segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

100 – O Tambor Chinês – I. Saikaku

Ihara Saikaku, poeta e escritor japonês do século XVII, nascido em Osaka. O conto “O Tambor chinês” destacado em nosso blog, foi escrito há aproximadamente 340 anos atrás.

O Tambor Chinês
 Ihara Saikaku
Tradução Tejiti Suzuki

No bairro de Nishijin, na cidade de Quioto, estão localizadas as oficinas de tecelagem de seda. Entre os mestres que viviam dessa profissão, havia um que, não obstante a sua destreza no ofício, via a sua situação econômica piorar dia por dia. No fim do ano, encontrava-se num beco sem saída. Falou com a mulher, e ficou decidido que deixariam o bairro na calada da noite, às escondidas dos credores. Começou ele, então, a vender os móveis e utensílios da oficina, secretamente, mas o fato não passou desapercebido dos seus colegas. Os mais chegados, que somavam uma dezena, lamentaram que tal ocorresse justamente com quem se mostrara sempre comedido, honesto, prestativo, homem de alma piedosa e isenta de pecados. Desejosos de salvá-lo da situação em que encontrava, encarregaram um deles, escolhido por mais avisado, de indagar do estado real das dívidas do colega. O enviado ficou sabendo que elas mal chegavam a oitenta ryos (cerca de duas libras ouro). Disse então, ao casal em apuros:
– Por que abandonar a oficina, que mantiveram durante tanto tempo por causa de tão pouco? Não se amofinem: são coisas da vida. Deixem tudo por nossa conta. Vão tratar dos preparativos para o Ano Novo. Deem as crianças presentes bonitos. Quanto aos uniformes dos aprendizes, ainda há tempo de mandar fazê-los azuis, sem o emblema da oficina. E, a senhora, deve cuidar mais da sua aparência, principalmente numa ocasião como esta. Vá fazer um penteado vistoso: a sabedoria da esposa consiste em não deixar ninguém perceber que o marido está em dificuldades.
Na noite de 26 de dezembro, conquanto estivessem todos atarefados, os dez colegas do mestre tecelão combinaram entre si e foram ter à casa do amigo, levando cada um consigo dez ryos. Pediram um vaso de madeira e nele depuseram as moedas de ouro que haviam trazido, constituindo assim uma caixa de socorro mútuo.
– As moedas aqui juntadas, que somam cem ryos, dentro em breve estarão multiplicadas por dez — diziam.
Um dos tecelões, com ar de entendido, levou o vaso até o santuário do Deus da Prosperidade, diante do qual depois de bater palmas, disse, como se rezasse:
Ó Deus da Prosperidade: multiplicai este tesouro; caso contrário, sereis jogado ao Rio Kamiya.
Entre os risos e aplausos de todos os presentes, teve inicio uma alegre libação, com os vinhos e vitualhas trazidos pelos visitantes. Beneficiadores e beneficiados estavam eufóricos.
Que bela e inusitada maneira de comemorar a passagem do ano! — exclamavam, erguendo as taças. Mesmo os menos afeitos às bebidas fartaram-se de beber. Cantaram e dançaram até esgotarem todo o seu repertorio de habilidades artísticas. Faziam tamanha algazarra que ninguém mais se entendia.
Eram quatro horas da manhã, e os galos cantavam, quando os visitantes se retiraram, após trocarem as sandálias, deixando suas capas e leques. Saíram abraçados uns aos outros, esquecidos de se despedirem dos donos da casa. Fatigado pelas preocupações da véspera, o mestre tecelão deitara-se no meio da sala, onde ficou a roncar alto.
Sua esposa fechou as portas, com maior cautela. Mandou a criadagem ir repousar. Não se continha, porém, de júbilo. Foi acordar o marido e pediu-lhe que fizesse um levantamento das contas à pagar: entregou- lhe, para tanto, o ábaco e o diário.
Brandindo o ábaco, bravateou o marido:
– Neste fim de ano, quando os cobradores me aparecerem, atiro-lhes com as moedas de ouro na cara. Sobretudo aquele maldito Hatiemon, o dono do empório, que, apesar de ser nosso parente afastado, e o mais intolerante de todos. Vou saldar definitivamente nossa dívida com ele. Não lhe compre mais nada. Passe a comprar no empório vizinho. E pague à vista, ouviu?
