terça-feira, 2 de agosto de 2016

097 – A Vida Secreta de Walter Mitty – J Thurber

James Thurber (1894-1961), contista e cartunista norte americano, nascido em Ohio foi editor do The New Yorker. Este conto, publicado em 1939 é reconhecido como um dos melhores contos escritos nos Estados Unidos e foi adaptado para o cinema em 1947 com Dany Kaye e em 2013 com Ben Stiller   
A vida secreta de Walter Mitty
 James Thurber
– Vamos atravessar! – a voz do Comandante era como o quebrar de uma fina camada de gelo. Estava de uniforme de gala e tinha o boné branco, cheio de galões, caído displicentemente sobre um dos olhos frios e cinzentos.
– Não vamos conseguir, Senhor Comandante. Vem aí um furacão, se quer saber a minha opinião.
– Não quero saber a sua opinião, Tenente Berg – disse o Comandante – Potência máxima! Aumentem a velocidade de rotação até os 8.500! Vamos atravessar!
Intensificou-se o bater dos cilindros: tá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá! O Comandante ficou por um momento a observar o gelo que se formava na janela do piloto. Em seguida girou uma fileira de botões complicados.
– Liguem o motor auxiliar número 8! – gritou.
– Liguem o motor auxiliar número 8! – repetiu o Tenente Berg.
– Potência total na torre número 3! – gritou o Comandante.
– Potência total na torre número 3!
A tripulação, ocupada nas várias tarefas dentro do gigantesco hidroavião da Marinha, propulsionado por oito motores, entreolhava-se e sorria.
– O Velho vai fazer-nos atravessar – diziam entre si – O Velho não tem medo do Inferno…
– Não vá tão depressa! Você está correndo demais! – disse a Sra. Mitty – Por que você dirige tão rápido?
– Hã? – disse Walter Mitty. Espantado, olhou para a mulher, sentada no banco ao seu lado. Pareceu-lhe muito pouco familiar, como uma desconhecida que no meio da multidão lhe tivesse gritado uma coisa qualquer.
– Você estava a mais de oitenta por hora – disse – Você sabe que não gosto de andar a mais de sessenta. Você estava a mais de oitenta.
Walter Mitty continuou a conduzir em silêncio até Waterbury, enquanto o rugido do SN202, que enfrentava a pior tempestade em vinte anos de Aviação Naval, desaparecia nas remotas e íntimas rotas aéreas do seu pensamento.
– Você está ficando tenso outra vez – disse a Sra. Mitty – Você está num daqueles dias. Devia deixar que o Dr. Renshaw o examinasse.
Walter Mitty parou o carro em frente ao prédio onde a mulher ia ao cabeleireiro.
– Lembre-se de comprar as galochas enquanto estou no cabeleireiro – disse ela.
– Não preciso de galochas – disse Mitty.
Ela devolveu o espelho à bolsa.
– Já discutimos isto – disse, saindo do carro – Você não é mais uma criança.
Ele fez o motor acelerar um pouco.
– Por que você não coloca as luvas? Você perdeu as luvas? Walter Mitty levou a mão ao bolso e tirou as luvas. Colocou-as, mas depois que a mulher virou-se e entrou no prédio e que ele chegou ao sinal, começou a tirá-las novamente.
– Vamos com esse carro! – repreendeu o policial, quando o sinal abriu. Mitty tirou apressadamente as luvas e avançou num solavanco. Dirigiu sem destino pelas ruas durante algum tempo e passou em frente ao hospital, a caminho do estacionamento.
– …É o banqueiro milionário, Wellington McMillan – disse a bonita enfermeira.
– Sim? – respondeu Walter Mitty, tirando lentamente as luvas – Quem está tomando conta do caso?
– O Dr. Renshaw e o Dr. Benbow, mas há também dois especialistas, o Dr. Remington de Nova Iorque e o Dr. Pritchard-Mitford de Londres. Veio de avião.
Abriu-se uma porta em um corredor comprido e frio e apareceu o Dr. Renshaw. Parecia aturdido e extenuado.
– Olá, Mitty – disse – Estamos passando um mau bocado com McMillan, o banqueiro milionário que é amigo íntimo de Roosevelt. Obstrução terciária de canal. Gostaria que você o olhasse.
– Com muito prazer – disse Mitty.
Na sala de operações houve apresentações sussurradas.
– Dr. Remington, Dr. Mitty. Dr. Pritchardd-Mitford, Dr. Mitty.
– Li o seu livro sobre estreptotricose – disse Pritchard-Mitford, apertando-lhe a mão – Um trabalho brilhante.
– Obrigado – respondeu Walter Mitty.
– Não sabia que você estava nos Estados Unidos, Mitty – resmungou Remington – Chamaram-me e ao Mitford para ensinar o padre nosso ao vigário!
– Você é muito amável – disse Mitty.
Uma máquina enorme, complicada, ligada à mesa operatória, com muitos tubos e fios, começou nesse momento a fazer poquetá-poquetá-poquetá.
– O novo aparelho de anestesia está falhando! – gritou um estagiário
– Não há ninguém no país que saiba consertá-lo!
– Fique quieto! – disse Mitty numa voz baixa e controlada.
Correu para a máquina, que agora fazia poquetá-poquetá-pip-poquetá-pip. Pôs-se a dedilhar delicadamente uma fileira de botões cintilantes.
– Dêem-me uma caneta-tinteiro! – disse, áspero.
Alguém lhe passou uma caneta-tinteiro. Ele puxou um pistão avariado da máquina e introduziu a caneta no seu lugar.
– Isto vai agüentar uns dez minutos – disse – Continuem a operação.
Uma enfermeira veio correndo e sussurrou uma coisa qualquer a Renshaw, e Mitty viu o médico empalidecer.
– Instalou-se a coriopse! – exclamou Rennshaw, nervoso – E se você tomasse o meu lugar, Mitty?
Mitty olhou para ele, para a figura amedrontada de Benbow, que suava em bicas, e para a fisionomia carregada e hesitante dos dois grandes especialistas.- Se você prefere – disse.
Vestiram-lhe uma bata branca; ajustou a máscara e colocou umas luvas finas; as enfermeiras passavam-lhe reluzentes instrumentos cirúrgicos…
– Para trás, chefe! Cuidado com esse Buick! – Walter Mitty pisou fundo no freio – Você está na contra-mão! – disse o empregado do estacionamento, olhando fixamente para Mitty.
– Ih! é! – murmurou Mitty.
Com cautela, começou a dar marcha-à-ré na pista que dizia “Saída”.
– Deixe-o aí! – disse o empregado – Eu o dirijo.
Mitty saiu do carro.
– Olhe, é melhor deixar a chave.
– Ah! é! – disse Mitty, passando-lhe a chave da ignição.
O empregado saltou para dentro do carro, recuou com uma perícia insolente, e o arrumou no lugar.
