quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

31 – Baleia – G. Ramos

“Baleia,” o nono capitulo de Vidas Secas de Graciliano Ramos (1892-1953) escritor alagoano nascido em Quebrangulo. Narra os momentos finais do cachorro Baleia e traz uma das emoções mais intensas da literatura brasileira.  Muitos já o leram, mas talvez em outro contexto. Vale a pena ler outra vez e admirar a maturidade com que o texto foi escrito e a autenticidade das emoções e sentimentos que ele transmite.
Baleia
Graciliano Ramos
A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe 
em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca
 e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
 Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de 
hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho 
queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral
 ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as
 orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de 
roscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira,
 lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a 
cachorra não sofrer muito.

Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que
adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma
 pergunta:

– Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano 
afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem 
dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que
 ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os 
para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos:
 prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas
 do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia. Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a 
decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, 
as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória 
tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:

– Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as
 crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios.
Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa.
Mas compreendia que estava sendo severa de mais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com
os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às
 orelhas. Como isso era impossível, levantou os braços e, sem largar o filho,
conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.

Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras,
 açulando um cão invisível contra animais invisíveis:

– Ecô! ecô!

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa 
da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras 
no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono
 desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado 
da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido 
com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca
do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto.

Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se
mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou 
o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de 
Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e
 os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se.
 E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho
 da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por
 um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao 
copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras.

Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos
pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito
 sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte 
posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve 
medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca
 macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as
 moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos
 colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.

Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou 
a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado
 de 
banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando 
as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e 
aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.

Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou
 morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam
 diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e 
escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro
 vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro
s e tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente,
 com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua
 pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão.
Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o 
rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração,
 cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza 
o sol desaparecera.

Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do 
chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A 
obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia
 não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que
 estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno 
coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana devia m
andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos 
dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o 
cachimbo.

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio
completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no 
poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam
 Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações 
familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se
 tinha despovoado.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a 
língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo,
 a pancada que recebera no quarto, e a viagem difícil do barreiro ao fim do
 pátio desvaneciam-se no seu espírito.

Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de 
trempe. Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza,
 varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um 
bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se 
amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do 
peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo
 se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente

Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
 Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. 
E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro 
enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

30 – Diga a eles que não me matem – J. Rulfo

Este pequeno conto é uma grande oportunidade para conhecer Juan Rulfo (1917-1986) escritor mexicano nascido no estado de Jalisco e autor de um dos mais importantes romances da literatura Latinoamericana: Pedro Páramo.

Diga a eles que não me matem!
Juan Rulfo

- Diga a eles que não me matem, Justino! Anda, vai dizer isso. Que por caridade. Diga a eles assim. Diga que o façam por caridade.
- Não posso. Há ali um sargento que nem quer ouvir falar de ti.
- Faz com que te ouça. Usa as tuas manhas e diga que para sustos já chega. Diga que o faça pela caridade de Deus.
- Não se trata de sustos. Parece que te vão matar de verdade. Eu já não quero voltar lá.
- Vai outra vez. Só mais uma vez, a ver o que consegues.
- Não. Não tenho vontade de ir. É evidente que eu sou teu filho. E, se vou muitas vezes ter com eles, acabarão por saber quem sou e pode dar-lhes para me fuzilarem a mim também. É melhor deixar as coisas tal como estão.
- Anda, Justino. Diz-lhes que tenham só um bocadinho de lástima de mim. Diga só isso.
Justino apertou os dentes e moveu a cabeça, dizendo:
- Não.
E continuou a abanar a cabeça durante muito tempo
- Diga ao sargento que te deixe ver o coronel. E conta-lhe quão velho estou. O pouco que valho. Que lucro terá por matar-me? Nenhum lucro. Ao fim e ao cabo ele deve ter uma alma. Diga que o faça pela bendita salvação da sua alma.
Justino levantou-se do monte de pedras em que estava sentado e caminhou até à porta do curral. Depois voltou-se para dizer:
- Vou, então. Mas se por acaso me fuzilam a mim também, quem cuidará da minha mulher e dos filhos?

- A Providência, Justino. Ela se encarregará deles. Preocupa-te em ir lá e ver que coisas fazes por mim. Isso é que urge.
Tinham-no trazido de madrugada. E agora já ia avançada a manhã e ele continuava ainda ali, amarrado a uma estaca, esperando. Não conseguia estar quieto. Tinha feito a tentativa de dormir um pouco para se apaziguar, mas o sono tinha abalado. Também tinha abalado a fome. Não tinha vontade de nada. Só de viver. Agora que sabia bastante bem que o iam matar, tinha-lhe entrado uma vontade tão grande de viver como só a pode sentir um recém-ressuscitado.
Quem lhe haveria de dizer que havia de voltar àquele assunto tão velho, tão rançoso, tão enterrado como pensava que estava. Aquele assunto de quando teve que matar dom Lupe. Não foi sem mais nem menos, como lhe quiseram fazer crer os de Alima, mas sim porque teve as suas razões. Ele lembrava-se: Dom Lupe Terreros, o dono da Puerta de Piedra, ainda por cima seu compadre. Ao qual ele, Juvêncio Nava, teve que matar por isso mesmo; por ser o dono da Puerta de Piedra e porque, sendo também seu compadre, lhe negou o pasto para os seus animais.
Primeiro aguentou-se por mero compromisso. Mas depois, quando da seca, em que viu como lhe morriam um atrás do outro os seus animais fustigados pela fome e que o seu compadre dom Lupe continuava a negar-lhe a erva dos seus pastos, foi então que se pôs a partir a cerca e a empurrar a massa de animais magros até ao capim para que se fartassem de comer. E o dom Lupe não tinha gostado disso, tanto que mandou tapar outra vez a cerca para que ele, Juvêncio Nava, lhe voltasse a abrir outra vez o buraco. Assim, de dia tapava-se o buraco e de noite voltava a abrir-se, enquanto o gado estava ali, sempre colado à cerca, sempre esperando; aquele seu gado que antes só vivia cheirando o pasto sem o poder provar.
E ele e dom Lupe discutiam e voltavam a discutir sem chegarem a acordo.
Até que uma vez dom Lupe lhe disse:
- Olha, Juvêncio, outro animal mais que tu metes no pasto e eu mato.

