sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

81 – O Analista de Bagé – L. F. Veríssimo

Luís Fernando Veríssimo (1936- ) , escritor brasileiro nascido em Porto Alegre, um dos maiores contistas brasileiros, criador de personagens memoráveis como o Analista de Bagé, A Velhinha de Taubaté e Ed Mort.
O analista de Bagé
Luis Fernando Veríssimo

Bagé
Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
― Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
― O senhor quer que eu deite logo no divã?
― Bom, se o amigo quiser dançar uma marca antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
― Certo, certo. Eu...
― Aceita um mate?
― Um quê? Ah, não. Obrigado.
― Pos desembucha.
― Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
― Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
― Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
― Outro...
― Outro?
― Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
― E o senhor acha...
― Eu acho uma poca vergonha.
― Mas...
― Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé.
Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
― Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
― Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
― Bem ― disse o homem ―,é que nós tivemos um desentendimento...
― Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
― Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
― Não fala comigo!
― Mas essa alta mais nervosa que gato em dia de faxina.
― Ela tem um problema de carência afetiva...
― Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
― Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e...
― Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
― Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
― Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?
― O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
― Mas isto tá ficando mais enrolado que linguiça de venda. Te deita no pelego.
― Eu?
― Ela. Tu espera na salinha.

Finitude
Existem muitas histórias sobre o analista de Bagé, mas não sei se todas são verdadeiras. Seus métodos são certamente pouco ortodoxos, embora ele mesmo se descreva como “freudiano barbaridade”. E parece que dão certo, pois sua clientela aumenta. Foi ele que desenvolveu a terapia do joelhaço.
Diz que quando recebe um paciente novo no seu consultório a primeira coisa que o analista de Bagé faz é lhe dar um joelhaço. Em paciente homem, claro, pois em mulher, segundo ele, “só se bate pra descarrega energia”. Depois do joelhaço o paciente é levado, dobrado ao meio, para o divã coberto com um pelego.
― Te abanca, índio velho, que tá incluído no preço.
― Ai ― diz o paciente.
― Toma um mate?
― Nã-não... ― geme o paciente.
― Respira fundo, tchê. Enche o bucho que passa.
O paciente respira fundo. O analista de Bagé pergunta:
― Agora, qual é o causo?
― É depressão, doutor.
O analista de Bagé tira uma palha de trás da orelha e começa a enrolar um cigarro.
― Tô te ouvindo ― diz.
― É uma coisa existencial, entende?
― Continua, no más.
― Começo a pensar, assim, na finitude humana em contraste com o infinito cósmico...
― Mas tu é mais complicado que receita de creme Assis Brasil.
― E então tenho consciência do vazio da existência, da desesperança inerente à condição humana. E isso me angustia.
― Pos vamos dar um jeito nisso agorita ― diz o analista de Bagé, com uma baforada.
― O senhor vai curar a minha angústia?
― Não, vou mudar o mundo. Cortar o mal pela mandioca.
― Mudar o mundo?
― Dou uns telefonemas aí e mudo a condição humana.
― Mas... Isso é impossível!
― Ainda bem que tu reconhece, animal!
― Entendi. O senhor quer dizer que é bobagem se angustiar com o inevitável.
― Bobagem é espirrá na farofa. Isso é burrice e da gorda.
― Mas acontece que eu me angustio. Me dá um aperto na garganta...
― Escuta aqui, tchê. Tu te alimenta bem?
― Me alimento.
― Tem casa com galpão?
― Bem... Apartamento.
― Não é veado?
― Não.
― Tá com os carnê em dia?
― Estou.
― Então, ó bagual. Te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito.
― O Freud não me diria isso.
― O que o Freud diria tu não ia entender mesmo. Ou tu sabe alemão?
― Não.
― Então te fecha. E olha os pés no meu pelego.
― Só sei que estou deprimido e isso é terrível. É pior do que tudo.
Aí o analista de Bagé chega a sua cadeira para perto do divã e pergunta :
― É pior que joelhaço?

Megalomania
Contam que Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé (segundo ele, “mais eficiente que purgante de maná e japonês na roça”), desenvolveu um método para separar os casos graves dos que são só ― como diz o analista de Bagé ― “loucos de faceiros”. Enquanto preenche a ficha, ela dá a cada paciente em potencial uma cuia de chimarrão no formato de um seio. Depois vai anotando: “Quis chupar a cuia em vez da bomba”, “Começou a gemer e acariciar a cuia”, “Atirou contra a parede”, etc. Assim, quando recebe o paciente, o analista de Bagé já sabe o que esperar. Mas nada preparou o analista de Bagé para a entrada no seu consultório do megalômano de Carazinho.