São tão terrivelmente convencidos, pensou Walter Mitty, caminhando pelas ruas do centro da cidade; pensam que sabem tudo. Uma vez tentara tirar as correntes das rodas do carro, nos arredores de New Milford, e as enrolou todas nos eixos. Teve que vir um homem num reboque para desenrolá-las. Um jovem mecânico que não parava de rir. Desde então a Sra. Mitty sempre o fazia levar o carro à oficina para tirarem as correntes. Da próxima vez, pensou, vou com o braço na tipoia; eles assim já não vão sorrir. Vou com o braço na tipoia e eles hão de ver que eu não poderia de modo nenhum tirar as correntes sozinho. Enterrou o pé na lama do passeio. – Galochas – disse para consigo mesmo, e pôs-se à procura de uma sapataria.
Quando voltou para a rua, com as galochas numa caixa debaixo do braço, Walter Mitty começou a pensar qual seria a outra coisa que a mulher lhe tinha dito para trazer. Ela falara duas vezes, antes de saírem de casa para Waterbury. De certa forma ele detestava estas viagens semanais à cidade – sempre fazia alguma coisa errada. Lenços de papel – pensou – pomada, lâminas de barbear? Não. Pasta de dentes, escova de dentes, bicarbonato, esponja-de-aço, desiderato, estardalhaço? Desistiu. Mas ela ia lembrar-se. “Onde está o não-sei-o-quê”, perguntaria. “Não me diga que esqueceu do não-sei-o-quê”. Passou um rapaz a vender jornais e a gritar uma coisa qualquer sobre o julgamento de Waterbury.
– …Talvez isto lhe refresque a memória – O promotor agitou uma arma pesada diante da figura calma no banco das testemunhas – Já viu isto alguma vez?
Walter Mitty pegou a arma e a examinou com perícia.
– É a minha Webley-Vickers 50.80 – disse calmamente.
Um zum-zum de agitação percorreu o tribunal. O Juiz apelou à ordem.
– Imagino que o senhor seja um atirador de primeira com todo o tipo de armas de fogo – prosseguiu o promotor, num tom insinuante.
– Objeção! – gritou o advogado de Mitty – Demonstramos que o réu não pode ter disparado. Demonstramos que ele tinha o braço direito na tipóia, na noite de 14 de julho.
Walter Mitty levantou a mão por um momento e os advogados se calaram.
– Com todo o tipo de arma conhecido – disse, tranquilo – eu poderia ter matado Gregory Fitzhurst a cem metros de distância com a minha mão esquerda.
Gerou-se o pandemônio na sala. Elevou-se sobre o tumulto um grito de mulher e de repente uma bela morena estava nos braços de Mitty. O promotor esbofeteou-a selvagemente. Sem se levantar da cadeira, Mitty deu ao homem o que ele merecia, na ponta do queixo.
– Cão desprezível!…
“Ração pra cachorro”, disse Walter Mitty. Estacou o passo e os prédios de Waterbury emergiram do tribunal nebuloso para novamente o rodearem. Uma mulher que passava sorriu.
– Ele disse “ração pra cachorro” – disse ao seu companheiro – Aquele homem disse “ração pra cachorro”, falando sozinho.
Walter Mitty apressou-se. Entrou numa loja de animais, não a primeira que encontrou mas uma segunda, menor, um pouco acima na mesma rua.
– Eu queria ração pra cachorro de raça, pequeno – disse ao empregado.
– Deseja alguma marca em particular?
O melhor atirador do mundo pensou por um momento.
– Na caixa está escrito: “Os cachorros ladram por ela” – disse Walter Mitty.
A mulher sairia do cabeleireiro em quinze minutos, pensou Mitty olhando para o relógio, se não tivesse problema para secar os cabelos; às vezes havia problema para secar os cabelos. Ela não gostava de chegar primeiro ao hotel; queria que ele estivesse ali à espera, como de costume. Ele encontrou uma poltrona de couro na entrada, de frente para uma janela, e colocou as galochas e a ração pra cachorro no chão. Pegou um velho número da revista Liberty e afundou-se na poltrona. “Pode a Alemanha Conquistar o Mundo pelo Ar?” Walter Mitty olhou para as fotografias de bombardeiros e de ruas destruídas.
– …O bombardeio deixou o jovem Raleigh muito nervoso, Capitão – disse o Sargento.
O Capitão Mitty levantou os olhos para ele, por entre os ralos cabelos despenteados.
– Metam-no na cama – disse, cansado – Com os outros. Vou voar sozinho.
– Não pode fazer isso, Capitão – disse, ansioso, o Sargento – São necessários dois homens para controlar esse bombardeiro e os inimigos estão fazendo do céu um inferno. O palco dos combates vai daqui até Saulier.
– Alguém tem que chegar àquele paiol – disse Mitty – Lá vou eu. Uma dose de conhaque?
Serviu uma dose para o Sargento e outra para si. A guerra trovejava e gemia à volta da trincheira e fustigava a porta. A madeira estalou e farpas atravessaram a sala.
– Foi por pouco – disse o Capitão Mitty, despreocupadamente.
– O fogo de artilharia aproxima-se – disse o Sargento.
– Só se vive uma vez, Sargento – disse Mitty, no seu sorriso leve e rápido – Não é?
Serviu mais uma dose de conhaque e a engoliu de um trago.
– Nunca vi ninguém aguentar o conhaque como o senhor – disse o Sargento – Com o devido respeito, Capitão.
O Capitão Mitty levantou-se e pôs no ombro a sua gigantesca Webley-Vickers automática.
São 40 quilômetros de inferno – disse o Sargento.
Mitty acabou uma última dose de conhaque.
– No fundo – disse suavemente – o que é que não é um inferno?
Aumentavam os tiros de canhão; ouviu-se o rá-tá-tá das metralhadoras, e veio de algum lugar o ameaçador poquetá-poquetá-poquetá dos novos lança-chamas. Walter Mitty foi para a porta da trincheira cantarolando “Auprès de Ma Blonde”. Virou-se e acenou ao Sargento: “Até breve!”, disse…
Algo lhe bateu no ombro.
– Estou à sua procura pelo hotel inteiro – disse a Sra. Mitty – Por que você teve de se esconder nessa cadeira velha? Como é que queria que eu o encontrasse?
– O cerco aperta-se – disse Walter Mitty vagamente.
– O quê? – disse a Sra. Mitty – Você trouxe o não-sei-o-quê? A ração pra cachorro? O que é que está dentro dessa caixa?
– As galochas – disse Mitty.
– Você não podia tê-las calçado na loja?
– Estava pensando – disse Walter Mitty – Nunca lhe ocorreu que eu às vezes posso estar pensando?
Ela olhou para ele.
– Quando chegarmos em casa vou ver se você tem febre – disse.