Enquanto fazia suas contas e projetos de pagamento, o tecelão foi buscar o vaso de madeira no santuário. Qual, porem, não foi a surpresa do casal quando constatou que o vaso estava vazio! Não podia ser obra dos ratos: ratos não roem moedas de ouro. Quem sabe se não seria uma brincadeira do Deus da Prosperidade? Vasculharam o santuário, repetidas vezes, mas não encontraram nem sombra do tesouro.
A grande alegria de havia pouco transformou-se numa tristeza sem fim. O tecelão pôs-se a monologar em voz alta:
– É destino. Não guardarei rancor de quem me roubou. Mas por que teria feito isso? Aceitei um auxilio caritativo e vejo-me em dificuldades maiores do que antes. Qual não será a maledicência das pessoas, agora? Não, não adianta continuar a viver neste mundo ingrato. Vamos, querida, partamos juntos para outra vida, levando as crianças conosco.
– É verdade. Não adianta continuar a viver — concordou, resoluta, a mulher.
Lembrou-se de que viria gente ver ambos, depois de mortos, e vestiu, então, o único quimono de seda branca que ainda lhe restava. Arrumou o cabelo ao espelho, com maior cuidado. Acarinhou a cabeça do marido: disse-lhe que, apesar dos dezenove anos decorridos, o amor conjugal de ambos parecia o orvalho daquela mesma madrugada. Com os olhos turvados pelas lágrimas, marido e mulher acenderam velas no santuário dos antepassados. Acordaram os filhos com cuidado. A menina, que era a mais velha, perguntou se já chegara o Ano Novo. Apesar de sonolento, o caçula não se esqueceu do arco de brinquedo que lhe havia sido prometido de presente.
Penalizados, os dois puseram-se a chorar copiosamente. Nesse momento, banhada também em prantos, a velha criada precipitou-se para dentro da sala:
– Não precisam explicar nada. Sei de tudo. O senhor e a senhora podem morrer, mas roubar a vida a estes inocentes! Não, isso não pode ser. Será que perderam a cabeça? Eu me encarrego de criar estas duas crianças.
Tudo isso foi dito aos gritos, enquanto ela protegia as crianças com seus braços. Os demais residentes acordaram com o barulho e os vizinhos vieram ver o que se passava. Em meio a confusão subsequente, o sol nasceu, e o projeto de suicídio acabou sendo posto de lado.
A noticia da ocorrência chegou aos ouvidos de alguns dos colegas do tecelão, os quais, convocando os companheiros faltantes, promoveram, os dez reunidos, uma sessão para deliberarem sobre o assunto. Ocorrência verdadeiramente incompreensível, na verdade. Como todos se haviam declarado dispostos a salvar o amigo da bancarrota, não seria admissível que algum deles fosse roubar o que ele próprio doara espontaneamente. O ladrão, no entanto, tinha de ser um deles.
– Só consultando a Providência é que se poderá provar a inocência de cada um de nos — afirmavam alguns. Outros, mais sensatos, achavam que isso não resolvia. Concordaram, por fim, em levar o caso ao conhecimento da autoridade, por escrito, de quem solicitaram julgamento. Deferida a solicitação, a audiência ficou marcada para o dia 25 de janeiro, ao termino das festas. Foi, outrossim, ordenado aos suplicantes que não se ausentassem da cidade, sob pena de sofrerem as sanções da lei, e que todos comparecessem a audiência em companhia de suas respectivas esposas ou, na falta desta, de qualquer parente mais próximo, do sexo feminino.
No dia aprazado, os tecelões, acompanhados das esposas, que se mostravam contrariadas, compareceram em juízo. Sorteado o número de ordem e afixada a lista respectiva na parede, a autoridade sentenciou:
– Julgo-vos responsáveis, coletivamente, pelo desaparecimento do dinheiro que constituía o fundo de socorro mutuo, e condeno-vos à pena seguinte: todo o dia, durante dez dias consecutivos, sairá um dos casais à rua, conduzindo, na ponta de uma vara, aquele tambor chinês que ali está, e, fazendo o percurso que vai do palácio até a alameda de pinheiros do templo, na direção oeste, voltará aqui pelo mesmo trajeto. É terminantemente proibida a aproximação de curiosos.