O diálogo entre os dois já começou mal.
― Te deita no divã.
― Não deito.
― Te deita, bagual!
― Não deito!
― E por que não deita?
― Em primeiro lugar, porque só quem mandava em mim era o meu pai, que já está no Grande Galpão do céu capando anjo pra fazer lingüiça. Em segundo lugar, que o analista aqui sou eu.
E com isto o analista de Bagé derrubou o outro com um peitaço e o segurou sobre o pelego do divã com um joelho na omoplata. Gritou:
― Diz qual é teu problema!
― Não digo pra qualquer um!
― Diz senão te arranco esses bigodes dois a dois.
― Todos dizem que eu tenho mania de ser melhor do que os outros, mas eu não acredito neles.
― E por que não?
― Porque é tudo gente inferior.
O analista de Bagé saiu de cima do outro, mas deixou o facão bem à vista, para evitar incomodação. O outro continuou.
― Eu tenho megalomania.
― Não tem ― disse o analista de Bagé, brabo. Sabia que era verdade, mas não aguentava fanfarrão.
― Quer saber mais do que eu?
― Sei mais do que tu, teu irmão, tua mãe e teu pai, se fosse conhecido.
Nisso o megalômano de Carazinho subiu em cima do divã, apontou um dedo para o analista de Bagé e ameaçou:
― Olha que eu te transformo em pedra.
O analista de Bagé abriu a camisa e ofereceu o peito:
― Pois transforma. Quero ver. Transforma!
O outro mudou de tática. Ergueu a mão como numa bênção e disse:
― Eu te perdoo.
Aí o analista de Bagé avançou.
Na sala de espera Lindaura esperou meia hora antes de entrar no consultório.
Tinha ordens do analista de Bagé sobre como agir de acordo com os sons que ouvia. “Resfolego, não liga. Gemido, vai pra casa. Grito, te prepara. Mobília quebrada, entra.” Decidiu entrar. Encontrou o megalômano de Carazinho inconsciente embaixo do divã virado, com só metade do bigode. Depois o analista de Bagé explicou:
― Doença é uma coisa. Convencimento é outra.
O outro era “metido a grancosa”. Mas ele perdera mesmo a paciência quando ouvira o outro dizer:
― Sou o maior megalômano do mundo!
Aparecia cada um.

Duplo
Contam que os métodos pouco ortodoxos do analista de Bagé (embora ele diga que é “mais ortodoxo que caixa de maizena”) têm levado uma multidão de pacientes a procurá-lo. Ele foi obrigado a fazer uma triagem na sua clientela.
Instruiu sua recepcionista Lindaura (“uma chinoca que eu estava criando, mas passou do ponto”) a cortar os complexos menores, inclusive todos os de inferioridade e “os Édipos de ambulatório”. Só aceita casos difíceis, pois, como diz, “cavalo manso é pra ir à missa”. Foi o caso daquele estancieiro rico que já entrou dizendo:
― Meu caso é de esquizofrenia, doutor.
― Oigalê! Já vi que o índio velho é dos que lê bula. Essa palavra eu só aprendi a dizer dois dias antes da formatura. Mas se abanque, no más.
O estancieiro se deitou no divã coberto com um pelego. O analista começou a limpar as unhas do pé com um facão. Falou:
― Quer dizer que o amigo está com esquizofrenia.
― É.
― Da braba?
― Da braba.
― Como se manifesta a bicha?
― Personalidade dupla, doutor. Um dia eu sou um, no outro eu sou outro.
― Sei.
― Um dia sou alegre, bonachão, mão aberta. No outro sou carrancudo, brigão e não abro a mão nem pra espantar mosca.
― Mas que coisa.
― Eu tenho cura, doutor?
― Bueno. Vai ser um tratamento mais comprido que bombacha de gringo.
― Tudo bem.
― Mais caro que argentina nova na zona.
― Não me importo.
― Já vi que o amigo está nos seus dias de cordeirito.
― Lindaura!
― Chamou?
― Prepara a conta que o índio velho aqui vai pagar adiantado.
O estancieiro começou a se levantar para protestar, mas o analista de Bagé o mandou de volta ao pelego com um cabeçaço. E avisou:
― Se conta pro outro, te capo.

Te cuida, tchê
Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé (segundo ele, “uma recepcionista eclética, pois recebe e dá”), faz o possível para preveni-lo sobre os pacientes novos antes de entrarem no consultório, pois, como diz o analista, “se me entra um arreganhado, já recebo a tapa”.
