sábado, 12 de setembro de 2015

64 – A mulher no espelho – V. Wolf

“A mulher no espelho” da escritora inglesa Virginia Wolf (1882-1941), uma das maiores escritoras do século XX. Neste conto ela nos leva a penetrar nas imagens refletidas no espelho, desvendando gradualmente detalhes da personalidade real de Isabella. Um conto especial e uma obra de arte.
A mulher no espelho
Virginia Wolf
Tradução Hélio Pólvora

As pessoas não deviam deixar espelhos pendurados nas salas, nem talonários de cheques abertos ou cartas confessando algum crime odioso. Impossível as pessoas deixarem de se olhar, naquela tarde de verão, no longo espelho que pendia no salão. O acaso o pusera ali. Das profundezas do sofá na sala de visitas a pessoa via refletida no espelho italiano não somente a mesa de tampo de mármore em frente, como também um pedaço do jardim. Via-se um longo caminho relvado avançando entre barreiras de flores altas, até que, formando um ângulo, a borda dourada do espelho o suprimia.
A casa estava vazia, e a pessoa se sentiria, se fosse a única na sala de visitas, como um daqueles naturalistas que, recoberto de ervas e de folhas, fica observando as mais tímidas das criaturas - texugos, lontras, martins-pescadores - andarem à vontade, também eles invisíveis. Naquela tarde a sala estava cheia desses animais assustadiços, de luzes e de sombras, cortinas enfunadas, pétalas caindo - coisas que nunca aconteciam, ao que parece, se alguém estivesse olhando. A tranquila sala do velho lar com seus tapetes e chaminé de pedra, suas estantes baixas e armários laqueados de vermelho e de dourado, enchia-se de tais criaturas noturnas. Elas chegavam piruetando no chão, pisando macio com os pés altos, e esses pormenores, mais as caudas desdobradas e os famintos bicos alusivos, os assemelhavam a um grupo de elefantes ou bando de flamingos cuja cor vermelho-pálida houvesse desbotado, ou de perus cujas caudas estivessem cobertas de prata. Havia também obscuros rubores e sombreamentos, como se uma tivesse de repente banhado o ar de púrpura; e as paixões, ódios, invejas e tristezas avançavam sobre a sala e a envolviam como um ser humano. Nada permaneceu igual durante dois segundos.
No entanto, de fora, o espelho refletia a mesa do salão, os girassóis, as flores batidas de sol, o caminho do jardim, de forma tão exata e tão estável que eles pareciam presos à sua realidade inescapável. O contraste era estranho - aqui, tudo em mutação, lá tudo em calmaria. Impossível deixar de olhar de um para o outro.
Nesse ínterim, estando as portas e janelas todas abertas por causa do calor, ouvia-se um perpétuo som de suspiro e suspensão, a voz do transitório e do perecível, parece, indo e vindo semelhante à respiração humana, enquanto no espelho as coisas haviam cessado de respirar e quietas jaziam no transe da imortalidade.
Meia hora atrás a dona da casa, Isabella Tyson, descera o caminho relvado, num leve vestido de verão, levando um cesto, e desaparecera, suprimida pela moldura dourada do espelho. Provavelmente fora para a parte baixa do jardim colher flores; ou, como parecia mais natural supor, colher alguma coisa leve e fantástica e folhada e trepadora, a clematite, ou um desses elegantes ramos de convólvulus (da família das magnólias) que serpeiam em feias paredes e irrompem aqui e ali em florações brancas e violetas. Ela recomendava o convólvulus fantástico e trêmulo em vez da áster vertical, da zínia rija ou de suas próprias rosas ardentes acesas como lâmpadas nas estacas verticais das roseiras. A comparação mostrava o pouco que se sabia a seu respeito, depois de tantos anos; pois é impossível que uma mulher de carne e osso, de 55 ou 60 anos, fosse realmente uma grinalda ou uma gavinha. Tais comparações são muito sem sentido e