O tambor em questão era um tambor grande e pesado, pintado de vermelho berrante.
Durante dez dias consecutivos, o caso manteve acesa a curiosidade publica.
Que condenação esquisita! — comentavam todos.
Decorridos dez dias, a autoridade convocou novamente os dez casais e disse-lhes:
– Agradeço a colaboração de todos vós para a elucidação deste caso. Sinto muito ter-vos submetido a tal ridículo e vexame. Dirijo-me particularmente aos maridos, que parecem ter sofrido bastante, por causa das queixas e imprecações das mulheres. Eu soube disso por meio de um garoto muito vivo que coloquei dentro do tambor. Ele me contou ainda mais o seguinte: uma das mulheres se mostrou particularmente veemente nas suas invectivas contra o marido. Queixava-se do infortúnio de se ver assim exposta à curiosidade pública por culpa exclusiva dele. Protestava contra a tolice de ajudar a outrem e sacrificar a própria família. Suas lástimas e imprecações foram num crescendo. A certa altura, o marido sussurrou ao ouvido da esposa: “Tenha um pouco de paciência. O dinheiro é nosso. Você o verá em casa.” Não direi aqui de quem se trata, nem penso tenha sido o roubo ato premeditado. Julgo-o, antes, fruto da embriaguez. Em consideração ao seu louvável ato anterior, de ter prestado socorro a um necessitado, suspendo a pena e ordeno ao culpado que se limite a devolver o dinheiro e a desaparecer da cidade com a família. Cumprida minha ordem, arquive-se o processo. Podeis retirar-vos. Tenho dito.



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

099 – Matricidio – G.Csáth

Géza Csáth, pseudônimo de József Brenner (1887-1919), médico e escritor húngaro que se caracterizou por contos sombrios.
Matricídio
Géza Csáth
Tradução de Paulo Schiller

Para Ernö Osvát
A morte precoce do pai de crianças bonitas e saudáveis certamente causará problemas. Witman tinha dois filhos, de quatro e cinco anos de idade, quando numa tarde ensolarada de novembro, com um pouco de vento, ele disse adeus ao mundo. Morreu sem muita dificuldade, e, de um modo geral, não deixou muito pesar atrás de si. A esposa, a viúva, era uma mulher bonita, mas de natureza pacata e extremamente egoísta. Nunca torturara o marido, mas além de certo ponto ela jamais o amara. Isso é muito mais desculpável entre homens do que entre mulheres, cuja vida inteira é justificada, salva ou tornada mais valiosa por esse sentimento forte, embora em muitos aspectos sem sentido. Entretanto, temos de perdoar a senhora Witman porque ela afinal trouxe ao mundo dois rapazes bonitos e fortes. Na rua em que eles moravam, em uma casa de dois andares, dilapidada, com uma escadaria de madeira, a senhora Witman, loira, vestida de luto, era decididamente respeitada. Embora a mulher tivesse a cintura fina e olhos infantis. Como ser humano ela não era nem boa nem má. Beijava os filhos tão pouco quanto batia neles. Ela e eles tinham pouco a ver uns com os outros, como aos poucos foi ficando cada vez mais claro.
Os garotos costumavam brincar no vizinho. Não apareciam durante as longas tardes e até altas horas da noite. Falavam pouco e apenas entre si. Em seus pequenos olhos pretos brilhava a alma de Witman, o pai. Subiam em sótãos, remexiam caixas velhas, maltratavam gatos. Muitas vezes passavam pelas fendas dos sótãos para fora, para os telhados e as saídas de incêndio, até as chaminés de formas estranhas, cheirando a fumaça. Enquanto durava o verão eles se banhavam no rio e capturavam pássaros na mata. A senhora Witman lhes dava de comer e roupas de baixo limpas no sábado a noite. Ela também os acompanhava à escola para fazer a matrícula. Por outro lado, ela vivia silenciosamente, e, silenciosamente, engordava. Seis meses depois da morte do marido conheceu um funcionário de banco, um rapaz jovem e bonito, com o queixo barbeado, ombros largos, e a pele do rosto fina, cor-de-rosa e feminina; a senhora Witman o desejava, e embora lhe custasse e a cansasse, ela flertava com ele. O homem, por tédio e preguiça, não largou a mulher.