Lindaura deixa um pedacinho de veludo vermelho ao alcance do paciente na sala de espera. Depois escreve na sua ficha: “Não ligou para o veludo” ou “Passou a mão e começou a babar” ou “Botou na frente e foi ver no espelho se ficava bem”. Na ficha daquele cliente novo, de Não-me-toque, ela escrevera: “Viu o pedacinho de veludo e recuou horrorizado.” Era obviamente um paranoico.
― Te deita no divã, tchê ― disse o analista de Bagé.
― Pra quê? ― quis saber o paciente, desconfiado.
― Oigalê bicho bem xucro ― disse o analista com uma risada agradável, enquanto torcia o braço do outro e obrigava-o a se deitar.
O paciente ficou se segurando sobre o pelego que cobria o divã, para evitar que arrancassem sua roupa. O analista sentou no seu banquinho e pegou a cuia. Ofereceu:
― Um mate?
― O que é que você quer dizer com isso?
O analista de Bagé passou a cuia para o outro, que olhou para a ponta da bomba com apreensão.
― Pode tomar que os micróbios são de casa ― disse o analista, mas o paciente devolveu a cuia. O analista continuou:
― Pues, qual é o problema?
― Eu sabia. Já andaram espalhando que eu tenho problema.
― Se o amigo está aqui é porque tem um problema. Já vi que pelo mate não é.
― Pare com esse tom condescendente!
O analista de Bagé fez força para se controlar. Um dia antes perdera a paciência e atirara um masoquista contra a parede. O masoquista não reclamara, mas com o impacto se quebrara o seu Freud entalhado em imbuia. O outro continuou:
― Todo mundo me persegue.
― Não é verdade.
― Ninguém acredita em mim.
― Eu acredito.
― Você só diz isso pra me agradar.
― Eu não estou querendo te agradar.
― Por que não? Por que não?
Meia hora depois o analista de Bagé, com argumentos razoáveis, e com a ameaça de atirar a escarradeira na sua cabeça, convencera o paciente a abandonar sua mania de perseguição. Ninguém o estava perseguindo. Era pura fantasia.
― E o jacaré embaixo da cama?
― Não tem jacaré. Jacaré gosta de banhado. A tua cama fica em lugar seco?
― Fica.
― Pois então.
Ele devia sair dali convencido que ninguém nem nada estava contra ele. Devia se esforçar para levar uma vida normal.
― Não sei se vou conseguir...
― Vai.
― Como é que você sabe?
― Porque eu vou estar sempre atrás de ti, tchê . Te cuidando. De dia e de noite. A menor recaída na paranoia, ó...
E o analista de Bagé fez o gesto de quem acerta um cutelaço na nuca.

Salinha cheia
― Se abanque, no más ― disse o analista de Bagé, indicando o divã.
― Eu, ahn, prefiro ficar de pé ― disse o moço.
― Se abanque, índio velho, que tá incluído no preço.
― Não, obrigado...
― Deita aí! ― disse o analista de Bagé, empurrando o paciente, que caiu de costas no pelego.
O analista de Bagé sentou na sua banqueta e começou a picar fumo para o palheiro. Como o moço não dissesse nada, falou:
― E então? Desembucha.
― É que eu tenho um probleminha...
― Probleminha só pode ser o moleque pequeno.
― “Moleque?”
― A peça. O trabuco. O Oduvaldo.
― Ah. Não, não é isso.
― Então o que é, tchê? Depressa que eu to com a salinha cheia de louco.
― Bem, é que eu...
― O quê?
― Eu desde pequeno tenho este problema de incontinência...
― Incontinência?
― Eu ainda faço xixi na cama...
Nisso o analista pulou e gritou:
― Meu pelego!
E levantou o divã por uma ponta, despejando o paciente no chão.
Outra vez entrou um senhor no consultório, deitou no divã e contou que ultimamente estava se comportando de modo estranho.
― Me aposentei, doutor. E um dia, não sei por quê, me deu vontade de pintar o cabelo de caju.
― Sei ― disse o analista de Bagé, sem tirar a bomba de chimarrão da boca.
― Comecei a usar roupas assim. Camisa aberta até aqui embaixo...
― Tô ouvindo.
― Medalhão no peito...
― Pensei que fosse devoção.
― E me deu esta vontade de só andar com rapazes...
― Sim.
― Me diga, doutor. Eu sou homossexual?
― Não existe gaúcho homossexual.
― Mas a gente vê tantos por aí...
