quinta-feira, 22 de setembro de 2016

098 – O Diabo que assoviava J. Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro (1941- 2014) escritor baiano de Itaparica, vencedor do Premio Camões em 2008 e autor de conhecidos romances também escreveu alguns contos, entre eles, um dos mais conhecidos, foi O Diabo que assoviava.

O Diabo que Assoviava
João Ubaldo Ribeiro

O problema com essas histórias todas é que é tudo offzirrécorde, como se diz atualmente. Quer dizer, quem diz não escreve e quem escreve não assina. Não tolero isso. Pode estar muito na moda, mas não me convence. Eu, você pode escrever aí: foi eu que disse. O resto de quem sabe, não querendo confirmar, não confirme. Escreva aí, sem o offzirrécorde. O camarada tem medo de dizerem que ele é colhudeiro, a verdade é o sol e ele é a lua, essas coisas. Comigo não, escreva. O diabo Beremoalbo, muitas pessoas estiveram pessoalmente com ele - posso citar diversas, aliás não cito nada, hoje em dia o sujeito cita e, quando está bem do seu, já virou alcaguete, pode deixar - o diabo Beremoalbo era um diabão altamente escroto, dos piores que já apareceram por aqui, inclusive fazia as desgraças dele e dava grandes gaitadas, espécie de curriúque-curriúque, só que com aquele bafo de diabo, absolutamente diferentíssimo. Ele chegava na porta das pessoas explodindo fortemente as letras que movimentam os beiços:
— Boa noite. Meu nome é Beremoalbo.
E aí podia se resignar, que seguia uma escrotidão em cima da outra, encarreirado. Leite azedando, mulher abortando, menino de caganeira, boi de bicheira, água podre no purrão, panarício no dedão, moça velha desonrada, casa nova destelhada, tudo o que possa lhe ocorrer. O bicho tinha uma voz péssima, mestiça de gruta, uma coisa horrível de se ouvir assim no meio da noite — meu nome é Beremoalbo —, imagine o senhor. Pessoas há que procuram achar qualidades nesse diabo Beremoalbo, mas a verdade precisa ser dita, porque não existe coisa ruim neste mundo que não apareça algum descarado para elogiar: nesse Beremoalbo não tem nada que se salve, não se pode ter a mínima confiança nele. Para não dizer mais nada, recordo o dia em que seu Beremoalbo se nos aparece por meio do serviço de alto-falantes. O que ele diz é o seguinte:
— Boa noite. Ao microfone, Beremoalbo. Votem no Medebê.
Agora o senhor veja que conselho porreta que ele achou de dar. Interessante. Com certeza é a mãe dele, se diabo tivesse mãe, que vai ficar aqui aguardando quatro anos sem nem o secretário da Justiça, que é o mais esculhambado de todos, aparecer por aqui, mordamos aqui para vermos se sairmos leite, ora me deixe. Acredito ser isto suficiente para saber de quem se trata Beremoalbo.
Entretanto, Beremoalbo está longe de ser o único da raça do cão a frequentar por aqui, aliás, é exatamente de um caso desses que eu quero tratar, mais tarde lhe falo, logo, logo. Tem gente que nega, mas, quando o senhor virar as costas, vão se benzer e espalhar alho pelos cantos da casa, só que Beremoalbo come alho, com ele o negócio é difícil. Tem gente que nega, mas só de fingimento, pois a verdade é que esse pessoal todo vai se lembrar se o senhor chegar para eles e mencionar alguns dos seguintes cães: Balganoel, o espalha-merda; Virifinário, o que conseguiu fazer aparecer mais cornos nesta terra do que se pode contar; o diabão Jugurta, que convencia todo mundo a dizer a verdade e assim causou toda apresentação de fatos maus que a gente seria feliz se não soubesse; Harpagelão, que meteu na cabeça de diversos padres de ir na terra de uns índios mais do que degenerados, os quais comeram Roquiféler - uns índios que comeram Roquiféler, vai se brincar com um povo desses? - e igualmente que os índios comeram os padres e nem pensaram duas vezes, que quando índio pensa meia vez pensa muito; Rolvinésio, o que botava para falar e, botando gente para falar, causou grande número de misérias; Erundino, que peidava nos ambientes e provocava inimizades; Raimundo Humberto, dador de bofetadas estraladas, levantador de saias de mulheres, assoprador de ventos maus de toda consequência, causador de dor de ouvidos, mandador de moscas na hora do sono, broxador de amantes, atiçador de crianças insuportáveis e tudo mais que faça nós o Homem que possamos dirigir blasfêmias ao Nosso Criador - mas esse Raimundo Humberto, o senhor tem de concordar que um diabo chamado Raimundo Humberto nunca que pode ser a mesma coisa de um diabo atendendo por Beremoalbo, então seu Raimundo Humberto se fazia passar, a quantos coubesse a desgraça de topar com ele, por Ascaltenor, mas esse já é outro diabo, que não atenta aqui.
