olhando para Hinaginu.
Na verdade, ele a via no espelho — Hinaginu, que ele acabava de personificar, Hinaginu, a filha de Mori Sanzaemon Yoshinari e noiva do jovem Sato Kazuenosuke. Seus elos matrimoniais desfeitos por causa da lealdade feudal do marido, Hinaginu comete suicídio para permanecer fiel àquela união “cujos elos eram tão tênues que jamais haviam compartilhado a mesma cama”. Hinaginu, no palco, morria possuída de um desespero tão grande que a impedia de continuar vivendo. A Hinaginu do espelho era um fantasma. Mesmo aquele fantasma, Mangiku sabia, estava naquele exato momento deixando o seu corpo. Seus olhos procuravam seguir Hinaginu. Mas a medida que se desvaneciam as paixões ardentes do personagem, o rosto de Hinaginu desaparecia. Mangiku despedia-se dela. Teria ainda sete espetáculos antes do fim. No dia seguinte o rosto de Hinaginu sem duvida voltaria ao molde maleável do rosto de Mangiku.
Masuyama, observando com prazer aquela abstração de Mangiku, quase sorria de afeição. Subitamente, Mangiku voltou-se para ele. Durante todo o tempo estivera consciente do olhar de Masuyama, mas, com o desembaraço do ator acostumado aos olhares do publico, continuou com o que estava dizendo.
– Trata-se daquelas passagens instrumentais. Simplesmente são curtas demais. Não quero dizer que não conseguiria passar por essa parte se me apressasse, mas isso tira a beleza de tudo. — Mangiku referia-se a musica da nova peça com dança que seria apresentada no mês seguinte. — Sr. Masuyama. o que acha?
– Concordo plenamente. Estou certo de que se refere a passagem logo depois de “Como é lento o fim do dia na ponte chinesa, em Seta.
– Sim, exatamente. Co-mo é len-to o fim do di-a... — Mangiku cantou a passagem em questão, marcando o ritmo com os dedos delicados.
– Eu direi a ele. Tenho certeza de que o cavalheiro da Rua Sakuragi vai compreender.
– Tem certeza de que não se importa? Sinto-me tão embaraçado incomodando tanto as pessoas o tempo todo.
Uma vez terminado o assunto, Mangiku costumava se levantar.
– Acho que vou tomar banho agora — disse.
Masuyama afastou-se da estreita porta do camarim, dando passagem para Mangiku. Este, com uma leve inclinação da cabeça, saiu para o corredor, acompanhado por um discípulo. Voltou-se um pouco para Masuyama e, sorrindo, acenou com a cabeça novamente. O ruge nos cantos dos seus olhos tinham um encanto indescritível. Masuyama sentiu que Mangiku estava consciente da sua afeição.
4
O grupo ao qual Masuyama pertencia ia trabalhar no mesmo teatro durante os meses de novembro, dezembro e janeiro e o programa de janeiro já estava sendo objeto de comentários. Seria encenada a peça de um autor do teatro moderno. O homem, cujo senso da própria importância não condizia com sua juventude, havia imposto varias condições, e Masuyama ocupou-se febrilmente com as complexas negociações que tinham por objetivo reunir, não só o dramaturgo e os atores, mas também a direção do teatro. Masuyama foi encarregado dessa parte porque os outros o consideravam um intelectual.
Uma das condições impostas pelo autor da peça era que a direção fosse confiada a um jovem talentoso de sua confiança. A direção do teatro aceitou. Mangiku também concordou, mas sem muito entusiasmo. Expressou suas duvidas dizendo:
— Na verdade, não sei, mas se esse jovem não compreender o Kabuki muito bem é fizer exigências pouco razoáveis, será muito difícil explicar.
Mangiku desejava um diretor mais velho, mais maduro — isto é, mais condescendente — para a peça.
A nova peça era uma dramatização em linguagem moderna do romance do século XII, Se ao menos eu pudesse modificá-los! O diretor administrativo da companhia resolveu não deixar a produção nas mãos do seu pessoal e incumbiu Masuyama dessa parte. Masuyama ficou nervoso com a ideia do trabalho que o esperava; mas, convencido de que a peça era de primeira qualidade, achou que valia a pena.