― São as correntes migratórias. Tu não tem nada, índio velho. Precisa é arranjar um passatempo. Colecionar selo. Ou medalhão, pra não perder os que já tem. Vai pra casa e sossega, tchê!
― Se eu fosse homossexual, nem sei o que fazia. Acho que me jogava por essa janela!
Aí o analista de Bagé tapou a janela com o corpo e ameaçou:
― Te fresqueia. Te fresqueia!


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

80 – A loteria – S. Jackson


Shirley Jackson (1916-1965), escritora norte-americana, escreveu e publicou “A Loteria” em 1948 na Revista The New Yorker.  A história narra o que parece ser uma agradável festa comunitária em uma pequena cidade do interior – cheia de simpáticos personagens – mas no final, uma grande surpresa, transforma completamente o conto. A Loteria causou uma reação – medida por cartas à redação – que nenhum outro conto havia provocado até então e se transformou em um conto clássico, presente em qualquer antologia de grandes contos norte-americanos. A versão publicada aqui foi escrita de acordo com o estilo linguístico de Portugal.

A Loteria
Shirley Jackson

A manhã de 27 de Junho estava clara e soalheira, com o fresco calor de um dia de pleno verão; as flores desabrochavam em profusão e a relva estava de um verde opulento. As pessoas da aldeia começaram a juntar-se na praça entre o correio e o banco por volta das dez horas; nalgumas cidades a gente era tanta que a loteria levava dois dias, tendo de começar a 26 de Junho, mas nesta aldeia, onde havia apenas cerca de trezentas pessoas, a loteria levava menos de duas horas, e podia assim começar às dez da manhã e estar acabada a tempo de permitir que as pessoas estivessem de volta a casa à hora de almoço.
As crianças foram as primeiras a juntar-se, claro. A escola tinha acabado ainda há pouco, para as férias de verão, e a sensação de liberdade era ainda um tanto contida na maioria delas; ficaram calmamente em grupo durante um bocado antes de desatarem na turbulência da brincadeira, e as conversas ainda eram sobre as aulas e o professor, sobre os livros e as reprimendas. Bobby Martin já tinha enchido os bolsos de pedras e os outros rapazes seguiram o exemplo, escolhendo as pedras mais macias e redondas; Bobby e Harry Jones e Dickie Delacroix—as pessoas da aldeia pronunciavam “Dellacroy”—fizeram, por fim, um grande monte de pedras num dos cantos da praça e ficaram a guardá-lo contra as investidas dos outros rapazes. As raparigas ficaram à parte a falar umas com as outras e a olhar por cima do ombro para os rapazes, e as crianças mais pequenas rolavam na poeira ou mantinham-se agarrados à mão dos irmãos ou irmãs mais velhos.
Pouco depois, os homens começaram a juntar-se, a observar os filhos, a falar das plantações e da chuva, dos tratores e dos impostos. Ficaram todos juntos, afastados do monte de pedras, num canto, e as suas graças eram calmas fazendo sorrir, mais do que rir. As mulheres, com vestidos ou camisolas desbotados, de trazer por casa, chegaram pouco depois dos homens. Cumprimentavam-se e trocavam bisbilhotices enquanto se dirigiam para o grupo dos homens para se juntarem aos maridos. Pouco depois, já junto dos maridos, começaram a chamar pelos filhos e estes, contrafeitos, acabavam por vir depois de chamados quatro ou cinco vezes. Bobby Martin escapou-se da mão da mãe que o segurava e foi a correr, a rir, para o monte das pedras. O pai falou-lhe asperamente e Bobby voltou muito depressa tomando o seu lugar entre o pai e o irmão mais velho.
A loteria era dirigida—tal como os bailes na praça, o clube dos jovens e o programa do Dia das Bruxas—por Mr. Summers, que tinha tempo e energias para se devotar a atividades cívicas. Era um homem jovial, de cara redonda, e tinha o negócio do carvão, lamentavam-no por não ter filhos e por ter de aturar uma mulher rabugenta. Quando ele chegou à praça com a caixa negra de madeira houve um burburinho geral entre os aldeãos, e ele acenou e disse: «Estou um bocado atrasado, gente.» O chefe dos correios, Mr. Graves, vinha atrás com um banquinho de três pés, que foi colocado no meio da praça. Mr. Summers pôs a caixa em cima do banco. As pessoas da aldeia mantiveram-se à distância, deixando um espaço entre elas e o banco, e quando Mr. Summers perguntou «Alguém me pode dar uma ajuda?», hesitaram até que dois homens, Mr. Martin e o filho mais velho, Baxter, avançaram para segurar a caixa sobre o banco enquanto Mr. Summers baralhava os papeis que se encontravam lá dentro.