Pode o senhor assim consultar a nossa praça e perceber o que quiser. Porque cada um percebe o que quer, apesar de todo o offzirrécorde. Embora não perceber certas coisas já pareça descaração, mas manda a caridade que se deixe isso de lado. Nunca me esqueço de que uns americanos estiveram aqui e filmaram o povo todo - sem porém pagar um tostão a ninguém, como eles pagam por exemplo a Tarzan, claro que ninguém aqui é Tarzan, mas também é filhos de Deus - e, quando notaram que a maior parte só trabalha quando está com fome, disseram que todo mundo aqui somos uma sociedade rica. E ainda sustentaram e botaram na rádio. Quer dizer, quanto mais a gente estiver morando no oco dos pés de pau e cagando nos matos, mais eles estão gostando. Americano é mais sabido até do que paulista. Estamos de olho neles todos. O diabo Gildélio, conforme o senhor sabe, do contrário não estava perguntando a respeito dele, era mais especial do que esses outros, isto porque, de acordo com todas as testemunhas, trazia sempre franzido o sobrolho e a cara ensombreada, por isso que não suportava ser diabo. Se bem que nessa eu não creio assim cem por cento, porque cansei de ver ele sair da bodega de Ernestino com cada lasca de jabá deste tamanho na mão, que ele roubava, provocando com isso peixeiradas e tentativas de Ernestino contra qualquer pessoa que apresentasse cara de haver comido jabá naqueles dias, notadamente jabá crua. Eu mesmo estive acusado falsamente. Quer dizer, são umas coisas que fazem a pessoa alimentar certas dúvidas.
No entanto, de relação aos assovios, posso muitíssimo bem prestar depoimento, isto porque todos nesta cidade sabem que um certo tipo de assovio, antes muito ouvido por aqui, podia contar como uma espécie de aviso, porque lá vinha miséria. Acúrcio mesmo, depois que ele já tinha metido no juízo de Acúrcio casar com Isabel Rosália e morar com a mãe lá dela, dona Aurora, que só não se podia chamar de jararaca porque a jararaca tem a natureza mais cortês. Por aí o senhor tira a natureza de dona Aurora. Pois Acúrcio garante que, na hora do pedido de casamento, ele ouviu aquele assoviozinho como que de curió, assim no pé do ouvido bem lá dele. A consciência cochichou: atenção nos assobeios, que possa ser Gildélio. Mas aí é que está o particularismo da situação. Na hora, o sujeito não dá importância ao assovio, de forma que a desgraça fica feita. A mesma coisa pode ser dita dúzias e dúzias de vezes, como no caso de Genival, esse mesmo que o senhor está pensando, que vem ouvindo esses assovios toda vez que se candidata, desde vereador aqui até prefeito, deputado, vai a senador — quer dizer, chegando em todas as alturas políticas, não tem quem salve ele do inferno. Como no caso de Totonho, para mim ele continua a ser Totonho, lá fora é que chamam de doutor, doutor para mim é ourinol, não vou chamar de doutor um moleque daquele, que eu vi o pai muitas vezes passando cabresto em jegue alheio nos pastos, ora me deixe. O caso dele é que hoje, de grau em grau, é dono de altos bancos e altíssimas fábricas e é empregador — que ele chama empregador e não gosta que chamem de patrão, por causa do natural acanhamento — de diversas pessoas, porém sempre ele ouvindo o assovio de Gildélio, quanto mais dinheiro ele vai ganhando. Tem uns dinheiros de viúvas que ele também arrecada e escreve numa caderneta e esses incrementam muitíssimo a assoviação. Deixe ele.