Uma vez prontos os scripts e distribuídos os papeis, houve uma reunião preliminar, certa manha, no meio do mês de dezembro, no salão de recepção ao lado do escritório do proprietário do teatro. Compareceram o executivo encarregado da produção, o escritor da peça, o diretor, o desenhista de cenários, os atores e Masuyama. A sala estava bem aquecida e os raios de sol entravam pelas janelas. Masuyama sempre se sentia bem nas reuniões preliminares. Era o mesmo que abrir um mapa e discutir um passeio projetado: onde tomamos o ônibus e onde começamos a caminhada? Existe agua potável no lugar? Onde vamos almoçar? De onde se tem a melhor vista? Voltaremos de trem? Ou será melhor esperarmos mais e voltarmos de navio?
Kawasaki, o diretor, chegou atrasado. Masuyama nunca vira uma peça dirigida por Kawasaki, mas conhecia sua fama. A despeito da sua juventude, fora escolhido para dirigir pegas de Ibsen e do moderno teatro americano para uma companhia teatral e no decurso de um ano tivera tanto sucesso, especialmente com as peças americanas, que um jornal lhe conferira um premio de teatro.
Os outros (exceto Kawasaki) já estavam reunidos. O desenhista, que nunca podia esperar nem um segundo para começar o trabalho, já estava anotando em um caderno especial as sugestões feitas pelos outros, frequentemente batendo com a ponta do lápis nas paginas em branco, como se sua mente estivesse explodindo com novas ideias. Finalmente o executivo começou a falar sobre o diretor.
— Pode ser tão talentoso como dizem, mas é muito jovem ainda. Os atores terão de ajuda-lo.
Nesse momento bateram a porta, e a secretaria fez entrar Kawasaki. Entrou com um olhar ofuscado, como se as luzes da sala fossem fortes demais para ele e, sem uma palavra, cumprimentou a todos com uma rígida inclinação da cabeça. Era alto, quase um metro e oitenta, com traços fortes e masculinos — mas extremamente sensíveis. Era um dia frio de inverno, mas Kawasaki vestia apenas uma capa de chuva muito fina e amarrotada. Sob a capa, um paletó de veludo canelado cor de tijolo. O cabelo liso e longo descia ate a ponta do nariz, obrigando-o a afasta-lo para trás constantemente. Masuyama ficou desapontado com essa primeira impressão. Esperava que um homem famoso por seu talento tentasse de alguma forma evitar os estereótipos da sociedade, mas Kawasaki vestia-se exatamente como se esperava que se vestisse um típico jovem do teatro moderno.
Kawasaki sentou-se na cadeira que lhe foi oferecida, a cabeceira da mesa. Não apresentou os delicados protestos de praxe por aquela honra. Olhava para o autor da peça, seu amigo íntimo, e a cada ator que lhe era apresentado resmungava um cumprimento qualquer, voltando imediatamente os olhos para o amigo. Masuyama lembrou-se de experiências semelhantes. Não era fácil para um homem treinado no teatro moderno, onde quase todos os atores são jovens, estabelecer um contato satisfatório com os atores do Kabuki, quase sempre cavalheiros imponentes e idosos fora do palco.
Os atores presentes àquela reunião preliminar, na verdade, procuraram demonstrar de certa forma seu desprezo por Kawasaki, sempre com a maior delicadeza e sem uma palavra hostil. Masuyama olhou para Mangiku. O ator mantinha-se modestamente calado, evitando qualquer demonstração de importância; não se via no seu rosto nenhum sinal do desprezo manifestado pelos outros. Masuyama sentiu crescer sua admiração e afeição por Mangiku.