superficiais - até cruéis, pois que chegam, como os convólvulus, tremendo entre os olhos de alguém e a verdade. Deve haver verdade; deve haver um muro. Contudo, era estranho que, após conhecê-la durante aqueles anos todos, não se pudesse dizer qual a verdade acerca de Isabella; ainda eram formuladas frases como aquela sobre o convólvulus e a clematite (também da família das magnólias). Quanto aos fatos, ela era solteira; rica; comprara a casa e acumulara pelas próprias mãos - muitas vezes nos cantos mais ignotos do mundo e correndo grande risco de picadas venenosas e doenças orientais - os tapetes, as cadeiras, os armários que agora viviam sua vida noturna perante o olhar de qualquer um. Às vezes parecia que eles sabiam mais a respeito de Isabella do que nós, que neles sentávamos, neles escrevíamos, neles andávamos com muito cuidado, viríamos a saber. Em cada um daqueles armários havia muitas gavetas pequenas, e todas, quase com certeza tinham cartas atadas com laços de fitas, perfumadas com ramos de lavanda ou pétalas de rosa. Pois também era outro fato - se fatos era o que se pedia - que Isabella conhecera muita gente, tivera muitos amigos; e portanto, se alguém por audácia abrisse uma gaveta e lesse suas cartas, encontraria sinais de conflitos, de encontros marcados, de censuras pelos desencontros, longas cartas de intimidade e afeto, cartas violentas de ciúme e reprovação, terríveis palavras finais e de separação - pois todas aquelas entrevistas e encontros amorosos a nada levaram - ou seja, ela jamais casou, e no entanto, a julgar por uma indiferença em seu rosto, semelhante a uma máscara, ela passara 20 vezes mais pela paixão e pela experiência amorosa do que aqueles amores apregoados para que o mundo primeiro ouvisse. Sob a pressão dos pensamentos acerca de Isabella, a sala tornou-se mais escura e mais simbólica; os cantos pareciam ainda mais sombrios, as pernas das cadeiras e mesas mais delgadas e hieroglíficas.
De súbito, esses reflexos findaram violentamente e sem um som sequer. Uma grande forma preta assomou no espelho; borrou tudo, derramou na mesa um pacote de placas de mármore de veios róseos e cinzentos, e desapareceu. Mas o quadro ficou completamente alterado. Por um instante ele esteve irreconhecível, irracional e totalmente fora de foco. Não se podia relacionar aquelas placas a algum propósito humano. E, aos poucos, algum processo lógico se pôs a atuar sobre eles, começou a ordená-los e arranjá-los e os trouxe ao redil da experiência comum. Verificou-se afinal que não passavam de cartas. O agente trouxera a correspondência.
Lá ficaram, na mesa de tampo de mármore, todas cheias de luz e de cor, a princípio ostensivas e impermeáveis. Depois, causou estranheza ver que as cartas eram estendidas e dispostas, e juntas faziam parte do quadro, adquirindo aquela serenidade e imortalidade concedidas pelo espelho. Lá estavam, investidas de uma nova realidade e significação, e também de maior peso, como se fosse necessária uma formação para destacá-las da superfície da mesa. E, fantasia ou não, pareciam ter se transformado não apenas num punhado de cartas ocasionais, mas em chapas gravadas com a verdade eterna - se fosse possível lê-las saber-se-ia tudo que houvesse saber acerca de Isabella, sim, e da vida também. Os papéis dentro dos envelopes semelhantes a mármore deviam estar pejados de significados. Isabella entraria, pegaria as cartas uma a uma, bem devagar, abriria e leria cada uma com cuidado e palavra após palavra, e em seguida, soltando um profundo suspiro de compreensão, como se houvera estado no fundo de tudo, Isabella rasgaria os envelopes em pedacinhos e ataria as cartas e fecharia a gaveta do armário, disposta que estava a esconder o que não queria que fosse descoberto.