Fala-se em Gildélio também, quando, por uma razão ou por outra, a pessoa se engana com alguém e pega esse alguém com a boca na botija em alguma desgraceira contra si, isto porque, segundo se diz, seu Gildélio me comete as piores safadezas por entre os disfarces mais descarados e as mais altas finuras. O sujeito pega ele armando uma sacanagem e ele faz o seguinte discurso:
— Creia, meu senhor, neste mundo é muito fácil condenar e ainda mais fácil ignorar. O senhor me compreenda, eu sou diabo, é uma fatalidade, o que é que se pode fazer? Alguém tem que ser diabo, havemos de convir. Vamos compreender. Não se condena pela profissão, sem conhecer o caráter. Se eu fosse anjo, está certo. Mas eu não sou. De forma que só posso fazer esse tipo de coisa, o senhor por fineza queira relevar. Posso garantir que, se o senhor fosse diabo, estava na mesma situação, firuri-firuri.
Bom consolo, pode o senhor dizer e, de fato, nada disso ia impedir que a desgraceira fosse feita. Pelo contrário, acho que nisso vai a demonstração de que Gildélio pode ser o exemplo de todos os diabos, pois devia ser verdade conhecida que nenhum assovio ou até apito de trem vai desviar o homem de seu mau destino. De maneira que podemos considerar esses assovios na qualidade de deboche, mesmo porque a situação aqui é de molde que, se o urubu de baixo está cagando no de cima, isso se descreve como boas notícias. É assim que vemos as coisas pretas, Deus é grande. Aliás, podia chegar uma banda de assoviadores que nada se alterava, pois desde que este mundo é mundo que existe um assoviador, sem que ninguém devote a ele preocupação, porventura senão um maestro ou outro, para lhe comunicar que o seu dó maior enganchou no si bemol.
Não sei de nada, até nem sou daqui e, mesmo que fosse, não estava aqui e, mesmo que estivesse, não falava nada. Estou ficando nos paraxismos, a culpa é sua, que me deu álcool. Estou sabendo apenas que esse diabo tanto atanazou a vida do meu compadre Tito Procópio que esse compadre, ouvindo embora os assovios, fez mais filhos do que devia a consciência consentir, pois afirmava Tito Procópio que o filho era a riqueza do pobre, convencimento este assoprado pelo Gildélio mencionado. Sendo que Gildélio, que tinha se provado amigo da família, tudo bem disfarçadinho, mostrou que não ter filhos ia ser bem pior. Além de ser maldição, exibia aos vizinhos gala fraca ou mulher maninha e, mais do que importante, podia ser - estou dizendo assim: sempre podia ser, às vezes possa ser até que não podia ser, que eu não sou comunista - podia ser que, sem mais gente para ajudar na produção, podia ser que eles não pudessem mais ficar ali, naquelas terras que não eram deles. Considerado isso, lembre que tanto faz nascer como não nascer, que a comida não aumenta, mas a produção pode aumentar. E tal e coisa. E só os assovios. Pois então Tito Procópio foi tendo filhos, juntamente com despesas de enterros diversos, muito embora tenha feito muitos que viviam ali mesmo, comendo o barrinho deles e esfregando as barriguinhas d'água deles e dois ou três quem sabe se não pode vir a ser até peão, se forte?
Terminou, naturalmente, que Tito Procópio desmascarou Gildélio e se preparou para envergonhar esse diabo, quando ele então começou com a história de que culpa ele tinha se ele era diabo. Mas logo eu, disse Tito Procópio, logo eu, que sou pobre e nada possuo nesse mundo? Podendo vosmecê ir infernar quem por aí explora e torpedeia?

É por isso mesmo, disse o diabo Gildélio, olhando para os meninos amarelos com seus olhos maus e dando um sorriso horrível como só o diabo pode dar, o sorriso mais feio do mundo. E ele sorri porque sabe que não pode obrar coisa pior do que fazer nascer. Pelo menos nascer por aqui.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

097 – A Vida Secreta de Walter Mitty – J Thurber

James Thurber (1894-1961), contista e cartunista norte americano, nascido em Ohio foi editor do The New Yorker. Este conto, publicado em 1939 é reconhecido como um dos melhores contos escritos nos Estados Unidos e foi adaptado para o cinema em 1947 com Dany Kaye e em 2013 com Ben Stiller   
A vida secreta de Walter Mitty
 James Thurber
– Vamos atravessar! – a voz do Comandante era como o quebrar de uma fina camada de gelo. Estava de uniforme de gala e tinha o boné branco, cheio de galões, caído displicentemente sobre um dos olhos frios e cinzentos.
– Não vamos conseguir, Senhor Comandante. Vem aí um furacão, se quer saber a minha opinião.
– Não quero saber a sua opinião, Tenente Berg – disse o Comandante – Potência máxima! Aumentem a velocidade de rotação até os 8.500! Vamos atravessar!