E ele respondeu:
- Olhe, dom Lupe, eu não tenho a culpa que os animais procurem o seu conforto. Eles são inocentes. Você verá as consequências, se os matar.
E matou-me um novilho.
Isto aconteceu há trinta e cinco anos, em Março, porque em Abril eu já andava no monte, fugindo da precatória. De nada me serviram as dez vacas que dei ao juiz, nem a penhora da minha casa para lhe pagar a minha saída da prisão. Ainda depois se pagaram com o que restava, só para não me perseguirem, embora de toda a maneira me tenham perseguido. Por isso vim viver com o meu filho neste outro terrenozinho que eu tinha e que se chama Paio de Venado. E o meu filho cresceu e casou-se com a minha nora Ignacia e já teve oito filhos. Assim como assim a coisa já vai para velha, e por isso deveria estar esquecida. Mas, pelos vistos, não está.
Eu então calculei que com uns cem pesos ficava tudo arrumado. O defunto dom Lupe era sozinho, vivia só com a mulher e os dois rapazinhos ainda de gatas. E a viúva depressa morreu também, dizem que de tristeza. E aos rapazinhos levaram-nos para longe, para casa de uns parentes. Assim que, pela parte deles, não havia que ter medo.
Mas os demais insistiam em que eu andava com a precatórias em julgamento para me assustarem e continuarem a roubar-me. Cada vez que alguém chegava à aldeia avisavam-me:
- Andam por aí uns forasteiros, Juvêncio.
E eu fugia para o monte, emaranhando-me entre os medronheiros e passando os dias a comer só beldroegas. Às vezes tinha que sair à meia-noite, como se me estivessem perseguindo os cães. Isso durou a vida toda. Não foi um ano nem dois. Foi a vida toda.
E agora tinham ido à sua procura, quando já não esperava ninguém, confiado no esquecimento em que as pessoas o tinham; acreditando que pelo menos os seus últimos dias os passaria tranquilo. «Pelo menos isto» pensou «conseguirei com estar velho. Deixar-me-ão em paz.»
Tinha-se entregado a esta esperança por inteiro. Era por isso que lhe custava trabalho imaginar que ia morrer assim de repente, nesta altura da sua vida, depois de tanto lutar para se livrar da morte; de ter passado o seu melhor tempo andando de um lado para o outro arrastado pelos sobressaltos e quando o seu corpo tinha acabado por ser um simples couro duro, curtido pelos maus dias em que teve que andar a esconder-se de todos.
Não tinha ele, por acaso, deixado até que a mulher lhe abalasse? Naquele dia que amanheceu com a novidade de que a mulher se tinha ido embora, nem sequer lhe passou pela cabeça a intenção de sair a procurá-la. Deixou que abalasse sem perguntar nem com quem nem para onde, para não ter de descer à aldeia. Deixou que se fosse como se lhe tinha ido tudo o resto, sem mexer uma palha. A única coisa que lhe restava para cuidar era a vida, e esta conservá-la-ia fosse como fosse. Não podia deixar que o matassem. Não podia. Muito menos agora. Mas para isso o tinham trazido de lá, de Paio de Venado. Não precisaram de amarrá-lo para que os seguisse. Ele andou sozinho, unicamente manietado pelo medo. Eles deram-se conta de que ele não podia correr com aquele corpo velho, com aquelas pernas fracas como cordas secas, inteiriçadas, com o medo de morrer. Porque ia para isso. Para morrer, disseram.
Soube desde então. Começou a sentir essa comichão no estômago, que lhe chegava de repente sempre que via a morte de perto e que lhe puxava a ânsia pelos olhos, e que lhe inchava a boca com aqueles goles de água azeda que tinha que engolir sem querer. E essa coisa que lhe fazia os pés pesados enquanto a cabeça lhe amolecia e o coração lhe batia com todas as suas forças nas costelas. Não, não se podia acostumar à ideia que o matassem.
Tinha que haver alguma esperança. Em algum lugar poderia ainda restar alguma esperança. Talvez eles se tivessem enganado. Talvez procurassem outro Juvêncio Nava e não o Juvêncio Nava que ele era.
Caminhou entre aqueles homens em silêncio, de braços caídos. A madrugada era escura, sem estrelas. O vento soprava devagar, levava consigo a terra seca e trazia mais, cheio desse cheiro como de urina que tem o pó dos caminhos.
Os seus olhos, que com os anos se tinham encarquilhado, vinham vendo a terra, aqui, debaixo dos seus pés, apesar da escuridão. Ali na terra estava toda a sua vida. Sessenta anos a viver dela, contendo-a entre as suas mãos, depois de a ter provado como se prova o sabor da carne. Veio durante longo tempo esmiuçando-a com os olhos, saboreando cada pedaço como se fosse o último, quase sabendo que seria o último.
Depois, como querendo dizer alguma coisa, olhava os homens que iam junto dele. Ia dizer-lhes que o soltassem, que o deixassem abalar: «Eu não fiz mal a ninguém, rapazes», ia dizer-lhes, mas ficava calado. «Mais adiante digo-lhes», pensava. E só os olhava. Podia até imaginar que eram seus amigos; mas não o queria fazer. Não eram. Não sabia quem eram. Via-os a seu lado inclinando-se e agachando-se de vez em quando para ver por onde seguia o caminho.
Tinha-os visto pela primeira vez ao empardecer da tarde, nessa hora desbotada em que tudo parece chamuscado. Tinham atravessado os sulcos pisando o milho tenro. E ele tinha descido para isso: para lhes dizer que ali estava a começar a crescer o milho. Mas eles não se detiveram.
Tinha-os visto bastante tempo. Sempre teve a sorte de ver tudo com bastante tempo. Podia ter-se escondido, caminhar umas quantas horas pelo cerro enquanto eles não abalavam e depois voltar a descer. Ao fim e ao cabo, o milho não cresceria de maneira nenhuma. Já era tempo de terem chegado as águas e as águas não apareciam e o milho começava a murchar. Não tardaria em estar completamente seco.
Assim nem merecia a pena ter descido; ter-se metido entre aqueles homens como num buraco, para já não voltar a sair.
E agora continuava junto deles, aguentando a vontade de lhes dizer que o soltassem. Não lhes via a cara; só via os vultos que se juntavam ou se separavam dele. De tal maneira que, quando se pôs a falar, não soube se o tinham ouvido. Disse:
- Eu nunca fiz mal a ninguém - disse isso. Mas nada mudou. Nenhum dos vultos pareceu aperceber-se. As caras não se viraram para o ver. Continuaram na mesma, como se tivessem vindo a dormir.
Então pensou que não tinha mais nada para dizer, que teria de procurar a esperança em qualquer outro lugar. Deixou cair outra vez os braços e entrou nas primeiras casas da aldeia no meio daqueles quatro homens escurecidos pelo negro calor da noite.
- Meu coronel, aqui está o homem.
Tinham parado à frente da ombreira da porta. Ele, com o seu chapéu na mão, por respeito, esperando ver sair alguém. Mas só saiu a voz:
- Qual homem? - perguntaram.
- O de Paio de Venado, meu coronel. O que o senhor nos mandou buscar.
- Pergunta-lhe se alguma vez viveu em Alima - voltou a dizer a voz de lá de dentro.
- Eh, tu! O coronel pergunta se habitaste em Alima? repetiu o sargento que estava à frente dele. .
- Sim. Diga ao coronel que sou mesmo de lá. E que lá vivi até há pouco tempo.
- Pergunta-lhe se conheceu Guadalupe Terreros.
- Está a perguntar se conheceste Guadalupe Terreros.
- Ao dom Lupe? Sim. Diga que sim que o conheci. Já morreu.
Então a voz lá de dentro mudou de tom:
- Já sei que morreu - disse. E continuou a falar como se conversasse com alguém, do outro lado da parede de carriços:
- Guadalupe Terreros era meu pai. Quando cresci e o procurei disseram-me que estava morto. É um bocado difícil crescer sabendo que a coisa a que podemos agarrar-nos para criar raízes está morta. Conosco, aconteceu isso. Depois soube que o tinham matado à machadada, cravando-lhe depois uma vara de ferrão no estômago. Contaram-me que ele sobreviveu mais de dois dias perdido e que, quando o encontraram, atirado num arroio, ainda estava agonizando e pedindo que se encarregassem de lhe cuidar da família. Isto, com o tempo, parece que se esquece. Uma pessoa tenta esquecer. Aquilo que não se esquece é chegar a saber que quem fez aquilo ainda está vivo, alimentando a sua alma podre com a ilusão da vida eterna. Não poderia perdoar-lhe, embora não o conheça; mas o facto de se ter posto no lugar onde eu sei que está, dá-me ânimo para acabar com ele. Não lhe posso perdoar que continue a viver. Não devia ter nascido nunca.
Daqui, de cá de fora, ouviu-se claramente tudo o que disse. Depois ordenou:
- Levem-no e amarrem-no um bocado, para que padeça, e depois fuzilem-no!
- Olha para mim, coronel! - pediu ele. - Já não valho nada. Não tardarei em morrer sozinho, derreado de velho. Não me mates!
- Levem-no! - voltou a dizer a voz lá de dentro.
- ... Já paguei, coronel. Paguei muitas vezes. Tiraram-me tudo. Castigaram-me de muitas formas. Passei coisa de quarenta anos escondido como um pestilento, sempre com o palpite de que a qualquer momento me matariam. Não mereço morrer assim, coronel. Deixa que, pelo menos, o Senhor me perdoe. Não me mates! Diga que não me matem!
Estava ali, como se lhe tivessem batido, sacudindo o seu chapéu contra a terra. Gritando.
De seguida a voz lá de dentro disse:
- Amarrem-no e dêem-lhe alguma coisa para beber até que se embebede para não lhe doerem os tiros.
Agora, por fim, tinha-se apaziguado. Estava ali encostado ao pé da estaca. Tinha vindo o seu filho Justino e o seu filho Justino tinha abalado e tinha voltado e agora vinha outra vez.
Pô-lo em cima do burro. Amarrou-o bem amarrado aos arreios para que não caísse pelo caminho. Meteu-lhe a cabeça dentro de um saco para que não desse má impressão. E depois deu um puxão na crina do burro e abalaram, lançados, depressa, para chegar a Paio de Venado ainda com tempo para organizar o velório do defunto.