O pensamento serviu como um desafio. Isabella não desejava ser conhecida - mas agora não podia escapar. Um absurdo, uma monstruosidade. Se ela ocultava tanto e sabia de tanta coisa, devia-se nesse caso forçá-la a arrombar a gaveta com o primeiro instrumento à mão. Devia-se fixar a mente em Isabella naquele exato instante. Devia-se pressioná-la. Devia-se recusar que continuassem a nos dissuadir com ditos e feitos, tais como o momento produzia - com jantares e visitas e conversas polidas. Devia-se tentar calçar os sapatos dela. Tomada a frase em seu sentido literal, era fácil ver os sapatos que ela calçava, no jardim de baixo, naquele momento. Eram muito estreitos, compridos e estavam na moda - feitos com o mais macio e o mais flexível dos couros. A exemplo de tudo o que ela usava, os sapatos eram finos. E ela estaria em pé, embaixo da sebe alta, na parte inferior do jardim, levantando a tesoura atada ao punho para cortar uma flor morta, um ramo excedente. O sol lhe banharia o rosto, os olhos; mas não, no momento crítico a mantilha de uma nuvem cobriu o sol, tornando duvidosa a expressão dos olhos dela - zombeteira ou meiga, vivaz ou embotada? Apenas se distinguia o esboço indeterminado de rosto belo um tanto pálido e que fitava o céu. Ela pensava, talvez, em encomendar uma rede nova para os morangos; que devia mandar flores à viúva de Johnson; que era tempo de sair de carro para ver os Hippesley em sua nova casa. Seguramente eram estas as coisas de que ela falava ao jantar. Mas já estavam cansados das coisas de que ela falava ao jantar. Queriam descobrir o seu mais profundo estado de ser e transformá-lo em palavras, o estado que é para a mente o que a respiração é para o corpo, o que se chama felicidade ou infelicidade. À menção dessa palavra, tornou-se óbvio, certamente, que Isabella devia ser feliz. Era rica; era bem relacionada; tinha muitos amigos, viajava - comprava tapetes na Turquia e cântaros azuis no Irã. Caminhos de prazer abriam-se nesta e naquela direção, a partir de onde ela estivesse com a tesoura erguida para cortar os ramos trêmulos enquanto nuvens rendadas lhe velavam a face.
 Com um rápido movimento da tesoura ela decepou o ramo da clematite, que caiu no chão. Ao cair, seguramente uma luz entrou também, seguramente se pôde penetrar um pouco mais no seu ser. O espírito de Isabella estava cheio de ternura e remorso... Cortar um ramo enorme entristeceu-a porque ele havia vivido, e a vida lhe era cara. Sim, e ao mesmo tempo a queda do ramo lhe sugeria como morrer, e toda a futilidade e evanescência das coisas. E, outra vez recolhendo este pensamento, com seu bom senso instantâneo, ela pensou que a vida a tratara bem; se tivesse de cair, era para ficar na terra e docemente fertilizar as raízes das violetas. Continuou a pensar desse modo. Sem formar um pensamento preciso - por ser uma dessas pessoas reticentes mantinha os pensamentos enredados em nuvens de silêncio -, ela estava cheia de pensamentos. O espírito de Isabella assemelhava-se a sua sala onde luzes avançavam e recuavam, chegavam com piruetas e pisavam macio, desdobravam as canelas e ficavam; e todo o ser de Isabella foi coberto, como a sala novamente, por uma nuvem de algum conhecimento profundo, algum remorso não mencionado, e ela encheu-se de gavetas fechadas, entupidas de cartas, tal e qual seus armários. Falar em 'arrombá-la' como se ela fosse uma ostra, utilizar apenas o mais belo e mais sutil e mais dócil dos instrumentos contra ela era uma impiedade, um absurdo. Devia-se imaginar - ei-la no espelho. Causou sobressalto.
A princípio ela estava tão longe que não se podia vê-la com clareza. Veio andando vacilante, endireitando uma rosa aqui, ali, levantando um cravo, para cheirá-lo, mas sem parar; e enquanto isso ela se tornava maior, cada vez maior no espelho, cada vez mais a pessoa em cuja mente se tentava entrar. Isabella era examinada aos poucos - ajustando-se às qualidades descobertas neste corpo visível. Havia o vestido verde- acinzentado, os sapatos de bico fino, o cesto e alguma coisa cintilante na sua garganta. Ela se aproximou tão gradualmente que não pareceu desarranjar o contorno no vidro, mas somente trazer um novo elemento que se movia de leve e alterava os outros objetos, como quem pede cortesmente espaço para Isabella. E as cartas e a mesa e o caminho relvado e os girassóis à espera no espelho separaram-se e abriram-se de modo a que ela pudesse ser recebida entre eles. Afinal, ei-la ali, no salão. Deteve-se. Ela parou em pé junto à mesa. Ela parou completamente imóvel. De imediato o espelho começou a verter sobre ela uma luz que parecia pregá-la; que parecia um ácido que corrói o não-essencial e o superficial e deixa apenas a verdade. Era um espetáculo encantador. Tudo imanava de Isabella - nuvens, vestidos, cesto, diamante -, tudo o que fora chamado de planta rasteira e convólvulus. Eis a dura parede embaixo. Eis a própria mulher. Ela se erguia nua naquela luz impiedosa. E nada havia. Isabella estava completamente vazia. Não tinha pensamentos. Não tinha amigos. Não cuidava de ninguém. Quanto às cartas, eram todas contas. E enquanto ali estava, velha e angulosa, jaspeada e coberta de rugas, com o seu nariz arrebitado e o pescoço vincado, ela sequer se deu ao trabalho de abri-las.