Intensificou-se o bater dos cilindros: tá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá! O Comandante ficou por um momento a observar o gelo que se formava na janela do piloto. Em seguida girou uma fileira de botões complicados.
– Liguem o motor auxiliar número 8! – gritou.
– Liguem o motor auxiliar número 8! – repetiu o Tenente Berg.
– Potência total na torre número 3! – gritou o Comandante.
– Potência total na torre número 3!
A tripulação, ocupada nas várias tarefas dentro do gigantesco hidroavião da Marinha, propulsionado por oito motores, entreolhava-se e sorria.
– O Velho vai fazer-nos atravessar – diziam entre si – O Velho não tem medo do Inferno…
– Não vá tão depressa! Você está correndo demais! – disse a Sra. Mitty – Por que você dirige tão rápido?
– Hã? – disse Walter Mitty. Espantado, olhou para a mulher, sentada no banco ao seu lado. Pareceu-lhe muito pouco familiar, como uma desconhecida que no meio da multidão lhe tivesse gritado uma coisa qualquer.
– Você estava a mais de oitenta por hora – disse – Você sabe que não gosto de andar a mais de sessenta. Você estava a mais de oitenta.
Walter Mitty continuou a conduzir em silêncio até Waterbury, enquanto o rugido do SN202, que enfrentava a pior tempestade em vinte anos de Aviação Naval, desaparecia nas remotas e íntimas rotas aéreas do seu pensamento.
– Você está ficando tenso outra vez – disse a Sra. Mitty – Você está num daqueles dias. Devia deixar que o Dr. Renshaw o examinasse.
Walter Mitty parou o carro em frente ao prédio onde a mulher ia ao cabeleireiro.
– Lembre-se de comprar as galochas enquanto estou no cabeleireiro – disse ela.
– Não preciso de galochas – disse Mitty.
Ela devolveu o espelho à bolsa.
– Já discutimos isto – disse, saindo do carro – Você não é mais uma criança.
Ele fez o motor acelerar um pouco.
– Por que você não coloca as luvas? Você perdeu as luvas? Walter Mitty levou a mão ao bolso e tirou as luvas. Colocou-as, mas depois que a mulher virou-se e entrou no prédio e que ele chegou ao sinal, começou a tirá-las novamente.
– Vamos com esse carro! – repreendeu o policial, quando o sinal abriu. Mitty tirou apressadamente as luvas e avançou num solavanco. Dirigiu sem destino pelas ruas durante algum tempo e passou em frente ao hospital, a caminho do estacionamento.
– …É o banqueiro milionário, Wellington McMillan – disse a bonita enfermeira.
– Sim? – respondeu Walter Mitty, tirando lentamente as luvas – Quem está tomando conta do caso?
– O Dr. Renshaw e o Dr. Benbow, mas há também dois especialistas, o Dr. Remington de Nova Iorque e o Dr. Pritchard-Mitford de Londres. Veio de avião.
Abriu-se uma porta em um corredor comprido e frio e apareceu o Dr. Renshaw. Parecia aturdido e extenuado.
– Olá, Mitty – disse – Estamos passando um mau bocado com McMillan, o banqueiro milionário que é amigo íntimo de Roosevelt. Obstrução terciária de canal. Gostaria que você o olhasse.
– Com muito prazer – disse Mitty.
Na sala de operações houve apresentações sussurradas.
– Dr. Remington, Dr. Mitty. Dr. Pritchardd-Mitford, Dr. Mitty.
– Li o seu livro sobre estreptotricose – disse Pritchard-Mitford, apertando-lhe a mão – Um trabalho brilhante.
– Obrigado – respondeu Walter Mitty.
– Não sabia que você estava nos Estados Unidos, Mitty – resmungou Remington – Chamaram-me e ao Mitford para ensinar o padre nosso ao vigário!
– Você é muito amável – disse Mitty.
Uma máquina enorme, complicada, ligada à mesa operatória, com muitos tubos e fios, começou nesse momento a fazer poquetá-poquetá-poquetá.
– O novo aparelho de anestesia está falhando! – gritou um estagiário
– Não há ninguém no país que saiba consertá-lo!
– Fique quieto! – disse Mitty numa voz baixa e controlada.
Correu para a máquina, que agora fazia poquetá-poquetá-pip-poquetá-pip. Pôs-se a dedilhar delicadamente uma fileira de botões cintilantes.
– Dêem-me uma caneta-tinteiro! – disse, áspero.
Alguém lhe passou uma caneta-tinteiro. Ele puxou um pistão avariado da máquina e introduziu a caneta no seu lugar.