Os filhos de Witman pouco se preocupavam com a mãe e o amante; tinham planos e afazeres. Entraram no ginásio. Espicharam, os músculos se tencionaram como cabos de aço sobre os ossos finos e fortes. Faziam os deveres de casa com facilidade, depois de se levantarem, em um quarto de hora. A escola não tinha nenhum papel na vida deles. Consideravam a vida uma ocupação grandiosa e solene e, sem consciência e cedo, delinearam o tempo segundo as necessidades deles.
Em um canto oculto do sótão eles instalaram uma pequena cozinha de feitiçaria. Lá eles reuniam flechas, espingardas de balas de borracha, facas, alicates, cordas e parafusos escondidos e organizados. Nas noites de outono com vento, depois que jantavam — a mãe mergulhava em um romance alemão encadernado em vermelho —, com passos silenciosos e rápidos eles desciam para a rua, corriam, percorriam meia cidade. Espreitavam. Passavam uma corda no pescoço de um cachorro perdido e o arrastavam para casa. Amarravam a boca do animal e o estendiam sobre uma tábua. A lanterna diminuta deles, como um mundo distante de um castelo mal-assombrado da floresta, brilhava na escuridão marrom, úmida do sótão. Os dois rapazes se entregavam ao trabalho com uma lentidão nervosa. Abriam o peito do cachorro, faziam o sangue escorrer, e durante o trabalho ouviam os gemidos terríveis, impotentes, do animal. Olhavam seu coração batendo, pegavam na mão a pequena maquina quente, em movimento, e com picadas miúdas danificavam as artérias e as válvulas.
Tinham um interesse inesgotável pelo mistério da dor. Mais de uma vez eles se torturaram mutuamente, após acordo prévio, com surras ou beliscões. A tortura de animais se tornou uma paixão séria e natural. Exterminaram uma legião de gatos, galinhas, patos, de modos estranhos, sempre mais elaborados. E das coisas deles ninguém fazia ideia. Sabiam se esconder com segurança, com prudência e sabedoria viril.
Por outro lado, poucos na casa se preocupavam com eles. No primeiro andar morava um velho funcionário da justiça que mal ficava em casa, e uma costureira que trabalhava com quatro moças. No segundo andar, além dos Witman, morava somente o proprietário da casa. Um homem bastante jovem, filho do antigo dono, que não se ocupava muito da casa nem dos moradores. No térreo havia um vidraceiro e uma loja de tecidos. Ninguém sabia quando havia algum freguês nessas lojas. Os rapazes Witman tomaram conta da casa. No pequeno quintal sujo nunca se via ninguém. O sumagre que ficava no meio do quintal, e havia tantos anos produzia seus brotos, folhas e flores, provavelmente sentia que as coisas não andavam bem. A vida, porém, na pequena casa de dois andares progredia, como nos outros lugares. Entretanto, entre os moradores apenas os dois rapazes se divertiam, sempre ousavam pensar no amanhã e no depois de amanhã.
Certa noite de setembro eles chegaram em casa vermelhos, ofegantes. Carregavam uma coruja amarrada. Encontraram-na no sótão da velha igreja. Preparara-se durante uma semana, combinaram como a apanhariam e como a matariam. Conseguiram. Os olhos deles brilhavam, nos ombros fortes sentiam uma força viril quando, atravessando ruas escuras, chegaram em casa com o troféu. A coruja os interessava havia muito tempo. Sua cabeça parecia se resumir a dois grandes olhos. Em seu cérebro se abrigavam antigas histórias extraordinárias. Chegava a viver mais de cem anos… Eles precisavam de uma coruja, precisavam…
Lá estava ela. Tiraram uma a uma as penas de seu peito, e observaram as chamas coloridas da dor se acendendo nos olhos do pássaro. Depois amarraram com cordas as bases das asas, as garras, o bico, e, assim, imobilizada, contemplaram-na durante muito tempo, mudos. Comentaram que o pássaro era na verdade apenas uma casa para onde o sofrimento se mudara, e lá moraria até que eles matassem a coruja. Mas onde ele morava? Muito provavelmente em sua cabeça. Depois decidiram que durante a noite eles a deixariam lá porque dessa forma o sono deles seria belo e excitante. Na verdade, despiram-se agitados e em seguida ficaram escutando se do sótão vinha algum som. Sentiam que certa tensão tomava conta de seus músculos, como se as forças em vão desperdiçadas pelo animal amarrado, em convulsão, se derramassem sobre eles. Assim adormeceram.