- A tua nora e os teus netos vão ter saudades tuas - ia dizendo. - Olhar-te-ão na cara e pensarão que não és tu. Vai parecer-lhes que foi o coiote que te comeu, quando te virem com essa cara tão cheia de buracos por causa de tanto tiro de misericórdia que te deram.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

29 – Pobre Liza – N. Karamzim

Nikolay Karamzim (1766–1826) escritor e historiador russo publicou este conto ainda no século dezoito (cem anos antes da publicação de Quincas Borba por Machado de Assis) e é considerado um dos precursores do movimento romântico e da grande literatura russa. Nele, Liza vive um amor de Cinderela que, infelizmente, não termina bem. (Este conto abre a Nova Antologia do Conto Russo publicado pela Editora 34)
Pobre Liza
 Nikolai Karamzin

É provável que nenhum habitante de Moscou conheça tão bem quanto eu os arredores desta cidade, porque ninguém costuma ir ao campo mais que eu, ninguém vagueia mais que eu, sem plano, sem rumo — aonde os olhos levam —, por seus prados e bosques, por suas colinas e planícies. Todo verão encontro lugares novos e agradáveis, ou novas belezas nos antigos.
Mas o que mais me agrada é o lugar de onde se elevam as torres góticas e sombrias do mosteiro de Símonov. Do alto dessa colina, à direita, pode-se ver quase toda Moscou; uma quantidade espantosa de casas e igrejas que se apresenta aos olhos como um majestoso anfiteatro: um quadro magnífico, em especial quando iluminado pelo sol, quando seus raios vespertinos incidem sobre as inumeráveis cúpulas douradas e as inumeráveis cruzes que se elevam ao céu! Embaixo estendem-se prados férteis, exuberantemente verdes e floridos, e atrás deles, entre areias amarelas, corre um rio claro, que se agita com os remos leves dos barcos de pesca, ou borbulha sob o leme dos barcos de carga que vêm navegando desde os pontos mais férteis do império russo e suprem de cereais a ávida Moscou.
Do outro lado do rio se vê um bosque de carvalhos e numerosos rebanhos pastando ao longo dele; ali, à sombra das árvores, jovens pastores cantam canções simples e tristes, abreviando assim seus dias tão monótonos de verão. Adiante, em meio ao verde exuberante de olmos antigos, brilha o mosteiro Danílov, de cúpulas douradas; um pouco mais à frente, quase na linha do horizonte, divisam-se as azuladas Colinas dos Pardais. Já do lado esquerdo se vê um campo vasto, coberto de trigo, pequenos bosques, três ou quatro aldeiazinhas, e ao longe a aldeia de Kolómienskoie, com seu alto palácio.
Venho com frequência a este lugar, onde quase sempre comemoro a entrada da primavera; dirijo-me para cá também nos dias sombrios de outono, para lamentar junto com a natureza. O uivo dos ventos é assus­tador entre os muros do mosteiro deserto, entre os túmulos cobertos pela relva crescida e nas passagens escuras das celas. Ali, apoiando-me nas ruínas das lápides de pedra, ponho-me a escutar  o gemido surdo dos tempos devorados pelo abismo do passado — um gemido que faz palpi­tar e estremecer meu coração. Às vezes entro nessas celas e fico imaginan­do aqueles que nelas viveram — que triste quadro! Nesta vejo um ancião de cabelos grisalhos, ajoelhado diante de um crucifixo, rezando pela rápida libertação de seus grilhões na terra, já que não tinha mais nenhum prazer na vida e, com exceção da doença e da fraqueza, todos os seus sentimentos haviam morrido. Naquela um jovem monge, com o rosto pálido e olhar lânguido, contempla o campo através das grades da janela e vê os pássaros alegres, nadando livremente no mar do ar; fica olhando, e de seus olhos rolam lágrimas amargas. Ele enlanguesce, murcha e definha; e a badalada melancólica do sino anuncia-me sua morte prematura. De vez em quando ponho-me a observar nos portais do templo a representação dos milagres que ocorreram neste mosteiro: naquele os peixes caem do céu para saciar a fome dos habitantes do mosteiro, asse­diado por numerosos inimigos; neste a imagem da mãe de Deus põe em fuga os adversários. Tudo isso vem refrescar-me na memória a história de nossa pátria, a triste história dos tempos em que os lituanos e os tártaros rapaces devastaram, a ferro e fogo, os arredores da capital russa, mesmo quando a infeliz Moscou, como uma viúva indefesa, contava apenas com a ajuda de Deus em sua amarga desventura.
Mas o que mais me atrai aos muros do mosteiro de Símonov são as recordações do lamentável destino de Liza, da pobre Liza. Ah! Gosto das coisas que me tocam o coração e me fazem derramar lágrimas de doce pesar!
A umas setenta sájens dos muros do mosteiro, perto de um peque­no bosque de bétulas, em meio ao prado verde, há uma cabana desabitada, sem porta, sem janelas e sem chão; faz tempo que seu telhado apodreceu e desabou. Nessa cabana, há uns trinta anos ou mais, habitava a bela e doce Liza, com uma velhinha, sua mãe.
 O pai de Liza fora um camponês abastado, porque amava o trabalho, lavrava bem a terra e sempre levara uma vida sóbria. Mas logo após sua morte, a mulher e a filha empobreceram. A mão preguiçosa do lavra­dor contratado cultivara mal a roça e o trigo deixara de crescer. Foram obrigadas a arrendar suas terras por um valor ínfimo. E além do mais, a pobre viúva, que vivia derramando lágrimas por seu finado marido — já que as camponesas também sabem amar! —, foi ficando cada dia mais fraca, até não poder mais trabalhar. Apenas Liza, que aos quinze anos ficara sem pai — apenas Liza, sem poupar sua juventude nem sua beleza rara, trabalhava dia e noite: fiava o linho, tricotava meias, colhia flores na primavera e frutas silvestres no verão, e as vendia em Moscou. A velhinha, sensível e bondosa, vendo a infatigabilidade de sua filha, sempre a estreitava contra o coração, que batia fracamente, chamando-a de graça divina, arrimo de família, deleite de sua velhice, e pedia a Deus que a recompensasse por tudo o que fazia pela mãe.
“Deus me deu mãos para trabalhar — dizia Liza —; quando era criança, me alimentaste em teu seio e cuidaste de mim; agora chegou mi­nha vez de cuidar de ti. Só quero que pare de se arruinar, que pare de chorar; nossas lágrimas não trarão meu paizinho de volta.”
