terça-feira, 15 de dezembro de 2015

77 – Crônica Decorativa I – F. Pessoa

Fernando Pessoa (1888-1935), poeta português (para mim o maior de todos em nossa língua) que também escreveu alguns poucos contos.  O mais conhecido é provavelmente O Banqueiro Anarquista (talvez um pouco excessivamente didático) mas este, Crônica Decorativa I é brilhante.

Crônica Decorativa I
Fernando Pessoa

A circunstancia humana de eu ter amigos fez com que ontem me acontecesse vir a conhecer o Dr. Boro, professor da Universidade de Tóquio. Surpreendeu-me a realidade quase evidente da sua presença. Nunca supus que um professor da Universidade de Tóquio fosse uma criatura, ou sequer coisa, real.
O Dr. Boro — sinto que me custa doutora-lo — pareceu-me escandalosamente humano e parecido com gente. Vibrou um golpe, que me esforço por desviar de decisivo, nas minhas ideias sobre o que é o Japão. Trajava à europeia, e, como qualquer mero professor existente na Universidade de Lisboa, tinha o casaco por escovar. Ainda assim, por delicadeza, dei-me por ciente, durante duas horas, da sua presença próxima.
Preciso explicar que as minhas ideias do Japão, da sua flora e da fauna, dos seus habitantes humanos e das varias modalidades de vida que lhes são próprias, derivam de um estudo demorado de vários bules e chávenas. Eu por isso sempre julguei que um japonês ou uma japonesa tivesse apenas duas dimensões; e essa delicadeza para com o espaço deu-me uma afeição doentia por aquele país econômico de realidade. O professor Boro é sólido, tem sombra — varias vezes fiz com que o meu olhar o verificasse — e além de falar e falar inglês, coloca ideias e noções compreensíveis dentro das suas palavras. A circunstância de que as suas ideias não comportam nem novidade nem relevo apenas o aproxima dos professores europeus, pavorosamente europeus, que conheço.
Além disto, o professor Boro tem movimento, desloca-se, não sei como, de um lado para o outro, o que, feito perante quem sempre teve o Japão por uma nação de quadro, parada e apenas real sobre transparência de louça, é requintadamente ordinário e desiludidor.
Falamos de politica internacional, da guerra europeia, e fizemos várias incursões pelos vários fenômenos literários característicos da nossa época. A ignorância que o professor Boro tinha de futurismo foi a única benzina para a nódoa da sua realidade moderna. Mas há algum professor de alguma Universidade da Europa que siga de perto os movi- mentos da arte contemporânea?
Dado os fatos que venho explicando, compreende-se que eu fosse avaro de o interrogar sobre o Japão. Para que? Ele era capaz de atirar para dentro da minha ignorância uma quantidade de coisas falsas. Quem sabe se ele se atreveria a insinuar pela conversa fora, como coisa normalmente acreditável, que no Japão há problemas econômicos, dificuldades de vida para várias pessoas, cidades com lojas reais, campos com colheitas como as nossas, exércitos realmente parecidos com os da Europa e com execráveis aperfeiçoamentos científicos para guerras em verdade contemporâneas? Daqui ele não hesitaria talvez em me afirmar — com que cinismo nem eu meço — que no Japão os homens tem relações sexuais com as mulheres, que nascem crianças, que a gente de lá, em vez de estar sempre vestida como as figuras da louça japonesa, despe-se e veste-se como se fosse europeia. Por isso não tratamos do Japão. Perguntei ao professor se ele tinha tido uma boa viagem, e ele caiu em dizer-me que não — como se um estudioso como eu da porcelana nipônica pudesse admitir que há más viagens para os japoneses, que — delicioso povo! — nem sequer se dá ao trabalho de existir. As chávenas partem-se, não comportam tormentas. A frase «uma tempestade num copo de água» ou «numa chávena», como dizem outros, e puramente europeia.
Uma frase houve (casual, quero crer, no professor Boro) que me magoou mais do que outra.