Agora que estavam todos presentes, o autor fez um resumo da peça. Mangiku, provavelmente pela primeira vez em sua carreira — a não ser por papeis representados quando era criança — ia fazer um papel masculino. A pega era sobre um certo Grande Ministro que tinha dois filhos, um menino e uma menina. Por natureza, eles não tem as características dos respectivos sexos e são criados de acordo com suas tendências: o menino (na verdade a menina) finalmente vem a ser um General da Esquerda, e a menina (na verdade o menino) torna-se chefe. das damas de honra no Senyoden, o palácio das concubinas imperiais. Mais tarde, quando a verdade e revelada, passam a viver mais de acordo com seus sexos originais: o irmão casa-se com a quarta filha do Ministro da Direita, a irmã com um Conselheiro do Centro e tudo acaba bem.
O papel de Mangiku seria o da menina que é na realidade um homem. Embora fosse um papel masculino, Mangiku apareceria como homem nos poucos momentos da cena final. Até ali, seu papel seria o de um verdadeiro onnagata, como chefe das damas de honra no Senyoden. O autor e o diretor recomendaram a Mangiku que não tentasse de modo algum sugerir que era na verdade um homem, até a cena final.
Um aspecto interessante da pega era que inevitavelmente acabava satirizando a convenção Kabuki do onnagata. A chefe das damas de honra era na verdade um homem; exatamente como o papel representado por Mangiku. Não era tudo. Para que Mangiku, onnagata e homem ao mesmo tempo, pudesse desempenhar o papel, teria de desdobrar suas ações na vida real em dois níveis, algo muito diferente do caso do ator que se veste com roupas de mulher durante a peça para enganar as pessoas. As complexidades do papel fascinavam Mangiku.
As primeiras palavras de Kawasaki para Mangiku foram:
– Eu gostaria que desempenhasse o papel todo como mulher. Não faz a menor diferença que atue como mulher até mesmo na ultima cena. — Sua voz tinha uma sonoridade agradável e clara.
– Tem certeza? Se não se importa que eu desempenhe o papel desse modo, será muito mais fácil para mim.
– Em nenhum caso será fácil. Definitivamente não — disse Kawasaki em tom decidido.
Quando falava com convicção, seu rosto ficava vermelho como se tivessem acendido uma lâmpada dentro dele. A aspereza da sua voz provocou um mal-estar em todos. Os olhos de Masuyama voltaram-se para Mangiku. Ele abafava o riso com bom humor, as costas da mão contra os lábios. Os outros ficaram menos tensos, vendo que Mangiku não estava ofendido.
– Muito bem, então — disse o autor. — Vou ler o livro. — Abaixou os olhos saltados, que pareciam duplicados atrás das lentes grossas, e começou a ler o script que estava sobre a mesa.
Os ensaios dos papeis separados começaram dois ou três dias depois, sempre que os atores tinham algum tempo livre. Ensaios em conjunto só seriam possíveis nos poucos dias entre o fim do mês e o começo do programa do mês seguinte.
A não ser que todos os problemas estivessem resolvidos nessa ocasião, não teriam tempo para montar a peça.
Quando começaram os ensaios por partes, ficou aparente que Kawasaki era como um estranho perdido no meio deles. Não compreendia nada de teatro Kabuki e Masuyama viu-se obrigado a ficar sempre ao seu lado, explicando palavra por palavra a linguagem técnica daquele tipo de teatro, o que fazia Kawasaki por demais dependente dele. Logo que terminaram o primeiro ensaio, Masuyama convidou Kawasaki para um drinque.
Masuyama sabia que, para uma pessoa na sua posição, era um erro aliar-se ao diretor, mas achava que compreendia o que Kawasaki estava passando. As opiniões do jovem eram precisas e definidas, suas atitudes mentais saudáveis, e ele lançava-se ao trabalho com entusiasmo infantil. Masuyama compreendeu então por que o caráter de Kawasaki agradara tanto ao autor da peça; era como se a juventude genuína de Kawasaki agisse como um elemento purificador, uma qualidade desconhecida no mundo do Kabuki. Masuyama justificava sua amizade com Kawasaki alegando que procurava transformar essa qualidade em vantagem para o Kabuki.