Mas muitas vezes a doce Liza não conseguia conter as próprias lá­grimas... ah! lembrava-se de que tivera um pai e de que ele já não existia, mas para tranquilizar a mãe procurava esconder a tristeza no coração e parecer serena e alegre. “No outro mundo, querida Liza — respondia a velhinha amargurada —, no outro mundo, deixarei de chorar. Dizem que lá todos serão felizes; estou certa de que serei feliz quando vir teu pai. Só não quero morrer agora — o que seria de ti sem mim? Com quem have­ria de deixar-te? Não, permita Deus que te deixe antes instalada em algum lugar! Pode ser que encontre logo um bom homem. Então, depois de vos abençoar, meus filhos queridos, hei de benzer-me e deitar-me em paz sob a terra úmida.”
Dois anos se passaram desde a morte do pai de Liza. Os prados co­briram-se de flores e Liza foi a Moscou com os lírios do vale. Um moço bem-vestido e de aparência agradável cruzou com ela na rua. Ela mostrou- -lhe as flores e corou. “Estão à venda, menina?” — perguntou ele com um sorriso. “Estão” — respondeu ela. “E quanto queres por elas?” — “Cinco copeques.” — “É barato demais. Aqui está um rublo.” Surpresa, Liza atreveu-se a olhar para o jovem — corou ainda mais e, baixando os olhos para o chão, disse-lhe que não aceitaria um rublo. “Para que isso? Não preciso que pague a mais.” — “Acho que esses lírios maravilhosos, colhidos pelas mãos de uma linda menina, valem um rublo. Mas já que não o aceitará, aqui estão os cinco copeques. Gostaria de comprar tuas flores sempre; gostaria que as colhesse apenas para mim.” Liza entregou as flores, pegou os cinco copeques, inclinou-se para ele e quis ir embora, mas o desconhecido a segurou pelo braço: “Para onde vais, menina?” – “Para casa.” — “E onde fica a tua casa?” Liza disse onde morava e partiu. O jovem não quis retê-la, talvez porque os transeuntes estives­sem começando a parar e a olhar para eles com um sorriso malicioso.
Ao chegar a sua casa, Liza contou para a mãe o que lhe havia su­cedido. “Fizeste bem em não aceitar um rublo. Talvez seja uma pessoa má...” — “Ah, não, mãezinha! Não acho que seja. Tinha uma expressão bondosa, uma voz tão...” — “No entanto, Liza, é preferível viver do próprio trabalho e não aceitar nada de graça. Ainda não sabe, minha querida, como uma pessoa má pode ofender uma pobre menina! Fico sempre com o coração na mão quando vais à cidade. Acendo sempre uma vela diante do ícone e peço ao senhor Deus que te proteja de todo mal e de uma desgraça.” E os olhos de Liza se encheram de lágrimas; ela beijou a mãe.
No dia seguinte, Liza colheu os mais belos lírios e voltou com eles à cidade. Seus olhos timidamente procuravam algo.
Muitas pessoas quiseram comprar-lhe as flores, mas ela respondia que não estavam à venda, olhando ora para um lado, ora para o outro. Começou a anoitecer, era preciso voltar para casa, e as flores foram ati­radas ao rio Moscou. “Que ninguém vos possua!” — disse Liza, sentindo certa tristeza no coração.
No dia seguinte, ao entardecer, estava sentada junto à janela, tecen­do e cantarolando baixinho uma canção melancólica, mas de repente levantou de um salto e gritou: “Ah!...”. O jovem desconhecido estava junto à janela.
“O que houve contigo?” — perguntou assustada a mãe, que estava sentada ao seu lado. “Nada, mãezinha — respondeu Liza, com uma voz tímida —, é que acabo de vê-lo.” — “A quem?” — “O senhor que com­prou minhas flores.” A velhinha espiou pela janela.
O jovem inclinou-se para ela com tanta cordialidade, com uma ex­pressão tão agradável, que ela só pôde pensar bem dele. — “Como vai, minha boa mulher?! — disse ele. — Estou muito cansado; não teria um pouco de leite fresco?” A prestativa Liza, sem esperar resposta de sua mãe – talvez porque já a conhecesse —, correu até o porão, trouxe uma bilha de barro limpa, coberta com uma tampa limpa de madeira, pegou um copo, lavou-o e enxugou-o com uma toalha branca, encheu-o de leite e o entregou pela janela, mas ela mesma olhava para o chão. O desconhe­cido o tomou — nem o néctar das mãos de Hebe poderia ter-lhe pareci­do mais saboroso. Qualquer um pode deduzir que depois disso ele agra­deceu a Liza, e a agradeceu tanto com palavras quanto com o olhar.
Entretanto, a bondosa velhinha teve tempo de lhe contar sobre sua pena e seu consolo — sobre a morte do marido e as qualidades especiais de sua filha querida, sobre sua ternura e seu amor ao trabalho, e assim por diante. Ele a escutava com atenção, mas seus olhos estavam... será preciso dizer onde? E Liza, a tímida Liza, lançava de vez em quando um olhar para o jovem rapaz, mas nem o fulgor de um raio desaparece nas nuvens com tanta rapidez quanto os olhos azuis dela se voltavam para o chão ao cruzar com o olhar dele. “Gostaria — disse ele à mãe — que tua filha não vendesse a ninguém, senão a mim, o seu trabalho. Assim, não terá por que ir com tanta frequência à cidade e não terás necessidade de se separar dela. Posso vir aqui de vez em quando pessoalmente.” Nesse momento, nos olhos de Liza brilhou uma alegria que ela tentou em vão esconder; as faces ficaram rubras como o pôr do sol numa noite clara de verão; ela olhava para a sua manga esquerda e a beliscava com a mão direita. A velhinha recebeu a proposta com gosto, sem suspeitar de qual­quer má intenção, e pôs-se a garantir ao rapaz que o tecido feito por Liza, as meias tricotadas por Liza, eram de excelente qualidade e mais duradouros que quaisquer outros.
Começou a anoitecer e o rapaz queria ir embora. “E como podemos chamá-lo, bom e gentil senhor?” — perguntou a velhinha. “Meu nome é Erast” — respondeu ele. “Erast — disse Liza baixinho —, Erast!” Repe­tiu esse nome umas cinco vezes, como se tentasse decorá-lo. Erast despediu-se delas e se foi. Liza o seguiu com o olhar; mas a mãe sentou-se pensativa e, segurando na mão da filha, disse-lhe: “Ah Liza! Como ele é bom e gentil! Se teu noivo for assim!”. O coração de Liza estremeceu todo. “Mãezinha! Mãezinha! Como isso seria possível? Ele é um senhor, e entre camponeses...” — Liza não terminou a frase.