Falávamos — eu, é claro, com o desprendimento com que se tratam estes assuntos feéricos — da influencia dos mecanismos sobre a psicologia do operário, quando se sabe — claro está — que o operário não tem psicologia. E o professor referiu-se aos progressos industriais do Japão e acrescentou umas palavras, que me esforcei com metade de êxito para não ouvir, sobre (creio) movimentos operários no Japão e um fuzilamento (suponho) de não sei que chefe socialista. Eu há tempos — numa coluna sem duvida humorística de um diário — vira em um telegrama de Tóquio constando qualquer coisa nesse tom; mas, além de não crer que de Tóquio se mandassem telegramas — visto Tóquio não dever ter mais do que duas dimensões —, ninguém que como eu tenha estudado a psicologia japonesa através das chávenas e dos pires, admite progressos de qualquer espécie no Japão, industrias japonesas, movimentos socialistas e chefes socialistas, ainda por cima fuzilados, como quaisquer europeus que vivem. Quem como eu conhece bem o Japão — o verdadeiro Japão, de porcelana e erros de desenho —, compreende bem a incompatibilidade entre o progresso, indústria e socialismo, e a absoluta não-existência daquele pais. Socialistas japoneses! Uma contradição flagrante! Uma frase sem sentido, como «circulo quadrado»! Se nem o inexistente estivesse livre do socialismo! Aquelas figuras deliciosas, eternamente sentadas ao pé de casas do tamanho delas, a beira de lagos absurdos, de um azul impossível, aquém de montanhas totalmente irreais — essas maravilhosas figuras, com uma perfeita e patriótica individualidade japonesa, não pertencem decerto ao horroroso mundo onde se progride, e onde sobre o artista desabam a morbidez do produtivo e a barbárie do humanitário.
E vem querer tirar-me estas convicções o profes­sor Boro, da Universidade de Tóquio! Não mas tira. Não é para ser enganado pela primeira realidade que se me atira aos olhos que eu tenho gasto minutos distensos na contemplação cientifica e estéril de bules e chávenas japonesas. O mais provável, a respeito deste Boro, e que nascesse em Lisboa e se chame José. Do Japão, ele? Nunca.
Se ao menos achei japonesa a sua cara? Absolutamente nada. Basta dizer que era real e existiu ali diante de mim, duas dolorosas horas, em plena ocupação inestética de todas as dimensões aproveitáveis (felizmente só três) do espaço autentico. A sua cara parecia-se, e certo, com certas fotografias de «japoneses» que as ilustrações trouxeram há anos, e de vez em quando reincidindo trazem; mas toda a gente que sabe o que é o Japão por nunca lá ter ido sabe de cor que aquilo não são japoneses. E, de mais a mais, essas ilustrações eram principalmente de generais, almirantes, e operações guerreiras. Ora é absolutamente impossível que no Japão haja generais, almirantes e  guerra. Como, de resto, fotografar o Japão e os japoneses? A primeira coisa real que há no Japão e o fato de ele estar sempre longe de nós, estejamos nós onde estivermos. Não se pode lá ir, nem eles podem vir até nós. Concedo, se me forçarem a isso, que existam um Tóquio e um Iocoama. Mas isso não e no Japão, e apenas no Extremo Oriente.
O resto da minha vida, doravante, será escrupulosamente dedicado a esquecer o professor Boro e que ele — impronunciável absurdo! — se sentou na cadeira que está agora, na realidade de madeira, defronte de mim. Considero doentio esse fato, alucinatório talvez, e entrego-me com assiduidade a não me lembrar dele mais. Um japonês verdadeiro aqui, a falar comigo, a dizer-me coisas que nem mesmo eram falsas ou contraditórias! Não. Ele chama-se José e é de Lisboa. Falo simbolicamente, é claro. Porque ele pode chamar-se Macwhisky e ser de Inver­ness. O que ele não era decerto era japonês, real, e possível visitante de Lisboa. Isso nunca. Desse modo não havia ciência, se o primeiro ocasional nos viesse negar o que os nossos estudos assíduos nos fizeram ver.
Professor Boro, da Universidade de Tóquio? De Tóquio? Universidade de Tóquio? Nada disso existe. Isso é uma ilusão. Os inferiores e cábulas de nós construíram, para se não desorientarem, um Japão a imagem e semelhança da Europa, desta triste Europa tão excessivamente real. Sonhadores! Alucinados!