A parafernália original da loteria perdera-se há muito tempo e aquela caixa negra que agora ali estava sobre o banco já começara a ser utilizada ainda antes de o velho Warner, o homem mais velho da terra, ter nascido. Mr. Summers dizia muitas vezes que era preciso fazer uma caixa nova, mas ninguém queria alterar a tradição que aquela caixa negra representava. Corria uma estória que dizia que aquela caixa tinha sido construída com bocados da que a precedera, a que fora feita quando as primeiras pessoas que fundaram a aldeia ali se estabeleceram. Todos os anos, após a loteria, Mr. Summers falava outra vez na caixa nova, mas também todos os anos deixavam morrer o assunto sem nada fazer. A caixa negra estava cada ano mais estragada; agora já não era completamente negra; de um dos lados estava toda estalada e deixava ver a cor original da madeira, e noutros sítios estava desbotada ou manchada.
Mr. Martin e o filho mais velho, Baxter, mantiveram a caixa negra bem firme sobre o banco até Mr. Summers acabar de baralhar os papeis com a mão. Como uma grande parte do ritual tinha sido esquecido ou posto de lado, Mr. Summers conseguira que os bocados de madeira usados durante muitas gerações fossem substituídos por pequenos quadrados de papel. Argumentava Mr. Summers que os bocados de madeira serviam muito bem quando a aldeia era muito pequena, mas agora que a população já ultrapassava as trezentas pessoas, e provavelmente ia continuar a aumentar, era necessário utilizar qualquer coisa que coubesse bem na caixa negra. Na véspera da loteria, à noite, Mr. Summers e Mr. Graves preparavam os bocados de papel e metiam-nos na caixa e depois esta era levada para o cofre da empresa de Mr. Summers, onde ficava fechada até este a levar para a praça na manhã seguinte. Durante o resto do ano a caixa ficava guardada ora num lugar ora noutro; um ano ficara no celeiro de Mr. Graves, noutro, no correio e às vezes punham-na numa prateleira da mercearia de Martin e lá ficava.
Havia uma série de pequenas coisas a fazer antes de Mr. Summers declarar aberta a loteria. Tinham de fazer-se listas—dos chefes das famílias, dos chefes dos vários núcleos de cada família e dos elementos que faziam parte de cada núcleo. Havia ainda o juramento de Mr. Summers como presidente da loteria perante o chefe dos correios, uma ladainha formal que todos os anos era devidamente despachada; uns diziam que o presidente da loteria costumava ficar apenas de pé a recitá-la ou a cantá-la; outros, que ele devia andar entre as pessoas, mas já tinham deixado cair esta parte do ritual no esquecimento há muitos muitos anos. Havia também uma saudação ritual que o presidente da loteria tinha de dirigir a cada pessoa que vinha tirar o papel da caixa, mas também isto tinha mudado com o tempo e agora só se esperava do presidente que falasse com cada pessoa que se aproximava. Mr. Summers era bom em tudo isto; de camisa branca e calças de ganga, uma mão descuidada pousada sobre a caixa negra, estava com um ar muito digno e importante enquanto falava interminavelmente com Mr. Graves e com os Martin.
Precisamente nessa altura, quando Mr. Summers acabava a conversa e se voltava para as pessoas ali reunidas, apareceu Mrs. Hutchinson, de camisola sobre os ombros, a correr apressada pelo caminho que levava à praça, tomando depois lugar atrás do ajuntamento.
— Com as limpezas, esqueci-me que dia era hoje — disse ela a Mrs. Delacroix, que estava a seu lado, e ambas se riram baixinho. — Pensei que o meu homem andava fora a empilhar madeira — continuou ela — e então olhei pela janela e vi que os garotos não estavam e lembrei-me que hoje era o dia 27 de Junho e vim a correr — Limpou as mãos ao avental e Mrs. Delacroix disse:
— E ainda chegou a tempo. Eles ainda estão para ali a conversar.