Passaram pelas portas giratórias que rangiam um tanto zombeteiramente quando empurradas. Estavam a dois quarteirões do estacionamento. Ao chegarem à esquina da farmácia ela disse: “Espere aqui por mim. Esqueci-me de uma coisa. É só um instantinho”. Foi mais do que um instantinho. Walter Mitty acendeu um cigarro. Começou a cair uma chuva fina. Ele pôs-se a fumar encostado à parede da farmácia… Endireitou os ombros e juntou os calcanhares. “Para o inferno com esse lenço”, disse Walter Mitty com desdém. Deu uma última tragada e atirou o cigarro no chão. Depois, com aquele sorriso leve e rápido brincando nos lábios, encarou o pelotão de fuzilamento, impassível, orgulhoso e desdenhoso. Walter Mitty, o invencível, impenetrável até o fim.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

096 – O espelho de Lida Sal – M. A. Asturias

Miguel Angel Asturias(1899–1974). Prêmio Nobel de literatura em 1967, nasceu na cidade de Guatemala é um dos grandes precursores do movimento literário latino americano. Foi autor de grandes romances: El Señor Presidente – sua obra mais conhecida – e Hombres de Maíz – um texto que descreve as tradições indígenas com a mesma magia que Guimarães Rosa descreveu o sertão brasileiro. Seu primeiro trabalho foram as Lendas de Guatemala que inclui o conto “O Espelho de Lida Sal”

O Espelho de Lida Sal
 Miguel Angel Asturias

Quando o inverno declina os rios vão ficando sem fôlego. Ao brando deslizar das correntes sucede o silêncio seco, o silêncio da sede, o silêncio das secas, o silêncio das lâminas de água imobilizada entre os bancos de areia, o silêncio das árvores que o calor e o vento tostado do verão quente fazem suar folhas, o silêncio dos campos onde os rústicos se amodorram nus e sem sono. Nem moscas. Atmosfera irrespirável. O sol cortante, a terra como um forno de olaria aceso. Os gados extenuados espantam o calor com o rabo enquanto buscam a sombra dos abacateiros. Através da erva seca e escassa, coelhos sedentos, serpentes surdas a procura de água e aves que mal erguem o voo.
Inútil dizer quanto os olhos se matam diante de tanta terra rasa. Para as quatro bandas da distância a vista perde-se no horizonte. Só olhando muito bem se divisam pequenos grupos de árvores, campos de terras revolvidas e caminhos desses que se formam de tanto e tanto trilhados de passos e que vão por ali adiante, até ranchos onde o homem encontra o contento do lume, a mulher, os filhos, currais onde a vida procura o alimento, como galinha insaciável, o prazer dos dias.
Por uma dessas desesperadas horas de calor e sufocação, D. Petronila voltou para casa. D. Petronila Ângela, a quem alguns nomeavam assim, ao passo que outros lhe chamavam Petrángela, mulher de D. Filipe Alvizures, mãe dum rapaz e grávida de há meses. D. Petronila Ângela finge que não faz nada, para que seu marido não a repreenda por fazer coisas no estado em que está, e com esse ar de nada fazer mantem a casa em ordem, tudo como deve ser: roupa limpa nas camas, asseio nos quartos, pátios e corredores, olho na cozinha, mãos na costura e ao forno, idas e vindas aqui e ali: ao galinheiro, à quadra onde se mói o milho ou o cacau, a arrecadação das coisas velhas, ao curral, à horta, à rouparia, à despensa, à toda a parte.
Seu senhor marido ralha quando a vê ocupada; quer que esteja sentada ou deitada sempre sem mexer uma palha; mas isso é mau, pois os filhos saem preguiçosos. Seu senhor marido, Filipe Alvizures, é um homem interiormente imenso — o que o torna lento de movimentos —, e por fora sempre metido em espaçosas roupas de cotim. Ignora a aritmética, mas sabe somar rapidamente servindo-se de grãos de milho, e ainda sabe menos de letras, mas e inútil saber ler, como bem sabem todos esses que nunca leem. De resto, se D. Pe­tronila diz que ele é imenso por dentro é porque lhe custa juntar duas palavras. Dir-se-ia que as vai buscar uma a um ponto a outro muito mais além. Dentro e fora de si, o senhor Filipe tem onde se mover muito à sua vontade, sem ter que fazer nada de afogadilho, refletindo com toda calma. E quando chegue a sua hora — «Queira Deus que daqui a muitos e bons!», diz lá consigo Petrángela—, se a morte lhe não colhe o passo não poderá levá-lo.
A força do sol reparte-se pela casa toda. Um sol com fome, que sabe que são horas de almoço. Mas sob os tetos de telha de barro está mais fresco. Contra seu costume, Filipinho, o filho mais velho, chegou primeiro que seu pai, saltou a cavalo por cima do portão de trancas —só duas estavam atravessadas: as mais altas, as mais perigosas — e, entre o alvoroço das galinhas, o latir dos cães e o esvoaçar dos pombos, depois dum ir e vir a velocidade de relâmpago, imobilizou o cavalo, cujas ferraduras arrancavam faíscas à calçada do pátio, e soltou uma gargalhada.
— Que coisa sem graça nenhuma, Filipinho... já sabia que eras tu!
À mãe não agradavam nada semelhantes áfricas. Os olhos do cavalo brilhavam, espumava-lhe a boca. Filipinho desmontou e foi abraçar e acarinhar D. Petronila.
Daí a pouco chegava o pai, montado no Samaritano, um macho negro assim chamado devido a sua mansidão. Arreou-se da montada com mil e um vagares, para afastar as trancas do portal que Filipinho vencera de salto, pô-las de novo e entrou sem fazer bulha que não a do toque-toque dos cascos do Samaritano no empedrado fronteiro ao apeadeiro.
Almoçaram de boca calada, vendo-se como se não se vissem. O senhor Filipe via sua mulher, esta seu filho, e o filho seus pais, que devoravam tortilhas rasgavam a carne duma perna de frango com os dentes afiados, bebiam água a grandes sorvos, para que lhes passasse da garganta a massa duma saborosa papa de mandioca vermelha.
– Deus lhe pague, senhor pai...
O almoço findou, como sempre, sem muitas palavras, entre o silêncio de todos e as olhadelas de Petrángela à cara e ao movimento das mãos de seu marido, para saber quando ele terminara um prato e pedir a criada que trouxesse o seguinte.
Filipinho, depois de dar graças a seu pai, aproximou-se da mãe, os braços cruzados sobre o peito, a cabeça baixa, e repetiu:
— Deus lhe pague, senhora mãe...
E tudo terminou na forma do costume: D. Filipe na sua rede, a mulher numa cadeira de balanço, Filipinho escarranchado num banco, como se continuasse a cavalo. Cada qual com seus pensamentos. O senhor Filipe fuma. Filipinho não se atreve a fumar diante de seu pai, mas vão-se-lhe os olhos atrás do fumo, enquanto Petrángela se balança apoiando-se agora e logo no chão com um e outro dos seus pés pequeninos.