As pessoas não deviam pendurar espelhos nas suas salas.

sábado, 5 de setembro de 2015

63 – Urubus sem penas – J. R. Rybeiro


Julio Ramon Rybeiro (1928-994 ), escritor peruano, é um dos maiores contistas latino-americanos, muito embora seja relativamente desconhecido no Brasil. Seus contos – e “Urubu sem penas” é um dos melhores exemplos – tem a mesma força e dimensão social dos melhores textos de Graciliano Ramos. Recomendo muito sua leitura. Ele descreve homens e meninos que vivem em meio ao lixo, tão distantes – e tão iguais a nós – como os refugiados sírios.  
Urubus sem penas
Julio Ramón Ribeyro

Às seis da manhã a cidade se levanta na ponta dos pés e começa a dar os primeiros passos. Uma fina névoa dissolve o perfil dos objetos e cria como que uma atmosfera encantada. As pessoas que percorrem a cidade a essa hora parecem ser feitas de outra substância, parecem pertencer a um tipo de vida fantasmagórica. As beatas arrastam-se penosamente até desaparecer nos pórticos das igrejas. Os notívagos, macerados pela noite, voltam para casa envoltos em cachecóis e melancolia. Os lixeiros iniciam seu passeio sinistro pela avenida Pardo, armados de vassouras e carrinhos. A essa hora também se veem operários caminhando para o bonde, policiais encostados nas árvores, bocejando, jornaleiros roxos de frio, empregadas tirando as latas de lixo. Por fim, como que atendendo a um misterioso chamado, surgem os urubus sem penas.
Então o velho sr. Santos coloca a perna de pau e, sentando-se no colchão, começa aberrar:
- Vamos levantar! Efraín, Enrique! Esta na hora!
Os dois rapazes correm para o córrego do quintal esfregando os olhos remelentos. Na tranquilidade da noite, a água aquietou-se e no fundo transparente se veem ervas crescendo e ágeis larvinhas que flutuam. Depois de enxaguar o rosto, cada um pega sua lata e se manda para a rua. Seu Santos, enquanto isso, se aproxima do chiqueiro e com uma longa vara golpeia o lombo do porco que se espoja em meio aos detritos.
- Ainda falta um pouco, seu desgraçado! Mas pode esperar, que a sua vez já vai chegar.
Efraín e Enrique se demoram no caminho, trepando nas árvores para apanhar amoras ou catando pedras, daquelas afiadas que cortam o ar e ferem pelas costas. Ainda de madrugada chegam a seu domínio, uma longa rua adornada de casas elegantes que desemboca no cais.
Eles não são os únicos. Em outros quintais, em outros subúrbios, alguém deu o sinal de alarme e muitos se levantaram. Uns levam latas, outros caixas de papelão, às vezes um jornal velho é suficiente. Sem se conhecerem formam uma espécie de organização clandestina espalhada por toda a cidade. Alguns deles vão bisbilhotar nos edifícios públicos; outros escolheram os parques ou as lixeiras. Até os cachorros adquiriram seus hábitos, seus itinerários, sabiamente arregimentados pela miséria.
Efraín e Enrique, após um breve descanso, começam o trabalho. Cada um escolhe uma calçada da rua. As lixeiras estão alinhadas diante das portas. É preciso esvaziá-las integralmente e aí começar a exploração. Uma lixeira é sempre uma caixa de surpresas. Encontram-se latas de sardinhas, sapatos velhos, pedaços de pão, ratazanas mortas, algodoes imundos. A eles só interessam os restos de comida. No fundo do chiqueiro Pascual recebe qualquer coisa, e tem predileção pelas verduras ligeiramente decompostas. A latinha de cada um vai se enchendo de tomates podres, pedaços de banha, estranhos molhos que não figuram em nenhum manual de cozinha. No entanto, não é raro um achado valioso. Um dia Efraín encontrou uns suspensórios com os quais fabricou um estilingue. Outra vez, uma pera quase boa que devorou no ato. Enrique, em compensação, tem sorte com caixinhas de remédios, frascos brilhantes, escovas de dentes usadas e outras coisas semelhantes que coleciona com avidez.
Após uma rigorosa seleção, devolvem o lixo ao latão e se lançam sobre o próximo. Não convém demorar demais, pois o inimigo está sempre à espreita. As vezes são surpreendidos pelas empregadas e tem que fugir, deixando sua presa espalhada. Mas com maior frequência, é o caminhão do Serviço Sanitário que aparece, e então a jornada esta perdida.