– Isto vai agüentar uns dez minutos – disse – Continuem a operação.
Uma enfermeira veio correndo e sussurrou uma coisa qualquer a Renshaw, e Mitty viu o médico empalidecer.
– Instalou-se a coriopse! – exclamou Rennshaw, nervoso – E se você tomasse o meu lugar, Mitty?
Mitty olhou para ele, para a figura amedrontada de Benbow, que suava em bicas, e para a fisionomia carregada e hesitante dos dois grandes especialistas.- Se você prefere – disse.
Vestiram-lhe uma bata branca; ajustou a máscara e colocou umas luvas finas; as enfermeiras passavam-lhe reluzentes instrumentos cirúrgicos…
– Para trás, chefe! Cuidado com esse Buick! – Walter Mitty pisou fundo no freio – Você está na contra-mão! – disse o empregado do estacionamento, olhando fixamente para Mitty.
– Ih! é! – murmurou Mitty.
Com cautela, começou a dar marcha-à-ré na pista que dizia “Saída”.
– Deixe-o aí! – disse o empregado – Eu o dirijo.
Mitty saiu do carro.
– Olhe, é melhor deixar a chave.
– Ah! é! – disse Mitty, passando-lhe a chave da ignição.
O empregado saltou para dentro do carro, recuou com uma perícia insolente, e o arrumou no lugar.
São tão terrivelmente convencidos, pensou Walter Mitty, caminhando pelas ruas do centro da cidade; pensam que sabem tudo. Uma vez tentara tirar as correntes das rodas do carro, nos arredores de New Milford, e as enrolou todas nos eixos. Teve que vir um homem num reboque para desenrolá-las. Um jovem mecânico que não parava de rir. Desde então a Sra. Mitty sempre o fazia levar o carro à oficina para tirarem as correntes. Da próxima vez, pensou, vou com o braço na tipoia; eles assim já não vão sorrir. Vou com o braço na tipoia e eles hão de ver que eu não poderia de modo nenhum tirar as correntes sozinho. Enterrou o pé na lama do passeio. – Galochas – disse para consigo mesmo, e pôs-se à procura de uma sapataria.
Quando voltou para a rua, com as galochas numa caixa debaixo do braço, Walter Mitty começou a pensar qual seria a outra coisa que a mulher lhe tinha dito para trazer. Ela falara duas vezes, antes de saírem de casa para Waterbury. De certa forma ele detestava estas viagens semanais à cidade – sempre fazia alguma coisa errada. Lenços de papel – pensou – pomada, lâminas de barbear? Não. Pasta de dentes, escova de dentes, bicarbonato, esponja-de-aço, desiderato, estardalhaço? Desistiu. Mas ela ia lembrar-se. “Onde está o não-sei-o-quê”, perguntaria. “Não me diga que esqueceu do não-sei-o-quê”. Passou um rapaz a vender jornais e a gritar uma coisa qualquer sobre o julgamento de Waterbury.
– …Talvez isto lhe refresque a memória – O promotor agitou uma arma pesada diante da figura calma no banco das testemunhas – Já viu isto alguma vez?
Walter Mitty pegou a arma e a examinou com perícia.
– É a minha Webley-Vickers 50.80 – disse calmamente.
Um zum-zum de agitação percorreu o tribunal. O Juiz apelou à ordem.
– Imagino que o senhor seja um atirador de primeira com todo o tipo de armas de fogo – prosseguiu o promotor, num tom insinuante.
– Objeção! – gritou o advogado de Mitty – Demonstramos que o réu não pode ter disparado. Demonstramos que ele tinha o braço direito na tipóia, na noite de 14 de julho.
Walter Mitty levantou a mão por um momento e os advogados se calaram.
– Com todo o tipo de arma conhecido – disse, tranquilo – eu poderia ter matado Gregory Fitzhurst a cem metros de distância com a minha mão esquerda.
Gerou-se o pandemônio na sala. Elevou-se sobre o tumulto um grito de mulher e de repente uma bela morena estava nos braços de Mitty. O promotor esbofeteou-a selvagemente. Sem se levantar da cadeira, Mitty deu ao homem o que ele merecia, na ponta do queixo.
– Cão desprezível!…
“Ração pra cachorro”, disse Walter Mitty. Estacou o passo e os prédios de Waterbury emergiram do tribunal nebuloso para novamente o rodearem. Uma mulher que passava sorriu.
– Ele disse “ração pra cachorro” – disse ao seu companheiro – Aquele homem disse “ração pra cachorro”, falando sozinho.