2
Lida Sal, uma mulata mais torneada que um pião, era toda ouvidos, não para o que estava fazendo, mas para a conversa do cego Benito Jojón com um tal Falutério, mordomo da festa de Nossa Senhora do Carmo. O cego e Falu­tério tinham acabado de comer e estavam para abalar. Isto ajudava a que Lida Sal pudesse escutar o que diziam. Os lavadouros de pratos e outros utensílios sujos ficavam quase ao pé da porta que a casa de pasto tinha sobre a rua.
– Os Perfectantes — dizia o cego, ensaiando gestos como se arrancasse das rugas do rosto incomodas teias de aranha— são os mágicos... Então, como explicar que não se encontrem candidatas, tanto mais que agora os homens andam tão ariscos? Sim, amigo Falutério, há poucas bodas e muitos batismos, o que não está bem. Muito solteirão com cria, muito solteirão com cria...
– Que quer você? Desculpe-me a franqueza... mas se peço a sua opinião é para estar seguro, quando falar com os outros membros da Confraria da Santíssima Virgem. A festa não tarda, e se não há mulheres que se encarreguem das fardas dos Perfectantes então vai ser como o ano passado: sem mágicos...
– Falar não custa, Falutério, fazer é que dá trabalho. Se me fazem a caridade de deixar que eu me ocupe de vestir os Perfectantes, bem pode ser que eu encontre candidatas. Há por ai muita mulher casadoira, Falutério, e mulher em idade de arranjar marido.
– É difícil, Benito, é difícil. Ideias de outros tempos. Hoje em dia, com o que se sabe, quem vai lá acreditar em semelhantes bobagens?! Da minha parte, e da parte todos os da comissão dos festejos da padroeira, creio não haver nenhum inconveniente em lhe dar, já que é necessitado e não pode trabalhar por ser cego, o encargo de enfeitar os Perfectantes.
– Sim, sim, deixem-me fazê-lo e assim não se acabarão as coisas de outros tempos.
– Vou-me embora, deixo-o agora. E tenha como certo o oferecido.
– Tomo-lhe a palavra, sim senhor, tomo-lhe a palavra... E cá me vou também, a tratar disso, com a ajuda de Deus
A mão fria e ensaboada de Lida Sal abandonou o prato que estava lavando e pousou no braço do cego, na manga do seu casaco, que de tão remendado era todo ele um remendo. Benito Jojón cedeu ao gesto afetuoso, deteve o passo, pois se dirigia para sua casa, ou seja para a praça do povoado, e perguntou quem o retinha.
– Sou eu, Lida Sal, a rapariga que lava os pratos aqui na casa de pasto.
– Sim, filha. Mas que queres de mim ?
– Que me dê um conselho novo...
– Ah!, ah! És então das que acreditam que ha conselhos velhos...
– E é mesmo por isso que o quero novo. Um conselho que invente só para mim, que não tenha dado a nenhuma outra, que nem sequer o tenha pensado. Novo...
– Vejamos, vejamos se posso...
– Trata-se, como vossemecê já sabe...
– Não, não sei nada...
– É que eu estou. como devo dizer ?, que eu estou,.. um bocado embeiçada por um homem, e ele nem sequer olha para mim...
– É solteiro?
– Sim, solteiro, bem jeitoso, rico... —suspirou Lida Sal. — Mas como é que vai reparar em mim, que apenas lavo louça, se ele é uma grande coisa?...
– Não digas mais nada. Sei o que queres, mas como me disseste que não passas duma criada que lava louça, não vejo como te arranjarás para pagar a esmola duma das fardas dos Perfectantes. São coisas muito caras...
– Por ai não se aflija. Tenho algum dinheirinho, se não é assim muitíssimo o que se tem que dar de esmola. O que eu quero saber e se vossemecê se compromete a dar-me uma dessas vestes mágicas e a ir ter com aquele ingrato, para que ele a use no dia da padroeira. Que ele se vista de Perfectante com o traje que eu lhe mande é o principal. O resto corre por conta da magia.
– Mas, filha, s além de não ver não sei onde encontrar esse tal senhor a quem tu queres e por quem te derretes? Quanto a este teu caso, sou duas vezes cego...
Lida Sal inclinou-se até uma das grandes orelhas rugosas. peludas e emporcalhadas do cego e disse-lhe:
– Em casa dos Alvizures.
– Ah!... Ah!...
– Filipinho Alvizures...
– Entendo, entendo... queres fazer um bom casamento...
– Não, por Deus! Lembre-se de que é cego e não pode ver claro, se o que vê no meu amor e apenas o interesse!
– Então, se não é por interesse é porque o corpo te pede...
– Não seja bruto! Me pede a alma, porque se me pedisse o corpo eu suaria quando o vejo, mas não suo, pelo contrario, fico como se não fosse eu, a suspirar,
– Esta bem! Quantos anos tens?
– Vou fazer dezenove, mas não sei bem, talvez vinte. Eh!, tire a mão dai... Cego, e mesmo assim, a botar a pata!
– É para me certificar, filhinha, para me certificar de como estas de carnes...
– Vai a casa dos Alvizures?... Isso é o que me interessa!
– Hoje mesmo... Mas que é isto que me enfiaste no dedo? É um anel?
– Um anel de ouro. Vale o que pesa...
– Que bom... que bom...
– Dou adiantado pelo do que tiver de pagar de esmola pela farda de Perfectante.
– És pratica, menina. Mas olha que não posso, ir a casa dos Alvizures sem saber sequer como te chamas...
– Lida Sal...
– Bonito nome, mas não é cristão. Vou lá onde me manda o teu coração. Experimentaremos a magia. Como a estas horas as carroças do senhor Filipe estão no mercado carregando e descarregando lenha, meto-me numa delas, como já tenho feito outras vezes, e lá me terão de visita a em busca do Filipinho