Os ensaios gerais começaram finalmente no dia seguinte a última representação do programa de dezembro, dois dias depois do Natal. O movimento de fim de ano nas ruas podia ser ouvido através das janelas do teatro e dos camarins. Uma mesa de trabalho velha e gasta fora colocada ao lado de uma das janelas do grande salão de ensaios. Kawasaki e um dos principais auxiliares de Masuyama — o diretor de cena — sentaram-se de costas para a janela. Masuyama estava atrás de Kawasaki. Os atores estavam sentados no tatami encostado na parede. Cada um ia ate o centro da sala quando chegava a sua vez. O diretor de cena fazia o papel de ponto
Centelhas se cruzavam repetidamente entre Kawasaki e os atores.
— Neste ponto — dizia Kawasaki —, gostaria que ficasse de pé ao dizer: “Gostaria de poder ir a Kawachi e acabar com tudo isto.” Depois deve caminhar até a coluna a direita do palco.
– Eu simplesmente não posso, de modo algum, ficar de pé nesse local.
– Por favor, tente fazer ao meu modo. — Kawasaki forçava um sorriso, mas seu rosto empalidecia visivelmente com o orgulho ferido.
– Pode me pedir para ficar de pé, de hoje até o próximo Natal, mas eu não posso fazer isso. Nesse local eu devo estar pensando profundamente sobre alguma coisa. Como posso andar pelo palco quando estou pensando?
Kawasaki não respondeu, mas era evidente sua extrema irritação por ter sido interpelado nesses termos.
Já com Mangiku tudo era diferente. Se Kawasaki dizia: “Sente-se!”, Mangiku sentava, se ele dizia; “Levante-se!”, Mangiku se levantava. Obedecia passivamente a todas as ordens de Kawasaki. Masuyama achava que o entusiasmo de Mangiku pelo papel não justificava o fato de se mostrar muito mais obediente nos ensaios do que de hábito.
Masuyama precisou sair da sala para cuidar de certos negócios no momento em que Mangiku, tendo representado a cena do primeiro ato, voltava ao seu lugar perto da parede. Quando Masuyama voltou, defrontou-se com a seguinte cena: Kawasaki, quase deitado em cima da mesa, acompanhava atentamente o ensaio, sem se dar ao trabalho de afastar o cabelo dos olhos. Estava debruçado sobre os braços cruzados, os ombros sob o paletó de veludo tremendo de raiva contida. A direita de Masuyama havia uma parede branca com uma janela no meio, através da qual se via um balão de ar oscilando com o vento norte, com uma faixa anunciando uma liquidação de fim de ano. Nuvens carregadas de inverno pareciam desenhadas com giz contra o azul pálido do céu. Viu um santuário dedicado a Inari e um pequeno torii[3] vermelho vivo no telhado de um velho prédio. Mais à direita, Mangiku estava sentado ereto de costas para a parede, no estilo japonês, com as pernas cruzadas no tatami. O script es­tava aberto no seu colo e as pregas do seu quimono cinza-esverdeado caiam em retas perfeitas. De onde estava, ao lado da porta, Masuyama não podia ver o rosto de Mangiku de frente, mas os olhos, vistos de perfil, estavam completamente tranquilos, o olhar resolutamente fixo em Kawasaki.
Masuyama sentiu um súbito tremor de medo. Estava com um dos pés dentro da sala de ensaios, mas sentia agora que era quase impossível entrar.
6
Mais tarde, naquele mesmo dia, Masuyama foi chamado ao camarim de Mangiku. Quando inclinou a cabeça, como sempre fazia, para passar sob as cortinas da porta, sentiu um estranho bloqueio emocional. Mangiku o cumprimentou, todo sorridente, da sua almofada púrpura e ofereceu a Masuyama os doces recebidos de um visitante.
– O que achou do ensaio de hoje?
– Como disse? — Masuyama sobressaltou-se com a pergunta. Não era do feitio de Mangiku pedir sua opinião sobre esses assuntos.
– O que achou?
– Se tudo continuar tão bem como hoje, acho que a peça vai ser um sucesso.