Agora o leitor deve saber que aquele jovem, Erast, era um senhor muito rico, ajuizado e de bom coração, bom por natureza, mas fraco e leviano. Levava uma vida desregrada, pensava apenas no próprio prazer, procurava-o nas diversões mundanas, mas quase nunca encontrava: fica­va então entediado e reclamava de seu destino. Ao primeiro encontro, a beleza de Liza causou-lhe no íntimo uma forte impressão. Ele lia roman­ces, poemas idílicos, possuía uma imaginação muito viva e, muitas vezes, transportava-se em pensamentos para aqueles tempos (passados ou ima­ginários) em que, se acreditarmos nos poetas, todos passeavam despreocupadamente pelos prados, banhavam-se em fontes límpidas, beijavam-se como pombinhos, descansavam sob mirtos e roseirais e passavam todos os dias numa feliz ociosidade. Pareceu-lhe ter encontrado em Liza algo que seu coração havia muito procurava. “A natureza convida-me ao seu abraço, à sua alegria mais pura” — pensou ele, e decidiu, pelo menos por um tempo, deixar a vida mundana.
Voltemos a Liza. A noite caía, a mãe abençoou a filha e desejou-lhe bons sonhos, mas dessa vez seu desejo não se cumpriu; Liza dormiu mui­to mal. O novo hóspede de sua alma, a imagem de Erast, surgia-lhe tão vivamente, que ela acordava quase a todo instante, acordava e suspirava. Liza levantou-se ainda antes do nascer do sol, foi até a beira do rio Mos­cou, sentou-se na grama, cheia de tristeza, e pôs-se a olhar para a névoa branca que se agitava no ar e, ao subir para o alto, deixava gotas brilhan­tes sobre o manto verde da natureza. O silêncio reinava por toda parte. Mas logo despontou a luz do dia, despertando a criação inteira: os bos­ques e os arbustos reviveram, os pássaros alçaram voo, pondo-se a cantar, e as flores soergueram a cabecinha para matar a sede com os raios vivificantes de luz. Mas Liza continuava compungida. Ah, Liza, Liza! O que aconteceu contigo? Até hoje, ao despertar com os pássaros, te divertias com eles pela manhã, e tua alma pura e alegre brilhava em teus olhos, como o sol brilha nas gotas de orvalho celeste, mas agora estás perdida em pensamentos, e a alegria plena da natureza está alheia ao teu coração. Enquanto isso, um jovem pastor conduzia seu rebanho ao longo do rio, tocando sua flauta. Liza ficou olhando para ele e pensou: “Se aquele que agora ocupa meu pensamento tivesse nascido um simples camponês, um pastor, e passasse agora diante de mim conduzindo o seu rebanho, ah! eu o saudaria com um sorriso e diria amavelmente ‘Bom dia, meu gentil pastor! Para onde levas o teu rebanho? Aqui também cresce a grama verde para as tuas ovelhas, aqui também há flores escarlate, com as quais se pode tecer uma guirlanda para o teu chapéu’. Ele me fitaria com cari­nho, e talvez segurasse minha mão. Que sonho!”. O pastor passou dis­traído com seu rebanho de cores variadas, tocando flauta, e desapareceu atrás da colina.
De repente Liza escutou um ruído alegre, olhou para o rio e avistou um barco, e no barco estava Erast.
Seu coração pôs-se a bater mais rápido, e não era de medo, claro. Ela se levantou e quis ir-se, mas não pôde. Erast pulou para a margem, aproximou-se de Liza, e seu sonho em parte se cumpria, já que ele a fitou com carinho e segurou-lhe a mão... Mas Liza, Liza tinha o olhar baixado, as faces em chamas e o coração palpitante; não conseguiu soltar-se de suas mãos, nem conseguiu virar-se quando ele aproximou dela seus lábios rosados... Ah! Ele a beijou, beijou com tanto ardor, que o universo intei­ro pareceu-lhe arder em chamas! “Querida Liza! — disse Erast. — Querida Liza! Eu te amo!” E aquelas palavras ressoaram lhe nas profundezas da alma como uma música encantadora, celestial; ela mal ousava crer no que ouvia e...
Mas deixo a pena de lado. Direi apenas que, nesse momento de êx­tase, a timidez de Liza desaparecera, e Erast soube que era amado, apai­xonadamente amado, por um coração novo, puro e franco.
Sentaram-se na grama, e de forma tal que não sobrava muito espaço entre eles — fitavam-se nos olhos e diziam um ao outro: “Ama-me!” — e duas horas lhes pareceram um átimo. Afinal Liza lembrou-se de que sua mãe poderia estar preocupada com ela. Era preciso que se separassem: “Ah, Erast! — disse ela. — Haverás de me amar sempre?” — “Sempre, querida Liza, sempre!” — respondeu ele. “E podes jurar-me?” — “Pos­so, encantadora Liza, posso!” — “Não! Não preciso de juras. Acredito em ti, Erast, acredito. Como poderias enganar a pobre Liza? Isso seria impossível!” — “Impossível, impossível, querida Liza!” — “Como es­tou feliz, e como minha mãezinha ficará contente quando souber que me amas!” — “Oh, não, Liza! Não há necessidade de dizer-lhe nada.” — “E por quê?” — “Os velhos são muitas vezes desconfiados. Ela poderia ima­ginar algo de ruim.” — “Isso nunca aconteceria.” — “No entanto, eu te peço, não lhe diga uma palavra sobre isso.” — “Está bem: devo obede­cer-te, embora preferisse não ocultar nada a ela.”
Eles se despediram, beijaram-se pela última vez e prometeram en­contrar-se todos os dias ao entardecer ou na margem do rio, ou no bosque de bétulas, ou em algum lugar próximo da cabana de Liza, contanto que se vissem sem falta. Liza foi embora, mas seus olhos voltaram-se uma centena de vezes para trás, para Erast, que continuava de pé, na beira do rio, seguindo-a com o olhar.
Liza voltou para sua cabana numa disposição completamente dife­rente daquela em que a deixara. A alegria de seu coração estampava-se em seu rosto e em todos os seus movimentos. “Ele me ama!” — pensava, e ficava encantada com esse pensamento. — “Ah, mãezinha! — disse Liza a sua mãe, que acabara de acordar. — Ah, mãezinha! Que bela ma­nhã! Está tudo tão alegre no campo! As cotovias nunca cantaram tão bem, o brilho do sol nunca foi tão luminoso, as flores nunca exalaram perfume mais agradável!”
A velhinha, apoiando-se numa bengala, saiu para o prado, para aproveitar a manhã que Liza descrevera com cores tão encantadoras. De fato, ela lhe pareceu excepcionalmente agradável. Para ela, sua encanta­dora filha havia inspirado toda a natureza com sua alegria. “Ah, Liza! – disse ela. — Como é bom tudo o que vem do Senhor, nosso Deus! Há sessenta anos que vivo neste mundo e não me canso de admirar a criação do Senhor: não me canso de admirar o céu claro, que parece um imenso manto, e a terra, que a cada ano é coberta com nova grama e novas flores. O tzar celestial devia amar muito o homem, quando criou tão bem este mundo para ele. Ah, Liza! Quem haveria de querer morrer, se não hou­vesse às vezes a dor?... Por certo, assim deve ser. Se nossos olhos nunca derramassem lágrimas, talvez nos esquecêssemos de nossa própria alma.” E Liza pensava: “Ah! Prefiro esquecer minha alma a esquecer o meu amigo querido!”.