3
O cego quis beijar a mão a D. Petronila Ângela, mas esta retirou a tempo e o estalido dos lábios perdeu-se no vazio. Não era de beijoquices, pela mesma razão que detestava os cães.
– A boca se fez para comer, para falar, para rezar, Jojón, e não para lamber as pessoas. Veio à procura dos homens? Estão por ai, estendidos nas redes. Me dê sua mão, que eu o levo, cuidado para não tropeçar. Mas que é que o traz tão apressado? Felizmente, bem sabe, as carroças estão à sua disposição e esta casa sempre aberta para você.
– Sim, Deus lhe pague, minha senhora, e se vem sem antes avisar é porque o tempo corre e temos de nos adiantar para preparar bem a festa de Nossa Senhora.
– Tem razão, já estamos quase em vésperas do grande dia... Mas quem diria que a outra festa foi já há um ano.
– E agora estão fazendo preparativos que deixam a perder de vista os do ano passado. A Senhora vai ver...
O senhor Filipe numa rede e Filipinho noutra, embalavam-se enquanto o Sol ia declinando. O senhor Filipe fumava um tabaco que cheirava a figos, e Filipinho, por respeito, resignava-se a ver formarem-se e desfazerem-se as nuvens do fumo perfumado no ar tépido.
Petrángela aproximou-se deles conduzido Jojón pela mão e, já quase ao pé das redes, anunciou-lhes que tinham visita.
– Não é uma visita —corrigiu o cego—, e um maçador...
– Os amigos nunca maçam — adiantou-se a dizer o senhor Filipe enquanto botava fora da rede uma das pernas, curtas, para se sentar.
– Veio com os carreiros, Jojón? — perguntou Filipinho.
– Sim, menino, sim. Mas agora, se arranjei modo de vir, como hei de ir e que não sei.
– Selo um cavalo e vou levá-lo — respondeu Filipinho, — Por isso não esteja em cuidados...
– Senão, fica conosco...
– Ai, minha senhora, se eu fosse uma simples coisa ficava, mas tenho boca, já sabe que uma boca a mais é sempre um incomodo!
O senhor Filipe entretanto apertou a mão do cego, tão cheia de sombras duvidosas, e conduziu-o a uma cadeira que Filipinho trouxera.
– Vou lhe por um charuto na boca — disse o senhor Filipe.
– Não me peça licença, senhor; para dar um gosto não se pede licença...
E já fumando a plenos pulmões Jojón continuou:
– Dizia-lhes eu que isto não era uma visita, mas uma maçada. Assim mesmo, pura maçada. Venho com o encargo de saber se Filipinho quer ser este ano o chefe dos Perfectantes.
– Isso é lá com ele— disse o senhor Filipe Alvizures, fazendo sinais a Petrángela que se aproximasse, e, chegando-se ela, prendeu-a pela cintura inabarcável só com um braço, para estarem juntos, atentos ao falar do cego.
– Isso traz agua no bico... — reagiu Filipinho, expelindo um jato de saliva que ficou a brilhar no chão.
Sempre que ficava nervoso cuspia assim.
– Não lhe ponho a faca aos peitos —aduziu Jojón. — Há tempo para pensar bem no caso e resolver sem precipitação, desde que não demore muitos dias, porque a festa esta à porta. E note, menino, que no caso de aceitar tem de experimentar o traje, a ver se lhe cai bem e para que se lhe cosam nas mangas os galões de Príncipe dos Perfectantes.
– Não me parece que ele tenha de estar com grandes pensamentos — decidiu a executiva Petrángela. — Filipinho e afilhado de Nossa Senhora do Carmo, e não vejo melhor maneira de lhe mostrar a sua devoção do que participar na sua santa festa.
– Isso sim... — articulou Filipe filho.
– Então —interveio o pai procurando as palavras—, não tem muito que pensar nem mais que falar. — E sempre sem encontrar como dizer as coisas: — Viu que não deu passos em vão, senhor Benito ? E se agora, como disseste, o vais levar a cavalo, na aldeia poderás experimentar os trajes, a ver qual te fica melhor, se são precisos alguns arranjos.
– Agora trataremos dos galões de Príncipe — disse Jojón. —Quanto ao traje, trago-o eu cá depois para que o prove, porque não o tenho ainda.
– Seja...— aceitou Filipinho. —Para não perdermos tempo vou ver se escolho um macho manso, antes que caia a noite.
– Espere ai, senhor apressado! —deteve-o a mãe.— Primeiro que tudo, Jojón tem de tomar o seu chocolatezinho...
– Sim, sim, mãe, já sei, mas enquanto ele toma o seu chocolate eu escolho o macho e aparelho-o. Faz-se tarde... — e foi saindo na direção dos currais. — Faz-se tarde e escurece, se bem que para um cego seja o mesmo andar de dia ou de noite... — continuou ele de si para consigo.