No sonho percorreram juntos grandes campos, montados em imensos cavalos brancos, galopando loucamente. Alçavam voo de picos vertiginosamente altos e atravessavam a nado mares quentes, sangrentos. Toda a dor e o sofrimento existentes na terra estremeciam, uivavam e gritavam sob as patas dos cavalos.
Ao despertar, uma manhã de sol sorriu para eles; saltaram leves da cama. Pediram o café da manha da empregada, porque a senhora Witman costumava dormir até as dez horas. Correram para a coruja e em uma hora acabaram com ela. Primeiro arrancaram seus olhos, em seguida abriram seu peito, depois de libertarem a boca do pássaro porque queriam ouvir sua voz. O som, o som terrível, de enregelar os ossos, superava toda intensidade imaginável, mas por isso mesmo o trabalho tinha de ser finalizado logo, porque temiam que ele pudesse ser ouvido na casa. De um modo geral estavam muito satisfeitos, a coisa tinha compensado o empenho.
De tarde, o rapaz mais velho saiu de casa sozinho. Descobrira algo em outra casa. Tinha visto passar na janela uma moça seminua que se penteava numa camisola cor-de-rosa. Ele se voltara da esquina para olhar de novo o quarto. A moça agora estava de pé no fundo do quarto, seus ombros brancos brilhavam à luz do sol. O rapaz entrou pelo portão da casa. Uma velha veio em sua direção. mas, ao mesmo tempo, no final do corredor lateral apareceu a moça que se penteava. Ela caminhou na direção do rapaz e disse que desejava vê-lo mais de perto porque gostara muito dele. A moça acariciou com delicadeza o rosto límpido do rapaz magro, de calças curtas, que num gesto brusco abraçou seu pescoço e grudou os lábios no rosto dela. Nisso, portas se abriram silenciosamente a toda volta e cabeças de moças jovens os olharam; rapidamente, porém, elas recolheram as cabeças sem fazer ruído. No final do corredor ardia uma lamparina de vidro azul, e a moça levou o mais velho dos rapazes Witman nessa direção. Eles baixaram a cortina, o brilho amarelado do sol da tarde se filtrou no quarto perfumado. A moça se estendeu sobre o tapete e, imóvel, permitiu ser beijada, abraçada. O filho de Witman pensou na coruja e se perguntou por que tudo que era belo, primoroso e excitante na vida era também terrível, inexplicável e sangrento. Entretanto, ele logo se cansou da brincadeira. Levantou-se frustrado, esperou e olhou a mulher com os olhos bem abertos. Em seguida, ele se despediu apressado, mas prometeu que voltaria outra hora. Perguntou o nome da moça, e por fim disse:
— Até logo.
Naquele dia os dois rapazes Witman vagaram até tarde da noite pelos campos. Não falaram sobre os acontecimentos. O mais velho contou que no ar viviam seres que se pareciam com os homens, e quando soprava um vento fraco se podia sentir seus corpos flutuando. Depois eles pararam, fecharam os olhos e estenderam os braços. O mais velho afirmou que à sua volta pairavam moças imensas, de corpo macio, etéreo, e elas tocavam seu rosto com as costas e com os seios. Passados alguns minutos o irmão declarou que também sentia as moças. Em casa, na cama, eles continuaram falando das mulheres etéreas. Elas entraram. Esgueiraram-se sem fazer ruído, mal tocaram o vidro da janela com as costas aveludadas, e, levitando, flutuando, se deitaram junto deles sobre a colcha, sobre os travesseiros. Elas curvaram o pescoço sobre a boca e o rosto dos rapazes, e em seguida escorregaram mais para baixo com movimentos cansados, preguiçosos e leves. Passaram a noite toda com eles no quarto. Abraçavam-nos curvadas, flutuavam sorrindo na direção da janela, depois de novo deslizavam na direção deles, deitavam-se e se aninhavam sobre eles. Somente quando o dia irrompeu no quarto com raios brilhantes e quentes, elas se distanciaram pela janela, com um murmúrio lento, sonhador, arrastado, e se desfizeram no ar fresco da manhã.