Depois disso, Erast e Liza, temendo quebrar sua palavra, encontra­vam-se todas as noites (assim que a mãe de Liza se deitava para dormir), nas margens do rio ou no bosque de bétulas, mas, com mais frequência, à sombra dos carvalhos centenários (que cresciam a umas oitenta sájens da cabana), carvalhos que sombreavam o lago profundo e límpido, esca­vado ainda em tempos remotos. Lá, muitas vezes, por entre ramos verdes, a lua silenciosa prateava com seus raios os cabelos claros de Liza, com os quais brincavam os zéfiros e a mão de seu querido amigo. Muitas ve­zes, esses raios iluminavam nos olhos da doce Liza uma lágrima brilhan­te de amor, que Erast sempre secava com um beijo. Eles se abraçavam, mas a tímida e casta Cíntia não se escondia deles nas nuvens: seus abra­ços eram puros e imaculados. “Quando — dizia Liza para Erast — quan­do me dizes: ‘Meu amor, minha amiga’. Quando me estreitas contra o teu coração e me fitas com teus olhos ternos, ah! nessa hora me sinto tão bem, mas tão bem, que me esqueço de mim mesma, esqueço-me de tudo, exceto de Erast. É maravilhoso! É maravilhoso, meu amigo, que tenha podido viver tranquila e feliz sem conhecer-te! Agora, não consigo enten­der isso, agora acho que a vida sem ti não é vida, mas tristeza e tédio. Sem teus olhos, a lua clara fica escura; sem tua voz, o canto do rouxinol é entediante; sem tua respiração, a brisa parece desagradável.” Erast es­tava encantado com sua pastora — era como chamava Liza —, e, ao ver como ela o amava, ele parecia mais agradável a seus próprios olhos. Até as diversões mais suntuosas da alta sociedade lhe pareciam insignificantes em comparação com estes prazeres com que a “amizade apaixonada” de uma alma pura nutria seu coração. Pensava com repulsa na volúpia lúci­da com que antes se inebriavam os seus sentimentos. “Viverei com Liza como irmão e irmã — pensava ele —, nunca me aproveitarei de seu amor e serei sempre feliz!” Jovem insensato! Conheces teu próprio coração? Poderás sempre responder por teus atos? Será a razão sempre dona dos teus sentimentos?
Liza exigia que Erast fosse visitar sua mãe com frequência. “Eu a amo — dizia ela —, e desejo-lhe o melhor, e parece-me que ver-te é uma grande bênção para qualquer pessoa.” A velhinha de fato sempre ficava feliz ao vê-lo. Ela gostava de conversar com ele sobre seu falecido marido e contar sobre seus tempos de juventude, como se encontrara com seu amado Ivan pela primeira vez, como ele se apaixonou, e com que amor e harmonia viveu com ela. “Ah! nunca cansávamos de fitar um ao outro, até o derradeiro instante em que a morte cruel enfraqueceu-lhe as pernas. Morreu em meus braços!” Erast ouvia com sincero prazer. Ele comprava dela o trabalho de Liza e sempre queria pagar dez vezes mais que o preço estabelecido, mas a velhinha nunca aceitava.
Várias semanas transcorreram dessa maneira. Certa vez, ao anoitecer, Erast esperou muito tempo por sua Liza. Finalmente ela chegou, mas estava tão triste que o assustou; tinha os olhos avermelhados de lágrimas. “Liza, Liza! O que aconteceu contigo?” — “Oh, Erast! Estava chorando!” — “Por quê? O que houve?” — “Devo dizer-te tudo. Encontraram-me um noivo, o filho de um rico camponês da aldeia vizinha; minha mãezinha quer que me case com ele.” — “E estás de acordo?” — “Como é cruel! Como podes perguntar-me isso? Só tenho pena de minha mãezinha; ela chora e diz que não desejo vê-la tranquila, que sofrerá muito antes de sua morte, se não me vir casada. Ah! Minha mãezinha não sabe que tenho um amigo tão querido!” Erast beijava Liza e dizia-lhe que a felicidade dela lhe era mais cara do que tudo no mundo, que após a morte de sua mãe a levaria consigo e viveria com ela, inseparavelmente, na aldeia e nos bosques espessos, como no Paraíso. “No entanto, não podes ser meu marido!”— disse Liza, suspirando baixinho. — “E por quê?”“Sou uma camponesa.” — “Estás me ofendendo. Para o teu amigo, o mais importante de tudo é a alma, uma alma sensível e inocente — e Liza estará sempre muito perto do meu coração.”
Ela atirou-se em seus braços — e essa hora haveria de ser fatal para a sua pureza! Erast sentiu no sangue uma agitação extraordinária, Liza nunca lhe parecera tão encantadora, suas carícias nunca o tocaram tão fortemente, seus beijos nunca haviam sido tão ardentes — ela não sabia de nada, não suspeitava de nada e nada temia — a penumbra da noite nutriu o desejo — nenhuma estrelinha brilhou no céu, nenhum raio de luz conseguiu iluminar o desatino. Erast sentia-se tremer, Liza também, sem saber por quê, sem saber o que estava acontecendo com ela... Ah! Liza, Liza! Onde está o teu anjo da guarda? Onde está a tua inocência?
O desatino durou apenas um instante. Liza não entendia os próprios sentimentos, estava surpresa e fazia perguntas. Erast ficou em silêncio, buscava palavras, mas não as encontrava. “Ah, estou com medo — disse Liza —, tenho medo do que aconteceu conosco. Sinto como se fosse morrer, como se minha alma... Não, não sei dizer isso!... Não dizes nada, Erast? Estás suspirando?... meu Deus! O que é isso?” Nisso, brilhou um raio e ribombou um trovão. Liza estremeceu toda. “Erast, Erast! — disse ela. — Estou com medo! Temo que o trovão me mate, como a uma criminosa!” A tempestade fazia um barulho ameaçador, a chuva despejava das nuvens negras, era como se a natureza lamentasse a inocência perdida de Liza. Erast tentava acalmá-la e a acompanhou até a cabana. Lágrimas rolavam de seus olhos, quando se despediu dele. “Ah, Erast! Assegura-me de que seremos felizes como antes!” — “Seremos, Liza, seremos!” — respondeu ele. — “Queira Deus! Não posso deixar de acreditar em tuas palavras: pois eu te amo! É que em meu coração... Mas basta! Perdoa-me! Amanhã, amanhã nos veremos.”