Mrs. Hutchinson esticou o pescoço para espreitar através do ajuntamento e viu o marido e os filhos quase na frente. Deu uma pancadinha de despedida no braço de Mrs. Delacroix e abriu caminho pelo meio das pessoas; duas ou três disseram suficientemente alto para serem ouvidas por toda a gente: «Vem aqui Mrs. Hutchinson» e «Bill, afinal ela sempre veio». Mrs. Hutchinson chegou junto do marido, e Mr. Summers, que estivera à espera, disse alegremente:
— Já estava a pensar que tínhamos de continuar sem ti, Tessie. — E Mrs. Hutchinson respondeu com um risinho:
— Com certeza que não querias que eu deixasse a louça no lava-louça, pois não, Joe? — E gargalhadas baixinhas correram o ajuntamento enquanto as pessoas se acomodavam nos seus lugares depois da chegada de Mrs. Hutchinson.
— Bem, agora — disse Mr. Summers com ar sério — acho que era melhor começarmos com isto, para depois voltarmos para o trabalho. Falta alguém?
— Dunbar — disseram alguns — Dunbar, Dunbar.
Mr. Summers consultou a sua lista.
— Clyde Dunbar — disse. — Está certo. Ele partiu uma perna, não foi? Quem tira a sorte por ele?
— Acho que sou eu — disse uma mulher, e Mr. Summers voltou-se para ela.
— A mulher tira pelo marido — disse. — A senhora não tem um filho adulto que o faça por si? — Embora Mr. Summers e toda a outra gente soubesse muito bem a resposta, era obrigação do presidente da loteria fazer formalmente a pergunta. Mr. Summers esperou delicadamente pela resposta de Mrs. Dunbar.
— Horace ainda só tem dezesseis anos — lamentou Mrs. Dunbar. — Acho que este ano tenho de ser eu a tomar o lugar do meu homem.
— Muito bem — disse Mr. Summers, e tomou nota na lista que tinha na mão. Depois perguntou:
— O filho do Watson vem tirar a sorte este ano?
Um rapaz alto, no meio do ajuntamento, levantou o braço.
— Estou aqui — disse ele. — Vou tirar pela minha mãe e por mim — Piscou os olhos nervosamente e baixou a cabeça quando várias vozes no meio das pessoas disseram coisas como, «Um bom rapaz, este Jack» ou «Ainda bem que a tua mãe tem um homem para o fazer».
— Bom — disse Mr. Summers — parece-me que está toda a gente. O velho Warner está?
— Estou aqui — disse uma voz, e Mr. Summers fez que sim com a cabeça.
As pessoas ficaram subitamente em silêncio quando Mr. Summers pigarreou e olhou para a lista.
— Estão todos prontos? — perguntou. — Ora agora vou chamar pelos nomes—primeiro, os chefes das famílias—e os homens vêm tirar um papel da caixa. Guardem o papel dobrado na mão e não o abram sem que toda a gente tenha tido a sua vez. Entendido?
As pessoas já tinham feito aquilo tantas vezes que já mal escutavam as instruções; a maioria estava em silêncio a molhar os lábios, sem olhar à volta. Depois Mr. Summers levantou o braço bem alto e disse:
— Adams.
Um homem saiu o meio das pessoas e avançou.
— Olá, Steve — disse Mr. Summers. E Mr. Adams respondeu:
— Olá, Joe. — Sorriram um para o outro sem graça e nervosamente. Depois Mr. Adams meteu a mão na caixa e tirou um papel dobrado. Segurou-o firmemente por um dos cantos enquanto se virava para se dirigir rapidamente de volta ao seu lugar no meio do ajuntamento, onde ficou um pouco afastado dos seus sem olhar para baixo para a mão.
— Allen — disse Mr. Summers. — Anderson… Bentham…
— Dá a impressão de que já não passa quase tempo nenhum entre as loterias — disse Mrs. Delacroix para Mrs. Graves na fila de trás. — Parece que ainda foi ontem a última.
— Realmente o tempo passa mesmo depressa — disse Mrs. Graves.
— Clark… Delacroix.
Lá vai o meu homem — disse Mrs. Delacroix, e susteve a respiração enquanto o marido avançava.
— Dunbar — disse Mr. Summers, e Mrs. Dunbar dirigiu-se decididamente para a caixa, enquanto uma das mulheres dizia «Força, Janey», e outra, «Lá vai ela».
— A seguir somos nós — disse Mrs. Graves, e ficou a ver Mr. Graves dar a volta à caixa, saudar Mr. Summers com ar grave e tirar um papel da caixa. Nesta altura viam-se por todo o ajuntamento homens com pequenos papeis dobrados na mão, virando-os de um lado e doutro nervosamente. Mrs. Dunbar e os seus dois filhos estavam juntos, ela com o papel na mão.
— Harburt… Hutchinson.
— Despacha-te, Bill — disse Mrs. Hutchinson, e as pessoas ali ao pé riram-se.