Basta-me olhar para aquela bandeja, pegar cariciosamente com o olhar naquele serviço de chá. Depois venham falar-me em Japão existente, em Japão comercial, em Japão guerreiro! Não é para nada que, através de esforços consecutivos, a nossa época ganhou o duro nome de científica. Japoneses com vida real, com três dimensões, com uma pátria com paisagens de cores autenticas! Lérias para entretenimento do povo, mas que a quem estudou não enganam...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

76 – Uma rosa para Emília – W.C. Faulkner

William Cuthbert Faulkner (1897-1962), escritor norte americano nascido no Mississipi recebeu o Premio Nobel de literatura em 1949. Sua obra, imortalizou a vida e as tradições do sul dos Estados unidos na primeira metade do século XX. O conto “Uma Rosa para Emília”, foi publicado em 1930 na revista The Forum e apesar de ser o primeiro conto de Faulkner publicado em uma revista de alcance nacional, tornou-se um dos contos clássicos da literatura norte americana.

Uma rosa para Emília
William Faulkner

Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro.
Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson.
Viva, Miss Emily fora uma tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as ideias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado.
Quando a geração seguinte, com suas ideias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação de pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários.
O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily.
Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso.
Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranquilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro.
Sua voz era seca e fria:
– Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Coronel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais.
– Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado?
– Sim, recebi um papel – disse Miss Emily. – Talvez ele se considere realmente o delegado… Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
– Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora… É preciso que nós…
– Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
– Mas, Miss Emily –
– Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) – Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! – O negro apareceu. – Acompanha estes cavalheiros.
Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado – aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela – a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro – ainda moço, então – que entrava e saía com um cesto de compras.
– Como se um homem – seja quem for! – pudesse conservar limpa uma cozinha! – diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson.
Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos.
– Mas que quer a senhora que eu faça? – perguntou ele,
– Ora, que ela acabe com isso – disse a mulher. Não existe lei?
– Estou certo de que não será necessário – afirmou o Juiz Stevens. Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito.
No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida.
– Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa.
Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração.
– A coisa é muito simples – disse o moço. – Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Deem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não…
– Deus me livre, senhor! – exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal?
Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu.
Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado.
Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos.
No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa.
Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece.
Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja – uma mistura de trágico e sereno.
A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um “yankee”, homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios.
A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: “Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado.”
Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que “noblesse oblige”. (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: “Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la.”
Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro.
E, mal a gente velha exclamou “Pobre Emily”, os mexericos começaram: “Vocês imaginam que, realmente. . .” diziam uns para os outros. – “Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . ” tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. – “Pobre Emily!”
Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer:
“Pobre Emily”, e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa.
– Quero comprar veneno – disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. – Quero comprar veneno.
– Pois não, Miss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen…
– Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja.
O farmacêutico citou alguns:
– Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e…
– Arsênico – disse ela. – É bom?
– É… arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer ….
– Eu quero arsênico.
– Pois, naturalmente – disse ele. – Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno.
Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: “Para ratos”.
Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: “Ela vai suicidar-se”, e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: “Vai casar-se com ele”. Depois, dizíamos: “Ela ainda acabará por persuadi-lo”, porque o próprio Homer observava – gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk’s Club – que não era feito para casamento. Mais tarde, dissemos: “Pobre Emily”, por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas.
Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista – a gente de Miss Emily era episcopal – a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama.
Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fora à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: “Estão casados”. E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora.
Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer.
Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim.
Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo.
Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos.
A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então. Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse.
Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo – tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa – semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração – querida, inevitável, impenetrável, tranquila e perversa.
E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca.
Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol.
O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre.
A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos – alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos – falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos.
Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo.
A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos.
Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão.
E o homem estava deitado na cama.
Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ricto profundo e descarnado, O corpo devia ter, a principio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira.
Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço.


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

75– Em Memoria de Paulina – A. Bioy Casares

Adolfo Bioy Casares (1914-1999) escritor argentino, colaborador e amigo de Juan Carlos Borges e autor de um dos mais importantes romances do realismo fantástico latino americano: A invenção de Morel. O vigor de sua criatividade esta presente neste Conto “Em Memoria de Paulina” onde ele leva o leitor, suavemente e com refinada elegância, a navegar pelos caminhos delirantes da imaginação do autor. Uma viagem fantástica!