Os encontros deles continuaram; mas como tudo mudara! Erast já não podia satisfazer-se apenas com as carícias inocentes de sua Liza, apenas com seus olhares cheios de amor, apenas com o toque da mão e os beijos e abraços puros. Ele desejava cada vez mais, até não conseguir desejar nada — e quem conhece o próprio coração e refletiu sobre a na­tureza de seus prazeres mais ternos, certamente há de concordar comigo que a realização de todos os desejos é a mais perigosa tentação do amor. Liza já não era para Erast aquele anjo de pureza que antes despertara a sua imaginação e encantara sua alma. O amor platônico havia cedido lugar a sentimentos dos quais ele não podia se orgulhar e que já não lhe eram novos. No que se refere a Liza, ao se entregar completamente a ele, vivia e respirava apenas por ele; como um cordeiro, submetia-se em tudo à sua vontade e só encontrava felicidade no prazer dele. Ela percebia nele uma mudança e muitas vezes lhe dizia: “Antes eras mais alegre, antes éramos mais calmos e felizes, e antes eu não temia perder o teu amor!”. Às vezes, ao se despedir dela, ele lhe dizia: “Amanhã, Liza, não poderei vir ao teu encontro: surgiu um assunto importante”. E Liza suspirava todas as vezes que ouvia estas palavras.
Por fim, ela ficou sem vê-lo por cinco dias seguidos e estava muito preocupada; no sexto dia ele chegou com uma expressão abatida e lhe disse: “Querida Liza! Devo despedir-me de ti por algum tempo. Sabes que estamos em guerra e que estou a serviço, meu regimento está partindo em campanha”. Liza empalideceu e quase desmaiou.
Erast a acariciou, disse que sempre amaria sua querida Liza e que em seu regresso esperava nunca mais separar-se dela. Liza ficou em silêncio por um longo tempo, depois irrompeu em lágrimas amargas, agarrou-lhe o braço e, fitando-o com toda a ternura do amor, perguntou: “Não podes ficar?” — “Posso — respondeu ele —, só que a custo de uma grande desonra, de uma grande mancha em minha honra. Todo mundo haverá de me desprezar e desviar-se de mim, como de um covarde, de um filho indigno da pátria.” — “Ah, se é assim — disse Liza —, então vá, vá para onde Deus ordenar! Mas poderão te matar.” — “Morrer pela pátria não é tão assustador, amada Liza.” — “Morrerei, assim que deixares este mundo.” — “Mas, para que pensar assim? Espero continuar vivo, espero voltar para ti, minha amiga.” — “Queira Deus, Queira Deus! Hei de rezar todos os dias e a toda hora para que assim seja. Ah, por que não sei ler, nem escrever? Poderias informar-me de tudo o que acontecesse contigo e eu escreveria para ti — sobre minhas lágrimas!” — “Não, cuida-te Liza, cuida-te para o teu amigo. Não quero que chores na minha ausência.” — “Homem cruel! Pensas privar-me desse consolo! Não! Depois que nos separarmos, só cessarei de chorar quando tiver o coração seco.” — “Pensa no momento agradável em que tornaremos a nos encontrar.” — “Pensarei, pensarei nele! Ah, se pelo menos ele chegasse logo! Querido e gentil Erast! Lembra, lembra da tua pobre Liza, que te ama mais que a si mesma!”
Mas não sou capaz de descrever tudo o que disseram nessa ocasião. No dia seguinte teria lugar o último encontro deles.
Erast quis se despedir da mãe de Liza, que não pôde conter as lágri­mas ao ouvir que seu gentil e belo cavalheiro tinha de ir para a guerra. Ele insistiu que ela aceitasse algum dinheiro seu, dizendo-lhe: “Não que­ro que, na minha ausência, Liza venda o seu trabalho, que por nosso acordo me pertence”. A velhinha o cobriu de bênçãos.
“Queira Deus — disse ela — que regresses são e salvo para nós e que possa ver-te mais uma vez nesta vida! Pode ser que nesse tempo minha Liza encontre para si o noivo conveniente. Como agradeceria a Deus se pudesse voltar para o nosso casamento. Quando Liza tiver filhos, saiba, senhor, que deverás batizá-los. Ah! Como quero viver até lá!” Liza se pôs ao lado da mãe e não ousou olhar para ela. O leitor há de imaginar fa­cilmente o que ela sentia naquele instante.
Mas o que não sentiu ela no momento em que, ao abraçá-la pela última vez, ao estreitá-la contra o seu coração pela última vez, Erast lhe disse: “Adeus, Liza!”. Que quadro tocante! O crepúsculo matutino se derramava como um mar escarlate pelo céu do oriente. Erast, sob os ra­mos de um carvalho alto, abraçava sua pobre amiga, lânguida e amargu­rada, que, ao despedir-se dele, despedia-se de sua alma. E toda a nature­za permanecia em silêncio.
Liza soluçava, Erast chorava; ele a deixou, ela caiu, pôs-se de joelhos, ergueu as mãos para o céu e ficou olhando Erast, que se afastava cada vez mais, até finalmente desaparecer — o sol começou a brilhar, e a pobre Liza, abandonada, perdeu os sentidos e a consciência.