— Jones.
— Dizem que na aldeia lá em cima no norte — disse Mr. Adams ao velho Warner, que estava junto dele — andam a falar em acabar com a loteria.
O velho Warner bufou e respondeu:
— São um bando de idiotas. Se se vai dar ouvidos ao que os jovens querem, nada lhes basta, e mal damos por isso já eles querem voltar a viver nas cavernas, sem trabalhar, a viver assim por uns tempos. Dizia-se antigamente que «Loteria em Junho feita, sinal de boa colheita». Em pouco tempo estaríamos todos a comer bolota. Sempre houve a loteria — acrescentou com irritação. — E não é nada bom ver aquele rapaz, o Joe Summers, a brincar com toda a gente.
— Nalguns lugares, já acabaram mesmo com as loterias — disse Mrs. Adams.
— Isso só traz problemas — respondeu o velho Warner determinado. — Um bando de idiotas.
— Martin.
E Bobby Martin viu o pai avançar
— Overdyke… Percy.
— Era bom que se despachassem — disse Mrs. Dunbar para o filho mais velho.
— Já foram quase todos — respondeu o filho.
— Prepara-te para ir a correr dizer ao teu pai — disse-lhe Mrs. Dunbar.
Mr. Summers chamou pelo seu próprio nome e avançou escrupulosamente, tirando um papel da caixa. Depois continuou:
— Warner.
— É o meu septuagésimo sétimo ano de loteria — disse ele enquanto ia pelo meio das pessoas. — A septuagésima sétima vez.
— Watson.
O rapaz alto aproximou-se desajeitado pelo meio das pessoas. Alguém disse, «Não fiques nervoso, Jack» e Summers acrescentou, «Tem calma, rapaz».
— Zanini.
 Depois disto, houve uma longa pausa, uma pausa ofegante, até que Mr. Summers, com o seu papel no ar, disse:
— Muito bem, meus amigos — Por momentos ninguém se mexeu, e depois todos os quadrados de papel foram abertos. De repente, todas as mulheres começaram a falar ao mesmo tempo, dizendo, «Quem foi?», «Quem é que o tirou?», «Foram os Dunbar?», «Foram os Watson?». Então começaram a ouvir-se vozes que diziam, «Foi o Hutchinson. Foi o Bill.», «Foi o Bill Hutchinson que o tirou.»
— Vai dizer ao teu pai — disse Mrs. Dunbar para o filho mais velho.
As pessoas começaram a procurar os Hutchinson com os olhos. Bill Hutchinson ficou calado a olhar para o papel que tinha na mão. E subitamente Tessie Hutchinson gritou para Mr. Summers:
— Tu não lhe deste tempo para ele tirar o papel que quisesse. Eu vi. Não está certo.
— Não sejas injusta, Tessie — disse Mrs. Delacroix.
E Mrs. Graves:
— Todos tivemos as mesmas possibilidades.
— Cala a boca, Tessie — disse Bill Hutchinson.
— Bom, pessoal — disse Mr. Summers — isto andou muito depressa e agora temos de continuar para acabarmos a horas. — Consultou a lista seguinte.
— Bill — disse ele — tu tiraste pela família Hutchinson. Há mais alguns lares Hutchinson?
— Há o Don e a Eve — gritou Mrs. Hutchinson. — Façam-nos tentar a sua sorte!
— As filhas tiram a sorte pelas famílias dos maridos, Tessie — disse Mr. Summers delicadamente. — Sabes isso tão bem como eu.
— Isto não foi justo — disse Tessie.
— Acho que não, Joe — disse Bill Hutchinson pesaroso. — A minha filha tira pela família do marido, e isso está certo. E eu não tenho mais família além dos miúdos.
— Então, no que diz respeito a famílias és tu — explicou Mr. Summers — e no que respeita a lares também és tu. Certo?
— Certo — respondeu Bill Hutchinson.
— Quantos miúdos são, Bill? — perguntou Mr. Summers formalmente.
— Três — respondeu Bill Hutchinson. — O Bill Jr., a Nancy e o pequeno Dave. E a Tessie e eu próprio.
— Muito bem — disse Mr. Summers. — Harry, já tens os papeis?
Mr. Graves fez que sim e mostrou os papeis.
— Então, mete-os na caixa — disse ele. — Pega no do Bill e mete-o lá também.
— Eu acho que devíamos começar outra vez do princípio — disse Mrs. Hutchinson tão calmamente quanto lhe foi possível. — Volto a dizer-te, isto não foi justo. Tu não lhe deste tempo suficiente para ele escolher. Toda a gente viu.