Em memoria de Paulina
Adolfo Bioy Casares

Sempre amei Paulina. Em uma de minhas primeiras recordações, Paulina e eu estamos escondidos em um sombrio caramanchão de loureiros, em um jardim com dois leões de pedra. Paulina me disse: Gosto de azul, gosto de uvas, gosto de gelo, gosto de rosas, gosto de cavalos brancos. Eu entendi que a minha felicidade havia começado, porque nessas preferencias podia me identificar com Paulina. Éramos tão milagrosamente parecidos que, em um livro sobre a reunião final das almas na alma do mundo, minha amiga escreveu na margem: As nossas já se reuniram. “Nossas”, naquele tempo, significava a dela e a minha.
Para explicar tal semelhança argumentei que eu era um rascunho remoto e apressado de Paulina. Lembro que anotei no meu caderno: Todo poema é um rascunho da Poesia e em cada coisa há uma prefiguração de Deus. Também pensei: Em tudo o que eu me parecer com Paulina, estou a salvo. Via (e vejo ainda hoje) a identificação com Paulina como a melhor possibilidade do meu ser, como o refúgio onde me livraria dos meus defeitos naturais, da estupidez, da negligência, da vaidade.
A vida foi um doce costume que nos levou a esperar, como algo natural e certo, nosso futuro casamento. Os pais de Paulina, insensíveis ao prestigio literário prematuramente alcançado, e perdido, por mim, prometeram dar o consentimento quando eu me formasse. Muitas vezes imaginávamos um futuro bem arrumado, com tempo para trabalhar, para viajar e para amar-nos. Imaginávamos essas coisas tão vividamente que afinal nos persuadíamos de que já morávamos juntos.
Falar do nosso casamento não nos induzia a tratar-nos como noivos. Passamos a infância juntos e continuava havendo entre nós uma casta amizade de crianças. Não me atrevia a assumir o papel de apaixonado e dizer a ela, em tom solene: Eu te amo. No entanto, como a amava, com que amor atônito e escrupuloso eu olhava sua resplandecente perfeição.
Paulina gostava quando eu recebia amigos. Preparava tudo, atendia os convidados e, secretamente, brincava de ser dona de casa. Confesso que essas reuniões não me deixavam muito feliz. A que organizamos para Julio Montero conhecer escritores não foi exceção.
Na véspera, Montero tinha me visitado pela primeira vez. Empunhava, na ocasião, um copioso manuscrito e o despótico direito que uma obra inédita confere sobre o tempo do próximo. Pouco depois da visita eu já havia esquecido seu rosto hirsuto e quase negro. Quanto ao conto que ele me leu – Montero me pediu que lhe dissesse com toda sinceridade se o impacto da sua amargura era muito forte —, talvez fosse notável, porque revelava um vago proposito de imitar escritores positivamente diversos. A ideia central vinha do provável sofisma: se determinada melodia surge da relação entre o violino e os movimentos do violinista, de determinada relação entre movimento e matéria surgia a alma de cada pessoa. O herói do conto fabricava uma maquina de produzir almas (uma espécie de bastidor, com madeiras e barbantes). Depois o herói morria. Velavam e enterravam o cadáver; mas ele continuava secretamente vivo no bastidor. No ultimo parágrafo o bastidor aparecia, junto a um estereoscópio e um tripé com uma pedra de galena, no quarto onde havia morrido uma senhorita.
Quando consegui desviá-lo dos problemas do seu argumento, Montero revelou uma estranha ambição de conhecer escritores.
– Volte amanhã à tarde — disse a ele. — Vou lhe apresentar alguns.
Montero se descreveu como um selvagem e aceitou o convite. Talvez movido pela satisfação de vê-lo ir embora, desci com ele até a portaria. Quando saímos do elevador, Montero descobriu o jardim que há no pátio. Às vezes, com a luz tênue da tarde, visto através da porta de vidro que o separa do hall, esse jardim diminuto sugere a misteriosa imagem de um bosque no fundo de um lago. De noite, uns refletores de luz roxa e alaranjada o transformam em um horrível paraíso de caramelo. Montero o viu de noite.
– Vou ser sincero — disse ele, resignando-se a tirar os olhos do jardim. – De tudo o que vi na casa, isto é o mais interessante.
No dia seguinte Paulina chegou cedo; às cinco da tarde já tinha aprontado tudo para a recepção. Mostrei a ela uma estatueta chinesa, de pedra verde, que havia comprado em um antiquário naquela manha. Era um cavalo selvagem, as patas no ar e a crina levantada. O vendedor garantiu que simbolizava a paixão.