Nesse dia os dois rapazes foram a casa da moça juntos. Na manhã quente de maio, eles passaram por lá voltando da escola e se esgueiraram pelo portão. A mulher veio na direção deles sorrindo, despenteada, mas com uma risada fresca, alta, e levou os Witman para seu quarto. Eles depuseram os livros, se estenderam sobre o tapete, puxaram a moça para junto deles e a beijaram, morderam, abraçaram. A mulher riu de boca fechada, e fechou os olhos. Os olhos dos rapazes de súbito se cruzaram. Os dois começaram a bater nela. A mulher agora ria de boca cheia, como se lhe fizessem cócegas. Os dois Witman se apoderaram da moça, beliscaram-na, prenderam, rolaram e a torturaram. A mulher, imóvel, ofegante, permitiu que fizessem com ela o que quisessem. Os rapazes com o rosto vermelho se esticaram sobre seu robe de seda cor-de-rosa. Mais tarde, eles recolheram os livros, e disseram a moça que ela era a jovem mais bela que já viram. Irén respondeu que gostava deles, mas caso viessem outra vez que lhe trouxessem algo, um doce, uma flor. O Witman mais velho disse que ela se contentaria com o que trouxessem. A mulher acompanhou os rapazes até o portão e beijou-lhes a mão.
Depois do almoço eles se trancaram no quarto e falaram sobre a moça; concordaram que haviam experimentado algo que superava incomparavelmente todas as aventuras que haviam tido antes, até mesmo a tortura da coruja.
– Somente por isso vale a pena viver — disse o menor.
– É o que tanto procuramos — declarou o outro.
Em uma tarde linda e quente de maio eles partiram para a escola sem livros. No entanto, foram direto para a casa, para a janela da moça. Não encontraram ninguém. Voltaram: da segunda vez, a cortina se moveu e a moça olhou para fora. Eles pararam. A moca abriu a janela.
– Vocês vem amanhã de manhã? — ela perguntou com um rosto sorridente. — Venham amanhã, tragam alguma coisa. Ela acenou e fechou a janela.
Os rapazes ficaram vermelhos e palpitantes à visão dela.
– Vamos lhe trazer joias, pulseiras ou anéis de ouro — disse depois de um longo silêncio o mais velho.
– Sim, mas de onde?
– Nossa mãe tem, vamos pedir a ela.
– Ela não vai dar.
– Vamos arranjar a chave do armário de vidro.
– Ela não vai dar a chave.
– Mas ela tem quatro pulseiras de ouro e sete anéis.
Nos dedos ela também usa três anéis.
De noite eles rodearam o armário examinando as preciosidades da mãe. Havia entre elas uma pulseira cravejada de perolas e rubis vistosos. Pediram a senhora Witman que lhes mostrasse as coisas. A mulher — loira, frágil, de natureza teimosa — os expulsou da sala. Tinha um pouco de medo dos filhos, sentia-os muito distantes dela.
Os rapazes correram para a rua para discutir.
– Não podemos pedir a ela.
– De modo algum.
– Ela não vai dar.
– Não, não.
– Temos de arrombar o armário.
– Ela vai acordar, vai fazer barulho, e nos vamos continuar sem nada.
– Ela não vai acordar!
O coração deles estava cheio de ódio da mãe loira, de olhos azuis, preguiçosa e gorda, desejavam torturá-la também.
– Eu vou quebrar uma das laterais de vidro com o cabo do meu canivete e não vai haver mais nenhum outro barulho. Você ilumina com a lanterna, e eu vou pegar todas as pulseiras e anéis.
  Mas não vamos levar tudo!
– Sim, vamos levar tudo; ela não precisa, pode ficar sem nada, ela pode chorar a vontade depois.
Subiram correndo para o sótão, deram uma busca entre as ferramentas e pegaram uma talhadeira, um alicate, verificaram a lanterna e puseram tudo nos bolsos. Em seguida, desceram correndo e se deitaram. Porém, antes espiaram pela fenda debaixo da porta e viram que o quarto da mãe estava escuro. Enquanto se despiam decidiram que só voltariam por volta da meia-noite. Não tiraram as meias, para não fazerem barulho quando andassem, e se deitaram despertos, mas serenos. Apoiados nos cotovelos fizeram pianos, de manha, depois da escola iriam correndo para a casa da moça. Esconderiam as preciosidades no sótão e as levariam aos poucos. De manhã, negariam tudo, e, se a mãe quisesse surrá-los, fugiriam. Sentiram-se felizes ao pensar que ela ficaria furiosa e choraria impotente, por não encontrar as joias. Nem por um instante consideraram a possibilidade de que ela pudesse acordar. Depois saíram da cama, abriram a janela, e se debruçaram na noite morna de maio. Os latidos dos cães, o estrépito dos carros que de tempos em tempos repartiam a noite em capítulos não encurtaram a passagem lenta das horas.