4
A casa de pasto estava sem luz e silenciosa. À noite os clientes eram escassos. A grande animação era ao meio-dia. Havia pois espaço e desafogo mais que suficientes para que o cego, muito agarrado ao braço de Filipinho Alvizures, entrasse e fosse sentar-se a uma das mesas, enquanto um par de olhos fixava no moço as suas pupilas negras, cheias. duma luz de esperança.
– Tomam alguma coisa? — perguntou Lida Sal aproximando-se, enquanto passava um pano sobre a velha mesa de madeira, gasta dos anos e das intempéries.
– Duas cervejas — respondeu Filipinho — e, se há, dois pães com carne.
A mulata sentia momentaneamente que o chão, única coisa estável sob os seus pês, a não segurava. A custo dissimulava a sufocação. Cada vez que lhe era possível roçava os braços nus e os seios firmes, trementes sob a blusa, pelos ombros de Filipe. Pretextos para se aproximar não lhe faltavam: os copos, a espuma que extravasava do copo do cego, os pratos com os pães com carne.
E vossemecê — perguntou Alvizures ao cego —, onde dorme? Tenho de ir embora e queria deixá-lo lá...
– Por aqui. Aqui mesmo na casa de pasto dão-me as vezes pousada, não é, Lida Sal?
– Sim, sim... — foi tudo o que esta pôde dizer, e mais custoso lhe foi ainda articular o preço das cervejas e dos sanduiches.
No oco da sua mão em concha, em que sentia o seu coração, apertou as moedinhas quentes que lhe entregou Alvizures, quentes de terem estado na algibeira dele, em contato com a sua pessoa, e sem poder resistir mais levou-as aos lábios e beijou-as. Depois de as beijar passou-as pelo rosto e deixou-as cair por entre os seios.
Pela escuridão sem olhos, uma dessas escuridões das noites que começam e acabam negras, cor de ardósia, trotava o cavalo de Filipinho Alvizures, que se afastava seguido do macho, mais molengo no passo, em que viera montado o cego.
Ah!, como era difícil falar em meio de tantas coisas tão caladas!
– Quieto, ó cego —murmurou Lida Sal, de maneira nenhuma zangada, tal a festa que lhe ia na alma. — Aí não se mexe...
– A mão quer apertar-te, cabeça oca, para que sintas o anel que hoje me deste, aqui no meu dedo, já como coisa minha, que bastante trabalho me custou a ganhá-lo: trabalho e manhã. Amanhã terás cá a farda de Perfectante que o Filipinho usará na festa.
– E que vou eu fazer?...
– Tu, filha, tens de dormir com ela vestida bastantes noites, para que a deixes impregnada da tua magia. Durante o sono tornamo-nos mágicos. Assim, logo que ele a vista, para tomar parte na festa, há-de sentir o encantamento e procurar-te, já não poderá viver sem te ver.
Lida Sal sentiu-se vacilar. A cabeça andava-lhe a roda. Com uma mão firmou-se as costas duma cadeira, com a outra apoiou-se a mesa, e um soluço teimoso de soltar-se chegou-lhe aos lábios.
– Choras?
– Não! Não!... Sim! Sim!
– Choras ou não choras?
– Sim, de felicidade...
– Mas, és mesmo muito feliz?...
– Quieto, ó cego, quieto!
A teta quente da mulata saltou de sob a blusa ao tatear do velho, enquanto ela sentia que as moedas com que lhe pagara Filipinho Alvizures escorregavam dos seios para o ventre, tal como se o seu coração estivesse já a soltar pedaços de metal fundido de que seriam feitas as moedas com que pagar a Jojón o restante da esmola da farda mágica.

5
Não havia fantasia mais vistosa que o do Perfectante. Calção de guarda suíço, couraça de arcanjo, jaqueta toureira. Botas, galões, franjas, tudo dourado, abotoaduras e cordões de ouro, cores vivas e furta-cores, lantejoulas, avelórios, penduricalhos de cristal com fulgores de pedras preciosas. Os Perfectantes brilhavam como sois entre a mascarada que acompanhava a Senhora do Carmo, durante a procissão que percorria todas as ruas da povoação, as principais e as humildes, pois ninguém admitiria que a Grande Senhora não passasse à sua porta.
O senhor Filipe moveu a cabeça dum lado ao outro. Pensando bem, não lhe agradava por aí além que seu filho vestisse aqueles ouropéis, porém como opor-se teria sido ferir os sentimentos religiosos de Petrángela, mais espevitados agora que estava grávida, dissimulou o desagrado com uma piada que a consorte achou de mau gosto.
– Tao embeiçado estava eu pela tua senhora mãe quando nos casamos, Filipinho, que diziam por ai que ela tinha dormido sete noites seguidas com o traje o fato que eu sai de Perfectante, haverá isso uns vinte e sete, trinta anos talvez...
- Teu pai nunca saiu de Perfectante, filho, não o acredites!... -contradisse-o ela, temerosa e contristada.
– Pois , se é assim, não te serviu de nada dormires com  o traje...
Alvizures pôs-se a rir, ele que era homem de poucos risos, não porque não gostasse de rir, mas porque desde que e casou dizia: “O riso deve ficar à porta da igreja, onde um homem se casa, onde começa o seu calvário..”
– Essa das artes de magia para. que te casasses comigo é pura invenção tua... Se saíste de Perfectante foi por causa de qualquer outra...
– Outra?... Nem em vinte léguas de roda... – e riu, riu muito bem disposto, convidou Filipinho a rir também: -" Ria, filho, ria, que ainda és solteiro. O riso é um privilégio dos solteiros. Quando te casares, quando uma rapariga dormir com a farda de Perfectante que te caiba usar na festa, adeus riso para sempre! Nós, os casados, não rimos, fazemos que rimos, o que não é o mesmo... O riso é atributo dos solteiros... dos solteiros novos, porque os  solteirões mais velhos, também não riem, arreganham os dentes...
– Teu pai confunde tudo, filho... -reagiu Petrángela. – O riso é dos novos, sejam casados ou solteiros, e não dos velhos. Mas ele está velho, que queres?, a velhice entrou com ele...
Petrángela não pregou olho nessa noite. Assomavam-lhe à  consciência aquelas noites em que na verdade dormiu com traje de Perfectante que o senhor Filipe Alvizures vestiu na festa de trinta anos atrás. Tivera que contradizê-lo diante do filho, porque há segredos que nem aos filhos se revelam. Não segredos: intimidades, pequenas intimidades. Não amanhecia. Sentiu frio. Aconchegou os pés. Fechou as pálpebras. Impossível tornar a adormecer. O sono andava ausente dos seus olhos, temia que àquela hora, em vésperas da festa de Nossa Senhora do Carmo, alguma moça estivesse a dormir com o traje de Perfectante destinado a Filipinho, para, o impregnar do seu suor mágico e de tal arte o seduzir.
– Ai, Senhora do Céu, Virgem Santíssima!... -balbuciava. - Perdoai os meus temores, as minhas superstições, sei que é uma tolice... que tudo isto são crendices, crendices sem fundamento... mas é meu filho... meu filho!