Walter Mitty apressou-se. Entrou numa loja de animais, não a primeira que encontrou mas uma segunda, menor, um pouco acima na mesma rua.
– Eu queria ração pra cachorro de raça, pequeno – disse ao empregado.
– Deseja alguma marca em particular?
O melhor atirador do mundo pensou por um momento.
– Na caixa está escrito: “Os cachorros ladram por ela” – disse Walter Mitty.
A mulher sairia do cabeleireiro em quinze minutos, pensou Mitty olhando para o relógio, se não tivesse problema para secar os cabelos; às vezes havia problema para secar os cabelos. Ela não gostava de chegar primeiro ao hotel; queria que ele estivesse ali à espera, como de costume. Ele encontrou uma poltrona de couro na entrada, de frente para uma janela, e colocou as galochas e a ração pra cachorro no chão. Pegou um velho número da revista Liberty e afundou-se na poltrona. “Pode a Alemanha Conquistar o Mundo pelo Ar?” Walter Mitty olhou para as fotografias de bombardeiros e de ruas destruídas.
– …O bombardeio deixou o jovem Raleigh muito nervoso, Capitão – disse o Sargento.
O Capitão Mitty levantou os olhos para ele, por entre os ralos cabelos despenteados.
– Metam-no na cama – disse, cansado – Com os outros. Vou voar sozinho.
– Não pode fazer isso, Capitão – disse, ansioso, o Sargento – São necessários dois homens para controlar esse bombardeiro e os inimigos estão fazendo do céu um inferno. O palco dos combates vai daqui até Saulier.
– Alguém tem que chegar àquele paiol – disse Mitty – Lá vou eu. Uma dose de conhaque?
Serviu uma dose para o Sargento e outra para si. A guerra trovejava e gemia à volta da trincheira e fustigava a porta. A madeira estalou e farpas atravessaram a sala.
– Foi por pouco – disse o Capitão Mitty, despreocupadamente.
– O fogo de artilharia aproxima-se – disse o Sargento.
– Só se vive uma vez, Sargento – disse Mitty, no seu sorriso leve e rápido – Não é?
Serviu mais uma dose de conhaque e a engoliu de um trago.
– Nunca vi ninguém aguentar o conhaque como o senhor – disse o Sargento – Com o devido respeito, Capitão.
O Capitão Mitty levantou-se e pôs no ombro a sua gigantesca Webley-Vickers automática.
São 40 quilômetros de inferno – disse o Sargento.
Mitty acabou uma última dose de conhaque.
– No fundo – disse suavemente – o que é que não é um inferno?
Aumentavam os tiros de canhão; ouviu-se o rá-tá-tá das metralhadoras, e veio de algum lugar o ameaçador poquetá-poquetá-poquetá dos novos lança-chamas. Walter Mitty foi para a porta da trincheira cantarolando “Auprès de Ma Blonde”. Virou-se e acenou ao Sargento: “Até breve!”, disse…
Algo lhe bateu no ombro.
– Estou à sua procura pelo hotel inteiro – disse a Sra. Mitty – Por que você teve de se esconder nessa cadeira velha? Como é que queria que eu o encontrasse?
– O cerco aperta-se – disse Walter Mitty vagamente.
– O quê? – disse a Sra. Mitty – Você trouxe o não-sei-o-quê? A ração pra cachorro? O que é que está dentro dessa caixa?
– As galochas – disse Mitty.
– Você não podia tê-las calçado na loja?
– Estava pensando – disse Walter Mitty – Nunca lhe ocorreu que eu às vezes posso estar pensando?
Ela olhou para ele.
– Quando chegarmos em casa vou ver se você tem febre – disse.

Passaram pelas portas giratórias que rangiam um tanto zombeteiramente quando empurradas. Estavam a dois quarteirões do estacionamento. Ao chegarem à esquina da farmácia ela disse: “Espere aqui por mim. Esqueci-me de uma coisa. É só um instantinho”. Foi mais do que um instantinho. Walter Mitty acendeu um cigarro. Começou a cair uma chuva fina. Ele pôs-se a fumar encostado à parede da farmácia… Endireitou os ombros e juntou os calcanhares. “Para o inferno com esse lenço”, disse Walter Mitty com desdém. Deu uma última tragada e atirou o cigarro no chão. Depois, com aquele sorriso leve e rápido brincando nos lábios, encarou o pelotão de fuzilamento, impassível, orgulhoso e desdenhoso. Walter Mitty, o invencível, impenetrável até o fim.