Quando voltou a si, também o mundo lhe pareceu triste e melancó­lico. Todos os prazeres da natureza haviam desaparecido para ela junto com o amado de seu coração. “Ah! — pensava ela. — Por que permane­ci nesse deserto? O que me impede de voar atrás de meu querido Erast? A guerra não me assusta; o que me assusta é estar onde não está o meu amigo. Quero viver com ele e morrer com ele, ou salvar sua preciosa vi­da com a minha própria morte. Espera, espera, meu amado! Estou voan­do para junto de ti.” Ela já ia correr atrás de Erast, mas um pensamento a deteve: “Tenho uma mãe!”. Liza suspirou, baixou a cabeça e foi a passos lentos para sua cabana. Desde esse instante, seus dias foram dias de tristeza e dor, que tinha de esconder de sua querida mãe, com o que sofria ainda mais seu coração! Ele só encontrava alívio quando Liza, ao isolar-se no denso bosque, podia derramar lágrimas livremente e gemer pela ausência de seu amado. Muitas vezes uma rolinha triste vinha jun­tar sua voz queixosa ao lamento dela. Mas às vezes — embora muito raramente — um raio dourado de esperança, um raio de consolo, iluminava a escuridão de sua dor. “Quando ele voltar para mim, como serei feliz! Como tudo haverá de mudar!” A este pensamento, seus olhos se iluminavam, as faces ficavam rosadas, e Liza sorria como uma manhã de maio depois de uma noite de tempestade. E assim se passaram cerca de dois meses.
Certo dia Liza teve de ir a Moscou, a fim de comprar água de rosas para sua mãe tratar dos olhos. Numa das grandes ruas ela se deparou com uma carruagem magnífica e na carruagem viu Erast. “Ah!” — Liza pôs-se a gritar e lançou-se em sua direção, mas a carruagem seguiu adian­te e virou em um pátio. Erast desceu e já estava se dirigindo para a entra­da de uma casa imensa, quando de repente se sentiu abraçado por Liza. Ele empalideceu — depois, sem responder uma palavra às suas exclamações, pegou-a pelo braço, levou-a ao seu gabinete, trancou a porta e lhe disse: “Liza! as circunstâncias são outras; agora estou casado. Deves deixar-me em paz e, para o teu próprio bem, esquecer-me. Eu te amei e ainda te amo, isto é, desejo a ti tudo de bom. Aqui estão cem rublos, pe­ga-os — ele colocou o dinheiro em seu bolso —, deixa-me beijar-te pela última vez e vai para casa”.
Antes que Liza pudesse voltar a si, ele a levou para fora do gabinete e disse ao criado: “Acompanha esta moça até o pátio”.
Neste momento estou com o coração sangrando. Esqueço-me do homem em Erast; estou pronto a amaldiçoá-lo, mas meus lábios não se movem — olho para o céu, e uma lágrima rola em meu rosto. Ah! Por que não escrevo um romance, ao invés de um triste fato passado?
Quer dizer então que Erast enganara Liza, ao lhe dizer que ia para o exército? Não, ele de fato foi para o exército, mas, ao invés de comba­ter o inimigo, jogava cartas e perdeu quase todas as suas posses. Logo a paz foi declarada e Erast retornou a Moscou cheio de dívidas. Restava-lhe apenas uma possibilidade de reparar as circunstâncias: casar-se com uma viúva rica, já entrada em anos, que havia muito estava apaixonada por ele. Ele se decidiu por isto e foi viver na casa dela, dedicando sinceros suspiros a sua Liza. Mas isso tudo é suficiente para justificá-lo?
Liza se viu na rua, e em tal situação, que nenhuma pena é capaz de descrever. “Ele, ele me expulsou? Ele ama outra? Estou perdida!” Estes eram seus pensamentos, seus sentimentos! Um desmaio cruel os inter­rompeu por um momento. Uma mulher bondosa que passava pela rua deteve-se sobre Liza, que estava deitada no chão, e tentou reanimá-la. A infeliz abriu os olhos, levantou-se com o auxílio dessa boa mulher, agra­deceu e pôs-se a andar, sem saber para onde ir. “Não posso continuar vivendo — pensou Liza. — Não posso!... Ah, se o céu caísse sobre mim! Se a terra tragasse essa pobre criatura!... Não! O céu não está caindo; a terra não está tremendo! Ai de mim!” Ela caminhou para fora da cidade e de repente se viu à beira do lago profundo, à sombra dos carvalhos antigos que algumas semanas antes haviam sido testemunhas silenciosas de seu êxtase. Essas recordações abalaram-lhe a alma, seu rosto estam­pava o terrível tormento de seu coração. Mas pouco depois mergulhou num devaneio, olhou a sua volta e viu a filha de um vizinho (uma meni­na de quinze anos), que vinha pela estrada; chamou-a, retirou do bolso dez imperiais e, entregando-os a ela, disse: “Querida Aniuta, minha querida amiga! Leva esse dinheiro para minha mãe — não foi roubado —, diz-lhe que Liza sente-se culpada diante dela, que ocultei dela o meu amor por um homem cruel, por E... Para que saber o nome dele? — Dize que ele me traiu e pede-lhe que me perdoe. — Deus haverá de assisti-la. Beija-lhe a mão assim como agora beijo a tua, dize que a pobre Liza lhe pediu para beijá-la, dize que eu...”. Nesse instante Liza atirou-se na água. Aniuta pôs-se a gritar e a chorar, mas não conseguiu salvá-la, e correu para a aldeia — as pessoas se reuniram e retiraram Liza, mas ela já estava morta.
E assim terminou sua vida, bela de corpo e alma. Quando nos en­contrarmos na outra vida, hei de te reconhecer, doce Liza!
Ela foi enterrada perto do lago, sob um carvalho sombrio, e sobre seu túmulo foi colocada uma cruz de madeira. Muitas vezes me sento aqui, perdido em pensamentos, apoiando-me no lugar onde jazem os res­tos mortais de Liza; o lago corre diante de meus olhos, e as folhas farfalham sobre minha cabeça.
A mãe de Liza ouviu falar da terrível morte da filha e seu sangue gelou de horror — os olhos fecharam-se para sempre. A cabana ficou vazia. O vento uiva lá dentro, e os camponeses, supersticiosos, ao ouvir seu ruído durante a noite, dizem: “Há um morto lá gemendo, a pobre Liza está gemendo!”.
Erast foi infeliz até o fim de sua vida. Ao saber do destino de Liza, não pôde encontrar consolo e considerava-se um assassino. Eu o conheci um ano antes de sua morte. Ele mesmo contou-me esta história e levou-me até o túmulo de Liza. Agora é possível que já tenham se reconciliado!
1792
Tradução de Natalia Marcelli de Carvalho e Fátima Bianchi