O certo seria evitar que ele saísse de Perfectante. Mas como evitá-lo, se tinha aceitado e ia figurar de príncipe dos Perfectantes? Seria desarranjar tudo, e depois não tinha sido ela, diante do marido, quem dispusera que Filipinho aceitasse?
Não amanhecia. Não cantavam os galos. Tinha a boca seca. A cabeleira, de tanto buscar o sono às voltas no travesseiro, emaranhara-se-lhe sobre o rosto.
– Que mulher, Deus meu!, que mulher estará a dormir com o traje de Perfectante que levaria o meu Filipinho?

6
Lida Sal, mais pómulos que olhos de dia, mas de noite mais olhos que pómulos, divagava as pupilas dum lado ao outro do quarto em que dormia, e ao afirmar-se de que estava só, que só a grande escuridão era sua companheira, a porta bem trancada, a porta e um janelo que dava para a dispensa ainda mais em cegueira, desnudava-se toda, passava as mãos ásperas da esfrega ao longo do corpo esbelto e, seca a garganta peia angústia, húmidos os olhos, as coxas trementes, enfiava o traje de Perfectante e deitava-se. Mas, mais que o sono, era uma sonolência que lhe ia paralisando o corpo, sonolência e cansaço que a não impediam de em voz baixa, meio adormecida, conversar com o tecido, confidenciando a cada um dos fios coloridos, das lantejoulas, aos avelórios, aos ouros, os seus sentimentos amorosos.

Uma noite, porém, não o vestiu. Deixou-o enrodilhado debaixo do travesseiro, triste porque não tinha um espelho de corpo inteiro onde se ver com ele vestido. Não era porque lhe importasse saber como lhe ficava, se curto, se comprido, largo ou apertado, mas porque era um dos primeiros rituais mágicos vesti-lo e vê-lo vestido diante dum grande espelho. Pouco a pouco foi-o tirando de sob o travesseiro, mangas, pernas, costas, peito, para o acariciar contra o rosto, pousar-lhe em cima a fronte com seus pensamentos, cobri-lo de miúdos beijos...

Manhãzinha cedo chegou Jojón em cata do seu desjejum. Desde que andava em conluios com ela comia quanto lhe apetecia, sempre as escondidas da patroa, que nesses dias pouco parava na casa de pasto, pois a azafamavam os preparativos para poder dar despacho à clientela habitual e à gente de fora durante os dias da festa.
– Coitado de quem é pobre! – queixou-se a mulata' – Não tenho um espelho grande em que me veja...
– E isso é de toda a urgência - respondeu o cego – porque por ai pode falhar-te a magia...
– Mas que fazer? Só se eu me for meter, como uma ladra, numa casa rica, à meia-noite, vestida de Perfectante. Estou desesperada. Desde ontem à noite estou que não sei que hei de fazer. Aconselhe-me...
– É o que não sei... A magia tem as suas consistências...
– Não entendo o que quer dizer...

- Sim, porque a magia consiste nisto ou consiste naquilo, mas sempre consiste em alguma coisa, e, neste caso, consiste em que uma mulher se deve vestir de Perfectante e ver-se a um espelho de corpo inteiro.
– Mas vossemecê, sendo cego, como sabe de espelhos?...
– Não sou cego de nascença, pequena. Já tinha os meus anos quando perdi a vista, por causa dum mal purulento que primeiro me comeu as pálpebras e depois se me meteu nos olhos.
– Sim nas casas grandes... como a dos Alvizures... há espelhos desses...
– Diz-se que há um muito bom lá em casa deles e até se conta... Não, não é brincadeira... Bem, talvez com isto te possa dar uma esperança. Então vou te contar a coisa, não por mexeriquice. Sirva-me isto de desculpa para quando fores sua nora... Conta-se que como a mãe do Filipinho, D. Petrángela, não teve espelho onde se visse quando enfeitiçou o marido, no dia em que se casou levava o traje de Perfectante por baixo do vestido de noiva e que, ao dizer- lhe o senhor Filipe que se despisse, tirou o vestido branco e, em vez de aparecer nua, mostrou-se em traje de Perfectante, só para cumprir o ritual, para dar satisfação à magia...
– Os casados põem-se assim nus?
– Sim pequena...
– Então vossemecê foi casado?
- Sim, e como o mal ainda não me tinha dado cabo dos olhos pude ver minha mulher...
- Vestida de Perfectante...
- Não, filhinha: como Eva, em couro...

Lida Sal retirava a tigela em que o cego acabara de tomar café com leite e sacudia as migalhas de pão de cima da mesa. Não aparecesse por ali a patroa.
- Não sei onde, mas tens de encontrar um espelho para te veres da cabeça aos pés vestida de Perfectante... – foram as últimas palavras do cego.

E desta vez esqueceu-se de a prevenir que o prazo para devolver o fato se ia aproximando; a festa estava à porta e ele tinha de o levar a casa dos Alvizures.

7
Estrelas quase afogadas na claridade da Lua, árvores dum verde sombrio, currais cheirosos a leite e orvalho, montões de feno em medas pelos campos, que à lua-cheia mais amarelos pareciam. A tarde tardara em dar lugar à noite. Fora-se afilando até não ser senão um reflexo cortante no ponto onde o céu já se pintava. de estrelas. E nesse fio cortante azulado, avermelhado, rosa, verde e violeta da tarde fixava  Lida Sal os olhos, pensando que era chegado o prazo para devolver a farda.

– Amanhã é o ultimo dia que te deixo – preveniu-a Jojón – Se não a entrego à tempo está tudo estragado...
- Sim, sim, não fique preocupado, amanhã a entrego é que hoje vou ver-me ao espelho...
- Ao espelho dos teus sonhos, pequena, porque não vejo onde...
O fio luminoso da tarde ficou nas pupilas de Lida Sal como a frincha dum impossível, como urna frincha por onde pudesse abarcar o céu.
- Sevandija maldita:... -berrou ao seu alheamento a dona da locanda. - Não tens vergonha, com uma data de louça por lavar! Desde há dias que me andas para aqui e para ali como uma doida, e o trabalho por fazer.