Quando por fim o relógio da torre bateu meia-noite, lentamente, eles começaram a se preparar. Acenderam a lanterna, o Witman mais jovem pegou o alicate, a serra e a lanterna, o outro somente o canivete com a longa lamina aberta. Ele foi na frente. Esgueiraram-se calmos e seguros pela sala de jantar, em seguida o mais velho se adiantou e abriu a porta que dava para o quarto da senhora Witman. As dobradiças não rangeram nem um pouco. Respiraram aliviados. Voltada para a parede, a senhora Witman dormia serena, só se via suas costas gordas, largas, cobertas por uma manta tricotada. Postaram-se diante do armário.
O garoto ergueu o canivete para golpear a lateral do armário. Ensaiou por alguns instantes e depois bateu no vidro. O estridor foi terrivelmente forte, forte como se alguém tivesse atirado uma porção de copos de vidro em uma caixa pela janela alta de um sobrado. A senhora Witman se mexeu, se virou, em seguida, apoiando-se nos cotovelos, abriu os olhos. Seu rosto expressou raiva e ódio obstinados, mas ela não chegou a falar porque o rapaz mais velho saltou sobre a cama e a golpeou no peito com o canivete. A mulher caiu para trás e sua mão direita se agitou no ar. O menor também já estava na cama e prendeu as pernas dela. O maior tirou a lamina sangrenta do peito da mãe e a golpeou de novo. Não era necessário, porque ela estava morta. De seu peito o sangue corria lentamente debaixo da colcha.
– Bern, isso está resolvido — disse o mais velho —, agora vamos pegar as coisas.
Tiraram as joias do armário, as pulseiras, os broches, os anéis, o relógio e a longa corrente de ouro do relógio. Puseram calmamente sobre a mesa o tesouro conquistado, e, de pleno acordo, eles o classificaram e separaram.
– Agora vamos logo, vamos nos lavar e trocar de roupa.
Voltaram para o quarto deles, lavaram as mãos, despejaram a água, mas não tiveram de se trocar, nas roupas não tinham nenhum sinal de sangue. Voltaram para o cenário do crime. O mais jovem abriu a janela do quarto ao lado e esperou pelo irmão, que trancou o quarto da senhora Witman por dentro, e pela janela, passando pelo parapeito, entrou pela outra janela aberta.
A rua estava completamente escura, fazia um silêncio mortal, mas eles tinham de se apressar porque o relógio da torre tinha soado uma hora e eles ainda queriam dormir. Despiram-se, entraram na cama, e, exaustos pela excitação, em alguns instantes estavam os dois profundamente adormecidos.
De manhã a mulher da limpeza que sempre chegava pontualmente as seis e meia os acordou. Estava acostumada a que a senhora Witman levantasse as dez e por isso não foi ao quarto dela. Depois de limpar a sala de jantar, ela acordou os meninos, que se lavaram depressa, tomaram o café e desapareceram com as preciosidades nos bolsos.
– Antes da escola!
– Está bem!
– Temos de ser pontuais para a apresentação.
– Claro, especialmente hoje.
– As onze horas vão nos chamar para casa.
– Vamos logo.
O portão da casa estava aberto. Até chegarem pelo corredor a porta de moça não cruzaram com ninguém. Entraram. A mulher, com o rosto vermelho, dormia profundamente, eles a descobriram e a beijaram, em seguida tiraram dos bolsos os tesouros. Puseram-nos sobre a barriga, o peito e as coxas dela
– Veja o que trouxemos.
– É tudo seu.
A mulher, com dificuldade, porem sorrindo, voltou a si, apertou as cabeças duras dos dois pequenos malfeitores, agradeceu a visita, e se virou para a parede.
– Hoje ou amanhã voltaremos.
Com isso, os rapazes se despediram, e saíram correndo para a escola.