Quando o sol desponta sobre as colinas, a madrugada chega ao fim. A névoa se dissolveu, as beatas estão submersas no êxtase, os notívagos dormem, os jornaleiros distribuíram os jornais, os operários sobem nos andaimes. A luz desvanece o mundo mágico da aurora. Os urubus sem penas regressaram ao ninho.
*
Seu Santos esperava-os com o café preparado.
– Vamos ver, o que trouxeram para mim?
Farejava entre as latas, e se a provisão fosse boa, fazia sempre o mesmo comentário:
– Hoje o Pascual vai ter um banquete.
Mas na maioria das vezes estourava:
– Idiotas! O que fizeram hoje? Com certeza ficaram brincando! O Pascual vai morrer de fome!
Eles fugiam para a parreira, com as orelhas ardendo dos beliscões, enquanto o velho se arrastava até o chiqueiro. Do fundo de seu reduto, o porco começava a grunhir. Seu Santos atirava-lhe a comida.
– Meu pobre Pascual! Hoje vai passar fome por culpa des­ses bocós. Eles não te paparicam como eu. Só aprendem com uma boa surra!
*
– Quando o inverno começou, o porco tinha se transformado numa espécie de monstro insaciável. Tudo lhe parecia pouco, e seu Santos descontava nos netos a fome do bicho. Obrigava-os a se levantar mais cedo e invadir terrenos alheios em busca de mais restos de comida. Por fim, forçou-os a se dirigir até o lixão que ficava à beira-mar.
– La, vocês vão achar mais coisas. Vai ser mais fácil, até porque está tudo junto.
Um domingo, Efraín e Enrique chegaram até o barranco. Os caminhões do Serviço Sanitário, seguindo um rastro na terra, descarregavam o lixo numa encosta de pedras. Visto da beira do cais, o lixão formava uma espécie de escarpa escura e fumegante, onde os urubus e cachorros se mexiam feito formigas. De longe, os meninos atiraram pedras para espantar os inimigos. Um cachorro saiu ganindo. Quando chegaram perto, sentiram um cheiro nauseabundo que penetrou até seus pulmões. Os pés afundavam num monte de penas, excrementos, matérias decompostas ou queimadas. Enfiando as mãos, começaram a exploração. Às vezes, sob um jornal amarelado, descobriam uma carniça meio devorada. Nas escarpas próximas, os urubus espiavam, impacientes, e alguns se aproximavam, pulando de pedra em pedra, como se quisessem deixa-los encurralados. Efraím gritava para assustá-los, e os gritos ressoavam no desfiladeiro, fazendo pedregulhos se soltarem e rolarem até o mar. Depois de uma hora de trabalho, voltaram ao quintal com as latas cheias.
– Bravo! – exclamou seu Santos. –  Vamos ter que repetir isto duas ou três vezes por semana.
Desde então, as quartas-feiras e aos domingos, Efraín e Enrique faziam o percurso até o lixão. Logo passaram a fazer parte da estranha fauna desses lugares, e os urubus, acostumados com a presença deles, trabalhavam a seu lado, grasnando, batendo as asas, cavoucando com seus bicos amarelos, como que ajudando a descobrir a pista da preciosa sujeira
Foi voltando de uma dessas excursões que Efraín sentiu uma dor na planta do pé Um caco de vidro lhe causara uma pequena ferida. No dia seguinte estava com o pé inchado; apesar disso, prosseguiu em seu trabalho. Quando voltaram, quase não conseguia andar, mas seu Santos não percebeu, pois estava com visitas. Acompanhado de um homem gordo, com as mãos manchadas de sangue, ele observava o chiqueiro.
– Voltarei dentro de vinte ou trinta dias – dizia o homem. – Acho que ele poderá estar no ponto por volta dessa data.
Quando ele foi embora, seu Santos soltava fogo pelos olhos.
– Vamos trabalhar! Vamos trabalhar! De agora em diante teremos que aumentar a ração do Pascual! O negócio está nos trilhos.
Na manhã seguinte, porém, quando seu Santos acordou os netos, Efraín não conseguiu se levantar.
– Tem uma ferida no pé – explicou Enrique. – Ele se cortou ontem, com um caco de vidro.
Seu Santos examinou o pé do neto. A infecção tinha começado.