A mulata deixou que lhe arrepelasse a grenha e beliscasse os braços, sem responder. Passado um instante, como por encanto, a tormenta amainou. Mas era pior. Porque ao palavrório dos insultos seguiram-se as mil e uma lamentações e recomendações do costume.
– Temos a festa à porta e a menina nem sequer me pediu que lhe mandasse fazer roupa nova. Do que tenho de teu devias comprar um vestido, uns sapatos, umas meias. Não vais atrever-te a aparecer na igreja e na procissão como uma maria-ninguém. É uma vergonha! Que vão pensar de mim, tua patroa? Que te mato à fome ou que fico com o teu ordenado!
- Pois, se lhe parece, amanhã dá-me dinheiro e eu vou comprar qualquer coisa.
– Está visto, menina, temos de agradar uns aos outros' Tu agradas-me fazendo as coisas como deve ser, eu agrado-te comprando-te o que te faz falta. E ainda mais que és nova e não és feia. Quem te diz que entre os que vêm vender gado à feira não te aparece um bom partido?
Lida Sal ouvia-a, mas não entendia nada. Esfregava os trastes, pensando, matutando, no que imaginara ante a ultima réstia da tarde. O que mais custava era esfregar as frigideiras e os tachos. Que maçada! Tinha de raspá-los à força de pedra-pomes, até lhes safar as gorduras do fundo, e em seguida, por fora, era outra pura guerra com a fuligem também gordurosa.
O esplendor da Lua não permitia pensar que era de noite. Dir-se-ia que somente o dia esfriara, mas que continuava na mesma.
- Não fica longe - disse para si mesmo, dando forma verbal ao que pensava – e é um bocadão de água, quase uma lagoazinha.
Não demorou muito no quarto. Tinha de estar de volta ao amanhecer e entregar o traje de Perfectante ao cego, para que o levasse a casa dos Alvizures... Ah!, mas antes tinha de o ver ela no seu corpo, a um grande espelho, pois a magia tem as suas consistências...
Ao principio, o encontrar-se em pleno campo intimidou-a. Mas logo foi familiarizando os olhos com os arvoredos, as pedras, as sombras. Via tudo tão claramente por onde ia que lhe pareceu caminhar à luz dum dia submerso. Ninguém a encontrou com aquele estranho traje, caso contrário, quem quer que fosse, teria largado a correr, como ante uma visão diabólica. Teve medo, medo de ser uma visão de fogo, uma tocha de lantejoulas em chamas, um rasto de avelórios, de chispas de água cristalizadas numa só pedra preciosa com forma humana, quando chegou à beira do lago para se debruçar sobre ele vestida com a farda que Filipinho Alvizures usaria na festa.

Da beira boscosa dum barranco que cheirava a desabamentos por entre raízes desenterradas e pedras removidas comtemplou o vasto espelho verde, azul e fundo, com seu rendilhado de nuvens baixas, raios de Lua e sonhadoras obscuridades. Pareceu-lhe outra. Seria mesmo ela? Era Lida Sal ? A mulata que esfregava os tachos na casa de pasto seria a rapariga que descia por aquele caminho naquela noite, àquele luar, com aqueles trajes de lume e orvalho?
De um e de outro lado roçavam-lhe os ombros as pestanas dos pinheiros, flores sonambulas de perfume adormecido molhavam lhe o cabelo e o rosto com doces beijos húmidos.
– Deixem-me passar! Deixem-me passar! ... – dizia avançando por entre moitas de gengibres, perfumados, enlouquecedores.
– Deixem-me passar! Deixem-me passar !... - repetia ao deixar atrás rochas e pedras gigantescas tombadas do céu, se aerólitos eram, ou da boca dum vulcão num recente cataclismo, se da terra eram.
– Deixem-me passar! Deixem-me passar!... -dizia à cascatas...
– Afastem-se, deixem passar a formosura! -dizia aos regatos e arroios que também iam como ela ver-se ao grande espelho...

– Ah! Ah! Ele bebe-vos –dizia lhes-, mas a mim não me beberá, só me vai ver, vai ver-me vestida de Perfectante, para que se cumpram todas as consistências da magia.
Não corria vento. Luar e água. Lida Sal arrimou-se a uma árvore que dormia chorando, mas logo se afastou horrorizada, que talvez fosse de mau agoiro debruçar-se para o espelho juntamente com uma árvore que chorava adormecida.
Duma ponta a outra da margem foi procurando sítio onde pudesse ver-se em corpo inteiro. Não conseguia a sua imagem completa. Em corpo inteiro. Só se subisse a uma das altas pedras da outra margem.
– Se o cego me visse.. . - mas, que tolice !, como poderia vê-la um cego...
Sim, tinha dito uma tolice, quem tinha de ver-se ao espelho era ela, ver-se dos pés à cabeça.
Trepou. Estava agora em cima dum rochedo de basalto contemplando-se na água.
Onde encontrar um espelho melhor?
Avançou um pé para a extremidade do pedregulho, a admirar o seu belo traje - lantejoulas, avelórios, pedras luminosas, galões, franjas e cordões de ouro -, e em seguida o outro pé, para se ver ainda melhor; e já não pôde deter-se, o seu corpo baqueou contra a própria imagem, um choque de que n5o ficou nem a imagem nem o corpo.
Mas voltou à superfície. Procurava salvar-se... as mãos... as bolhas... o afogamento... voltara a ser a mulata que lutava pelo inalcançável... a margem... agora o inalcançável era a margem...

Duas imensas angústias...
E foi o que fechou por último, as imensas angústias dos seus olhos a verem cada vez mais longe a margem do pequeno lago, desde então chamado o “Espelho de Lida Sal”.
Quando chove e há luar, o seu cadáver flutua. Viram-no as rochas. Viram-no os salgueiros que choram folhas e reflexos. Os veados e os coelhos viram-no. As toupeiras telegrafam a noticia de que a viram, com a palpitação dos seus coraçõezinhos de terra, antes de volverem às suas escuridões.
Redes de chuva de prata pestanejante arrancam a sua imagem do espelho e passeiam-na vestido de Perfectante pela superfície da água, que a sonha, luminosa e ausente.