– Acha mesmo? Estou com muita pena do Sr. Kawasaki. É tão difícil para ele. Os outros o tratam com tanta arrogância que fico nervoso. Tenho certeza de que percebeu, pelo ensaio, que pretendo fazer tudo exatamente como o Sr. Kawasaki quer. De qualquer modo, é precisamente como desejo representar esse papel e achei que poderia facilitar as coisas para o Sr. Kawasaki, mesmo sem a ajuda de ninguém mais. Não posso dizer aos outros, mas tenho certeza de que notarão, se eu fizer exatamente o que ele mandar. Sabem que geralmente sou muito difícil. É o mínimo que posso fazer para proteger o Sr. Kawasaki. Seria uma pena se ninguém ajudasse, quando ele esta se esforçando tanto.
Masuyama não sentiu nenhuma emoção especial ouvindo as palavras de Mangiku. Era muito provável, pensou, que o próprio Mangiku não soubesse que estava apaixonado: afinal, estava acostumado a representar o amor em escala muito mais heroica. Masuyama, por sua vez, achava que aqueles sentimentos — fosse qual fosse a definição dos mesmos — que surgiam no coração de Mangiku eram extremamente impróprios. Esperava de Mangiku uma demonstração de emoções muito mais transparente, artificial e este- tica.
Mangiku, contrariando seus hábitos, estava em uma atitude informal, o que emprestava ao seu corpo delicado uma espécie de languidez. O espelho refletia as flores vermelhas no vaso esmaltado e a nuca recentemente raspada de Mangiku.
O exaspero de Kawasaki tornou-se patético na véspera dos ensaios no palco. Assim que terminou o último ensaio em separado, convidou Masuyama para um drinque, parecendo ter chegado ao fim de sua capacidade de resistência. Masuyama estava ocupado naquele momento, mas duas horas mais tarde, encontrou Kawasaki ainda à sua espera no bar onde tinham combinado se encontrar. O bar estava cheio, embora fosse véspera de Ano-novo, quando os bares geralmente ficam desertos. Kawasaki estava pálido, bebendo sozinho. Era do tipo que, quanto mais bebe, mais pálido fica. Masuyama, notando a palidez de Kawasaki assim que entrou no bar, sentiu que o jovem estava transferindo para seus ombros uma carga espiritual injustamente pesada. Eles viviam em mundos diferentes; não havia nenhum motivo pelo qual a cortesia exigisse que as incertezas e a angustia de Kawasaki passassem para os ombros de Masuyama.
Kawasaki logo começou a provocar Masuyama, como este já esperava, acusando-o de agente duplo. Masuyama aceitou a provocação com um sorriso. Era cinco ou seis anos mais velho do que Kawasaki, mas possuía a autossuficiência de um homem que vivera entre pessoas que “conheciam as regras”. Ao mesmo tempo, sentia uma espécie de inveja daquele homem que jamais conhecera as dificuldades da vida, ou pelo menos, as dificuldades reais. Não era exatamente por falta de integridade moral que Masuyama se mostrava indiferente aos mexericos dos bastidores a seu respeito, agora que estava com seu lugar garantido na hierarquia do Kabuki; sua indiferença demonstrava que não tinha nada a ver com o tipo de sinceridade que podia destrui-lo.
Kawasaki falou:
– Estou farto disso tudo. Assim que a cortina se abrir na noite de estreia, terei o maior prazer em desaparecer. Os ensaios no palco começam amanha! É demais para mim, aborrecido como estou. Esta é a pior incumbência que já tive até agora. Cheguei ao meu limite. Nunca mais pretendo tomar de assalto um mundo que não é o meu.
– Mas, não é mais ou menos o que esperava, desde o começo? O Kabuki não e igual ao teatro moderno, afinal — disse Masuyama friamente.
As palavras de Kawasaki o surpreenderam.
– Mangiku é o pior de todos. Eu realmente não gosto dele. Nunca mais vou dirigir uma peça com ele. — Kawasaki olhava para os filetes espiralados de fumaça sob o teto baixo, como se estivesse enfrentando um inimigo invisível.