– Isso é conversa fiada! Vai lavar o pé no córrego e enrola num trapo.
– Mas esta doendo! – interveio Enrique. – Ele não consegue andar direito.
Seu Santos pensou por um momento. Do chiqueiro vinham os grunhidos de Pascual.
– E eu? – perguntou, dando uma palmada na perna de pau. Por acaso minha perna não dói? E eu tenho setenta anos e continuo trabalhando... Vamos parar com essa manhã!
Efraín saiu para a rua com sua lata, apoiado no ombro do irmão. Meia hora depois, voltaram com as latas vazias.
– Não conseguia mais! - disse Enrique ao avô. - O Efraín está meio manco.
Seu Santos observou os netos como se tramasse uma sentença.
– Está bem, está bem – disse, coçando a barba rala e, pegando Efraín pelo pescoço, arrastou-o para o quarto. – Doentes, para a cama! Até apodrecer no colchão! E você vai fazer a tarefa do seu irmão. Vai para o lixão agora mesmo!
*
Perto do meio-dia, Enrique voltou com as latas repletas. Seguia-o um estranho visitante: um cachorro esquálido e meio sarnento.
– Encontrei no lixão – explicou Enrique – e ele veio me seguindo.
– Seu Santos pegou a vara.
– Mais uma boca no quintal!
Enrique ergueu o cachorro contra o peito e fugiu na direção da porta.
– Não faz nada com ele, vovô! Eu vou dar da minha comida pra ele.
Seu Santos aproximou-se, afundando a perna de pau na lama.
– Nada de cachorros aqui! Já bastam vocês!
Enrique abriu a porta da rua.
– Se ele for embora, eu também vou.
O avô se deteve. Enrique aproveitou para insistir:
– Ele não come quase nada..., olha como esta magro. Além disso, ja que o Efraín está doente, ele pode me ajudar. Conhece bem o lixão e tem bom faro para o lixo.
Seu Santos refletiu, olhando para o céu, onde a garoa se condensava. Sem dizer nada, soltou a vara, apanhou as latas e saiu mancando até o chiqueiro.
Enrique sorriu de alegria e, com o amigo apertado contra o coração, correu para onde estava o irmão.
– Pascual, Pascual!... Pascualito! – cantava o avô.
Você vai se chamar Pedro – disse Enrique, acariciando a cabeça do cachorro, e voltou para perto de Efraín.
Sua alegria desapareceu: empapado de suor, Efraín se retorcia de dor sobre o colchão. Tinha o pé inchado, como se fosse de borracha e estivesse cheio de ar. Os dedos tinham quase perdido a forma.
– Trouxe um presente para você, olha – disse a ele, mostrando o cachorro. – O nome dele é Pedro, é para você, para te fazer companhia... Quando eu for no deposito, vou deixar ele com você, e vocês dois vão poder brincar o dia inteiro. Você vai ensinar ele a trazer pedras na boca.
– E o vovô? – perguntou Efraín, estendendo a mão para o animal.
– O vovô não disse nada – suspirou Enrique.
Os dois olharam para a porta. A garoa tinha começado a cair. A voz do avó chegava:
Pascual, Pascual... Pascualito!
*
Aquela noite era de lua cheia. Ambos os netos se inquietaram, porque em época de lua cheia o avô ficava intratável. Desde o entardecer viram-no rondando o quintal, falando sozinho, dando varadas na parreira. Às vezes se aproximava do quarto, dava uma olhada no interior, e ao ver os netos em silêncio, lançava uma cusparada carregada de rancor. Pedro tinha medo dele, e cada vez que o via, ficava encolhido e imóvel feito uma pedra.
– Porcaria, só porcaria! – repetiu o avô a noite toda, olhando para a lua.
Na manha seguinte, Enrique amanheceu resfriado. O velho, que o escutou espirrar de madrugada, não disse nada. No fundo, porém, pressentia uma catástrofe. Se Enrique adoecesse, quem cuidaria de Pascual? A voracidade do porco crescia com a gordura. Grunhia de tarde com o focinho enterrado na lama. Vieram reclamar lá do quintal do Nemesio, que morava a um quarteirão.
No segundo dia aconteceu o inevitável: Enrique não conseguiu se levantar. Tinha tossido a noite toda, e a manha o surpreendeu trêmulo, ardendo em febre.
– Você também? - perguntou o avô.
Enrique mostrou o peito, que chiava. O avô saiu do quarto, furioso. Cinco minutos depois, voltou.