Mr. Graves tinha já selecionado os cinco papeis e meteu-os na caixa, deixando cair todos os outros no chão, onde o vento os apanhou e espalhou pelo ar.
— Ouçam todos com atenção — dizia Mrs. Hutchinson para os que estavam à sua volta.
— Estás pronto, Bill? — perguntou Mr. Summers, e Bill Hutchinson com um rápido olhar para a mulher e os filhos, fez que sim com a cabeça.
— Não se esqueçam — disse Mr. Summers. — Tirem os papeis e guardem-nos dobrados até que todos tenham tirado o seu. Harry, ajuda aí o Dave.
Mr. Graves pegou na mão do garoto, que o acompanhou de boa vontade até à caixa.
— Tira um papel da caixa, Davy — disse Mr. Summers.
Dave meteu a mão na caixa e riu-se.
— Tira só um — disse Mr. Summers. — Harry, guarda-lhe o papel.
Mr. Graves tirou-lhe o papel da mão fechada e guardou-o, enquanto o pequeno Dave continuava junto dele a olhá-lo intrigado.
— Agora a Nancy — disse Mr. Summers.
Nancy tinha doze anos e os seus companheiros da escola sustiveram a respiração quando ela avançou, de saia a abanar, e tirou graciosamente um papel da caixa.
— Bill Jr. — disse Mr. Summers.
E Billy, de rosto corado e pés grandes, quase derrubou a caixa ao tirar o papel.
— Tessie — disse Mr. Summers.
Ela hesitou por momentos a olhar à volta em ar de desafio e depois apertou os lábios, dirigiu-se para a caixa, tirou um papel lá de dentro e guardou-o atrás das costas.
— Bill — continuou Mr. Summers.
E Bill Hutchinson meteu a mão na caixa, tateou lá dentro e por fim retirou a mão, onde vinha um papel.
As pessoas calaram-se. Uma rapariga sussurrou: «Espero que não seja a Nancy.» E aquele sussurro chegou até às franjas do ajuntamento.
— Isto já não é como dantes — disse o velho Warner bem alto. — As pessoas já não são como eram.
— Muito bem — disse Mr. Summers. — Abram os papeis. Harry, abre tu o do pequeno Dave.
Mr. Graves desdobrou o papel e houve um suspiro de alívio geral quando ele o mostrou e toda a gente viu que estava em branco. Nancy e Bill Jr. abriram os deles ao mesmo tempo e ambos irradiaram alegria e se riam, voltando-se para as pessoas a exibir os papeis por cima das cabeças.
— Tessie — disse Mr. Summers. Houve uma pausa e depois Mr. Summers olhou para Bill Hutchinson, e Bill desdobrou o papel e mostrou-o. Estava em branco.
— É a Tessie — disse Mr. Summers, e a sua voz saiu abafada. — Mostra o papel dela, Bill.
Bill Hutchinson dirigiu-se para a mulher e arrancou-lhe o papel da mão. Tinha um ponto negro, o ponto negro que Mr. Summers lhe tinha posto na véspera à noite com o lápis grosso no escritório da empresa de carvão. Bill Hutchinson ergueu-o no ar e a multidão agitou-se.
— Muito bem, gente — disse Mr. Summers. — Vamos lá acabar com isto depressa.
Embora tivessem já esquecido os rituais e perdido a caixa negra original, os aldeões ainda sabiam atirar pedras. O monte das pedras que os rapazes tinham feito mais cedo estava pronto; havia pedras no chão juntamente com os papeis que tinham saído da caixa. Mrs. Delacroix escolheu uma pedra tão grande que teve de a apanhar com ambas as mãos, e dirigiu-se a Mrs. Dunbar:
— Vamos lá — disse — Despache-se.
Mrs. Dunbar tinha pedras pequenas nas duas mãos e disse respirando fundo:
— Eu não posso correr. Vai tu à frente que eu já te apanho.
As crianças já tinham as pedras e alguém deu ao pequeno Dave alguns seixos.
Tessie Hutchinson estava agora no meio de uma clareira e levantava os braços desesperadamente à medida que as pessoas apertavam o cerco.
— Não é justo — dizia.
Uma pedra atingiu-a num dos lados da cabeça.
O velho Warner dizia:
— Vamos lá, vamos lá, toda a gente.
Steve Adams estava na frente de todos com Mrs. Graves a seu lado.

— Não é justo, não é justo — gritava Mrs. Hutchinson, e eles atiraram-se a ela.