– Eu jamais teria imaginado isso. Tenho a impressão de que ele esta fazendo o melhor possível para cooperar.
– Por que pensa isso? O que ha de tão bom nele? Não me importo muito quando os outros atores não dão atenção ao que eu digo durante os ensaios ou quando tentam me intimidar, nem mesmo quando procuram sabotar toda a peça, mas Mangiku vai além do que posso suportar. Tudo o que faz e olhar para mim com aquele sorriso zombeteiro. No fundo, ele é completamente inflexível e me trata como se eu fosse uma criança ignorante. Por isso faz tudo exatamente como eu digo. É o único que obedece as minhas sugestões e isso me irrita mais ainda. Posso adivinhar o que esta pensando: “Se e assim que você quer, e assim que vou fazer, mas não espere que eu tome nenhuma responsabilidade pelo que acontecer na pega.” É exatamente o que esta sempre comunicando sem dizer uma palavra, é o pior tipo de sabotagem que conheço. Ele e o pior de todos.
Masuyama ouvia atônito, mas não achou prudente dizer a verdade a Kawasaki naquele momento. Hesitou até em garantir que Mangiku estava tentando ser amigável, quanto mais em revelar a verdade. Kawasaki estava confuso, sem saber como reagir as emoções completamente desconhecidas daquele mundo no qual fora subitamente lançado; se soubesse o que Mangiku sentia, talvez pensasse que não passava de mais uma armadilha. Seus olhos viam claro demais: por mais que conhecesse os princípios do teatro, não conseguia detectar aquela sombria presença estética que se escondia por trás dos textos.
7
Chegou o novo ano e com ele a primeira noite do novo programa.
Mangiku estava amando, Seus astutos discípulos foram os primeiros a comentar o fato. Masuyama, visitante frequente ao camarim de Mangiku, sentiu a verdade no ambiente. Mangiku estava envolto no seu amor como o bicho-da-seda no seu casulo, pronto para se transformar em borboleta. O camarim era o casulo do seu amor. Mangiku sempre procurara se isolar, mas o contraste com o movimento festivo do ano novo dava ao seu camarim uma seriedade silenciosa e estranhamente solene.
Na noite da estreia, Masuyama, notando que a porta do camarim de Mangiku estava aberta, resolveu dar uma olhada. Viu Mangiku de costas, sentado na frente do espelho, completamente vestido para a peça, esperando o aviso para entrar em cena. Observou o tom pálido de lilás do quimono de Mangiku, a curva suave dos ombros empoados e seminus, a peruca negra brilhante. Em momentos como esse, no cama­rim deserto, Mangiku parecia uma mulher ocupada em fiar; estava fiando o seu amor e ia continuar para sempre, o pensamento muito longe.
Masuyama compreendeu instintivamente que o molde para o amor daquele onnagata fora fornecido apenas pelo teatro. O teatro estava presente o tempo todo, o teatro onde o amor estava sempre gritando, se lamentando, derramando sangue. A musica que celebrava os píncaros sublimes do amor soava perpetuamente nos ouvidos de Mangiku, e cada gesto requintado do seu corpo era constantemente usado no palco para significar amor. Ate as pontas dos dedos, nada em Mangiku desconhecia o amor. Seus pés dentro das tabi[4] brancas, as cores sedutoras do quimono sob o manto apenas visíveis através das aberturas das mangas, sua nuca longa como a de um cisne, tudo estava a serviço do amor.
Masuyama tinha certeza de que Mangiku seria guiado na conquista do seu amor pelas emoções grandiosas dos seus papeis no palco. O ator comum pode enriquecer seu desempenho infundindo-o com as emoções de sua vida real, mas não Mangiku. No momento em que Mangiku se apaixonou, os amores de Yukihime, Omiwa, Hinaginu e de outras heroínas trágicas foram em seu auxilio.