– É muito feio me enganar desse jeito! – queixava-se. – Vocês abusam de mim porque não posso andar. Sabem muito bem que sou velho e manco. Se não fosse isso, mandaria os dois para o diabo e cuidaria sozinho do Pascual!
Efraín acordou reclamando e Enrique começou a tossir.
– Mas não importa! Eu vou me encarregar dele. Vocês são lixo, não passam de lixo! Uns coitados de uns urubus sem penas! Já vão ver como faço melhor que vocês. Este avô ainda está forte. Só que hoje não vai ter comida para vocês! Não vai ter comida até que consigam levantar e trabalhar!
Através da porta, viram-no levantar as latas cambaleando e se virar para a rua. Voltou meia hora depois, arrasado. Sem a agilidade dos netos, tinha sido alcançado pelo caminhão da vigilância sanitária. Além disso, os cachorros quiseram morde-lo.
– Pedaços de porcaria! Já sabem, vão ficar sem comida até que trabalhem!
No dia seguinte tentou repetir a operação, mas teve que renunciar. Sua perna de pau tinha perdido o costume das pistas de asfalto, das calçadas duras, e cada passo que dava era como uma fisgada na virilha. No amanhecer do terceiro dia, ficou jogado no colchão, sem animo para nada, a não ser para o xingamento.
– Se ele morrer de fome – gritava – a culpa vai ser de vocês!
*
A partir de então, começaram dias angustiantes, intermináveis. Os três passavam as horas trancados no quarto, sem falar, padecendo um tipo de reclusão forçada. Efraín se remexia sem trégua. Enrique tossia, Pedro se levantava e, depois de dar uma volta pelo quintal, voltava com uma pedra na boca, que depositava na mão dos donos. Seu Santos, meio deitado, brincava com a perna de pau e lançava olhares ferozes na direção deles. Ao meio-dia, arrastava-se até o canto do terreno onde cresciam os legumes e preparava o almoço, que devorava em segredo. Às vezes, jogava uma ou outra alface ou cenoura crua na cama dos netos, com o proposito de excitar o apetite deles e tornar o castigo mais requintado.
Efraín já não tinha forças nem para reclamar. Só Enrique sentia crescer no coração um medo estranho, e quando olhava nos olhos do avô, parecia desconhecê-los, como se tivessem perdido a expressão humana. À noite, quando a lua subia, pegava Pedro nos braços e o apertava meigamente, até faze-lo gemer. Nessa hora, o porco começava a grunhir, e o avô se queixava como se estivesse sendo enforcado. Às vezes ajustava a perna de pau e saía para o quintal. À luz do luar, Enrique o observava ir dez vezes do chiqueiro até a horta, erguendo os punhos, atropelando o que achasse pelo caminho. Por fim, entrava de novo no quarto e ficava olhando fixo para eles, como se quisesse responsabiliza-los pela fome de Pascual.
*
Na ultima noite de lua cheia ninguém conseguiu dormir. Pas­cual soltava verdadeiros rugidos. Enrique tinha ouvido dizer que os porcos, quando tinham fome, enlouqueciam feito os homens. O avô permaneceu em claro, sem desligar sequer o lampião. Desta vez não saiu para o quintal nem amaldiçoou entredentes. Submerso no colchão, fitava a porta. Parecia remoer dentro de si uma cólera muito antiga, brincar com ela, preparando-a para o disparo. Quando o céu começou a desbotar sobre as colinas, abriu a boca, manteve a escura cavidade voltada para os netos e lançou um rugido
De pé, de pé, de pé! – começaram a chover golpes –  Levantem, vagabundos! Até quando vamos ficar assim? Acabou! De pé!...
Efraín desandou a chorar. Enrique se levantou, segurando-se na parede. Os olhos do avô pareciam fascina-lo a ponto de torna-lo insensível aos golpes. Olhava a vara se erguer e se abater sobre sua cabeça como se fosse uma vara de papelão. Por fim conseguiu reagir.
– Não Efraín não! A culpa não e dele! Me deixe sozinho, eu vou sair, vou até o lixão!
O avô se conteve, arfante. Demorou muito a recuperar o fôlego.
– Agora mesmo... para o lixão... leva duas latas, quatro latas...
Enrique afastou-se, pegou as latas e foi embora correndo.
A fadiga da fome e da convalescença faziam-no cambalear. Quando abriu o portão do quintal, Pedro quis segui-lo.
– Você, não. Fica aqui, cuidando do Efraín.