A ideia de Mangiku apaixonado chocava Masuyama. Aquelas emoções trágicas que desejara com tanto ardor no seu tempo de estudante, aquelas sublimes emoções que Mangiku sempre evocava com sua presença corpórea no palco, envolvendo suas faculdades sensuais em chamas geladas, Mangiku estava agora visivelmente em sua vida real. Mas o objeto dessas emoções — sem negar seu grande talento — era completamente ignorante no que se referia ao Kabuki; não passava de um diretor jovem e vulgar, cuja qualificarão única para ser objeto do amor de Mangiku consistia no fato de ser um estranho naquele pais, um jovem viajante que logo deixaria o mundo do Kabuki para nunca mais voltar.
8
Se ao menos eu pudesse modificá-los! foi bem recebida. Kawasaki, apesar de ter anunciado sua intenção de desaparecer depois da noite de estreia, ia ao teatro todos os dias para se queixar do desempenho dos atores, correndo de um lado para o outro nas passagens subterrâneas sob o palco, examinando com curiosidade os mecanismos do alçapão, ou o banamicbi. Masuyama achou que o homem tinha algo de infantil na sua atitude.
As criticas dos jornais elogiaram Mangiku. Masuyama fez questão de mostra-las a Kawasaki, mas ele limitou-se a fazer um muxoxo, como uma criança teimosa, e a dizer com aspereza: ‘Todos representam bem. Mas não tiveram o que se pudesse chamar direção.” Naturalmente Masuyama não repetiu para Mangiku essas palavras contundentes, e o próprio Kawasaki se comportava muito bem quando estava com Mangiku. Contudo, o que irritava Masuyama era o fato de que Mangiku, completamente cego no que se referia aos sentimentos dos outros, não tivesse sequer questionado o reconhecimento de Kawasaki em relação a sua boa vontade. Mas Kawasaki era absolutamente insensível aos sentimentos dos outros. Este era o único traço que Kawasaki e Mangiku tinham em comum.
Uma semana depois da primeira apresentação da peça, Masuyama foi chamado ao camarim de Mangiku. Sobre a mesa de Mangiku estavam dispostos amuletos e relíquias do santuário em que ele regularmente fazia suas orações, bem como alguns docinhos de Ano-novo. Sem duvida os doces seriam distribuídos entre seus discípulos. Mangiku deu alguns deles a Masuyama, sinal de que estava de bom humor.
– O Sr. Kawasaki esteve aqui hé pouco — disse ele.
– Sim, eu o vi na porta.
– Será que está ainda no teatro?
– Acredito que vá ficar ate o fim de Se ao menos...
– Ele disse alguma coisa a respeito de ter algum compromisso depois?
– Não, nada de especial.
– Então, quero lhe pedir um pequeno favor.
Masuyama assumiu o ar mais compenetrado possível.
– E qual é ?
– Esta noite, compreende, quando terminar o espetáculo... Quero dizer, esta noite.... — O rosto de Mangiku ficou corado. Sua voz estava mais clara e estridente do que de hábito — Esta noite, quando terminar o espetáculo, acho que gostaria de jantar com ele. Poderia perguntar a ele se esta livre?
– Sim, eu pergunto.
– E horrível de minha parte pedir-lhe isso, não é?
– Não, esta tudo bem. — Masuyama percebeu que os olhos de Mangiku não percorriam mais o camarim, mas estavam fixos, procurando decifrar sua expressão. Parecia esperar — desejar mesmo — ver alguma perturbação em Masuyama. — Muito bem — disse Masuyama, levantando-se imediatamente — Eu o informarei.
Assim que chegou ao saguão, Masuyama encontrou Kawasaki vindo em sua direção; aquele encontro casual, no meio do saguão cheio de gente, durante o intervalo, pareceu-lhe um ato do destino. A atitude de Kawasaki não combinava com o ambiente festivo do saguão. O ar de superioridade adotado pelo jovem parecia ridículo entre aquela multidão de cidadãos sólidos vestidos com suas melhores roupas e que estavam no teatro pelo simples prazer de assistir a peça.
Masuyama levou Kawasaki para um canto e o informou sobre o convite de Mangiku.
– O que será que ele quer de mim agora? Jantar juntos — engraçado. Não tenho nada para fazer esta noite e não vejo razão para não ir, mas não compreendo o porquê.
– Suponho que queira discutir alguma coisa sobre a peça.
– A peça! Eu já disse tudo o que tinha a dizer sobre o assunto.
Nesse momento, um desejo gratuito de fazer mal, aquela emoção geralmente associada no palco aos vilões secundários, instalou-se no coração de Masuyama, sem que ele se desse conta; não percebia que estava agindo agora como o personagem de uma peça.
– Não compreende — esse convite para jantar é uma ótima oportunidade para dizer a ele tudo o que pensa, desta vez sem poupar palavras.
– Ainda assim...
– Não acredito que tenha coragem de dizer tudo a ele.
Essa observação feriu o orgulho do jovem.
– Esta certo, eu vou. Sempre achei que mais cedo ou mais tarde teria oportunidade de falar francamente com ele. For favor, diga a Mangiku que aceito o convite.
Mangiku aparecia na ultima parte do programa e só ficou livre no fim do espetáculo. Quando termina o espetáculo, geralmente os atores trocam de roupa rapidamente e saem do teatro, mas Mangiku não demonstrava nenhum sinal de pressa, enquanto se vestia, no camarim com uma capa e um cachecol sobre o quimono de passeio. Esperava Kawasaki. Quando este apareceu finalmente, cumprimentou Mangiku com frieza, sem tirar as mãos dos bolsos do sobretudo.
O discípulo que sempre atendia Mangiku como sua “camareira” apareceu correndo, como quem vem anunciar uma calamidade.
– Começou a nevar — informou ele, com uma mesura.
– Muita neve? — Mangiku levou a ponta da capa ao rosto.
– Não, uma pequena pancada.
– Vamos precisar de um guarda-chuva até o carro — disse Mangiku.
O discípulo saiu as pressas para apanhar o guarda-chuva.
Masuyama os acompanhou até a saída do teatro. O porteiro havia gentilmente colocado as sandálias de Mangiku e de Kawasaki lado a lado. O discípulo de Mangiku ficou do lado de fora, sob a neve fina, segurando o guarda-chuva aberto. A neve caia com tanta leveza que mal aparecia contra a parede escura de concreto, no outro lado da rua. Um ou dois flocos chegaram até o degrau da entrada do teatro.
Mangiku curvou-se cortesmente para Masuyama.
– Vamos sair agora — disse. O sorriso nos seus lábios foi semi-encoberto pelo cachecol. Voltou-se para o discípulo. — Está bem. Eu levo o guarda-chuva. Gostaria que você fosse avisar o motorista que estamos prontos.
Mangiku segurou o guarda-chuva sobre a cabeça de Kawasaki. Quando Kawasaki com seu sobretudo e Mangiku com sua capa saíram lado a lado, alguns flocos de neve voaram subitamente — quase saltando — da parte superior do guarda-chuva que os abrigava.
Masuyama os viu partir. Era como se um guarda-chuva imenso, negro e barulhento, estivesse se abrindo dentro do seu coração. Sentiu que a ilusão nascida quando era menino, na primeira vez que viu Mangiku no palco, uma ilusão que ele havia mantido intacta, mesmo depois de começar a trabalhar no Kabuki, naquele instante se esfacelava, espalhando- se em todas as direções, como uma delicada peça de cristal deixada cair de grande altura. Afinal, agora sei o que quer dizer desilusão, pensou ele. O melhor que tenho a fazer e desistir do teatro.
Mas Masuyama sabia que, ao lado da desilusão, outro sentimento se apossava dele, o ciúme. Teve medo de pensar até onde essa nova emoção poderia leva-lo.

[1] Hanamichi — um compartimento sob o palco, visível para os espectadores, com uma porta de alçapão. Faz parte do cenário típico do Kabuki ou teatro popular. (N. da T.).
[2] Hibachi — braseiro, aquecedor a carvao. (N. da T.)
[3] Torii — portão de um templo japonês. (N.da T.)
[4] Tabi — meias. (N. da T.)