E se mandou para a rua, respirando a plenos pulmões o ar da manhã. Pelo caminho comeu ervas, esteve a ponto de mastigar terra. Via tudo através de uma névoa magica. A fraqueza tornava-o leve, etéreo: quase voava como um pássaro. No aterro, sentiu-se mais um urubu entre os urubus. Quando as latas começaram a transbordar, empreendeu a volta. As beatas, os notívagos, os jornaleiros descalços, todas as secreções da madrugada começavam a se dispersar pela cidade. Enri­que, devolvido a seu mundo, caminhava feliz entre eles, em meio aos cachorros e fantasmas, tocado pela hora do dia
Ao entrar no quintal, sentiu um ar opressivo, resistente, que o obrigou a parar. Era como se ali, na soleira da porta, terminasse um mundo e começasse outro, fabricado de lama, rugidos, absurdas penitências. O surpreendente, porém, era que desta vez reinava no quintal uma calma carregada de maus presságios, como se toda a violência estivesse em equilíbrio, a ponto de desabar. O avô, de pé na beira do chiqueiro, olhava para o fundo. Parecia uma arvore crescendo a partir da perna de pau. Enrique fez barulho, mas o avô não se mexeu.
– Aqui estão as latas!
Seu Santos deu as costas e ficou imóvel. Enrique soltou as latas e correu intrigado até o quarto. Assim que o viu, Efraín começou a gemer:
– O Pedro... O Pedro...
– Que foi?
– Pedro mordeu o vovô... o vovô pegou a vara... depois percebi que ele estava uivando.
Enrique saiu do quarto.
– Pedro, vem cá! Cadê você, Pedro?
Ninguém respondeu. O avô continuava imóvel, com o olhar na parede. Enrique teve um mau pressentimento. Num pulo, chegou perto do velho.
– Cadê o Pedro?
O olhar dele desceu até o chiqueiro. Pascual devorava algo na lama. Ainda restavam as pernas e o rabo do cachorro.
– Não! – gritou Enrique, tapando os olhos. – Não, não! – e através das lágrimas procurou o olhar do avô. Este o evitou girando desajeitado sobre a perna de pau. Enrique começou a dançar em volta do avô, agarrando a camisa dele, gritando, esperneando, tentando olhar nos olhos dele, encontrar uma resposta.
– Por que você fez isso? Por quê?
O avô não respondia. Por fim, impaciente, deu um empurrão no neto que o fez rolar por terra. De lá, Enrique observou o velho que, erguido como um gigante, observava com obstinação o festim de Pascual. Estendeu a mão e encontrou a vara com a ponta manchada de sangue. Com ela, levantou-se na ponta dos pés e se aproximou do velho.
– Vira pra cá! - gritou. - Vira!
Quando seu Santos se virou, viu a vara cortando o ar e estalando contra sua bochecha.
– Toma! – berrou Enrique, e levantou novamente a mão. Mas de súbito se deteve, temeroso do que fazia e, jogando a vara para o lado, olhou para o avô, quase arrependido. O velho, segurando o rosto, recuou um passo, a perna de pau tocou em terra úmida, ele escorregou e, aos gritos, precipitou- se de costas no chiqueiro.
Enrique recuou uns passos. Primeiro apurou os ouvidos, mas não ouvia barulho algum. Aos poucos foi chegando perto. Estava com a boca aberta e seus olhos procuravam Pascual, que havia se refugiado num canto e fuçava no lodo de maneira suspeita.
Enrique foi se afastando, com o mesmo sigilo com que se aproximara. Provavelmente o avô chegou a divisá-lo, pois enquanto corria para o quarto, pareceu-lhe que o chamava pelo nome, num tom de ternura que nunca havia escutado.
– Aqui, Enrique, aqui!...
– Rápido! – exclamou Enrique, precipitando-se sobre o irmão. – Rápido, Efraín! O velho caiu no chiqueiro! Temos que ir embora!
– Pra onde? - perguntou Efraín.
– Pra onde for, para o lixão, onde a gente possa comer alguma coisa, onde estão os urubus!
– Não consigo ficar de pé!
Enrique pegou o irmão com as duas mãos, estreitando-o contra o peito. Abraçados até formar uma única pessoa, atravessaram lentamente o quintal. Quando abriram o portão da rua perceberam que a madrugada terminara e que a cidade, acordada e viva, abria sua gigantesca mandíbula diante deles.
Do chiqueiro vinha o rumor de uma batalha.
Paris, 1954