Paulina pôs o cavalinho em uma prateleira da estante e exclamou: É bonito como a primeira paixão de uma vida. Quando lhe disse que era um presente, ela impulsivamente pôs os braços em volta do meu pescoço e me beijou.
Tomamos um chá na copa. Eu lhe contei que tinham me oferecido uma bolsa para estudar dois anos em Londres. De repente acreditamos em um casamento imediato, na viagem, na nossa vida na Inglaterra (que nos parecia tão imediata quanto o casamento). Consideramos pormenores de economia doméstica; as privações, quase doces, a que nos submeteríamos; a distribuição das horas de estudo, de passeio, de repouso e, talvez, de trabalho; o que Paulina faria enquanto eu estivesse nas aulas; a roupa e os livros que levaríamos. Depois de algum tempo fazendo planos, admitimos que eu teria de abrir mão da bolsa. Faltava uma semana para os exames, mas já era evidente que os pais de Paulina queriam adiar o nosso casamento.
Começaram a chegar os convidados. Eu não me sentia feliz. Quando conversava com uma pessoa, só pensava em algum pretexto para me afastar dali. Parecia impossível abordar algum tema que interessasse ao interlocutor. Quando queria me lembrar de alguma coisa, perdia a memória ou a achava longe demais. Ansioso, fútil, abatido, eu pulava de um grupo a outro desejando que as pessoas fossem embora, que ficássemos sozinhos, que chegasse o momento, ai, tão breve, de levar Paulina para sua casa.
Perto da janela, minha noiva conversava com Montero. Quando olhei para ela, levantou os olhos e inclinou seu rosto perfeito em minha direção. Senti que havia um refúgio inviolável na ternura de Paulina, um refugio onde nós dois estávamos sozinhos. Como desejei dizer que a amava! Tomei a firme decisão de perder nessa mesma noite a minha pueril e absurda vergonha de lhe falar de amor. Ah, se eu pudesse (suspirei) lhe comunicar agora os meus pensamentos. Em seu olhar palpitou uma generosa, alegre e surpresa gratidão.
Paulina me perguntou em que poema um homem se distancia tanto de uma mulher que quando a encontra no céu não a cumprimenta. Eu sabia que o poema era de Browning e me lembrava vagamente dos versos. Passei o resto da tarde procurando-os na edição da Oxford. Se não me deixavam com Paulina, procurar algo para ela era preferível a conversar com outras pessoas, mas eu estava singularmente agitado e me perguntei se a impossibilidade de encontrar o poema não era um pressagio. Olhei para a janela. Luis Alberto Morgan, pianista, deve ter notado minha ansiedade, porque me disse:
– Paulina está mostrando a casa a Montero.
Dei de ombros, tentei disfarçar minha contrariedade e simulei me interessar de novo, pelo livro de Browning. Obliquamente vi Morgan entrando no meu quarto. Pensei: vai chamá-la. Logo em seguida reapareceu com Paulina e Montero.
Por fim alguém foi embora; depois, com despreocupação e vagar, outros partiram. Chegou um momento em que só ficamos Paulina, eu e Montero. Então, como eu temia, Paulina exclamou:
– Já é tarde. Vou embora.
Montero interveio rapidamente:
– Se me permitir, eu a acompanho até sua casa.
– Eu também vou acompanhá-la — respondi.
Falei com Paulina, mas olhei para Montero. Pretendia que os olhos comunicassem meu desprezo e meu ódio.
Quando chegamos embaixo, notei que Paulina não estava com o cavalinho chinês. Disse a ela:
– Você esqueceu o meu presente.
Subi até o apartamento e voltei com a estatueta. Os dois estavam encostados na porta de vidro, olhando para o jardim. Peguei no braço de Paulina e não deixei que Montero se aproximasse dela pelo outro lado. Na conversa prescindi ostensivamente de Montero.
Ele não se ofendeu. Quando nos despedimos de Paulina, insistiu em vir comigo até minha casa. No trajeto falou de literatura, provavelmente sinceridade e ardor. Pensei: Ele é o literato; eu sou um homem cansado, frivolamente preocupado com uma mulher. Considerei a incongruência que havia entre seu vigor físico e sua fraqueza literária. Pensei: ele tem uma carapaça que o protege; o que o interlocutor sente não o atinge. Observei com ódio seus olhos despertos, seu bigode hirsuto, seu pescoço fornido.
Nessa semana quase não vi Paulina. Estudei muito. Depois do último exame, telefonei para ela. Ela me parabenizou com uma insistência que não parecia natural e disse que no final da tarde iria a minha casa.
Fiz a sesta, tomei um banho vagaroso e esperei Paulina folheando um livro sobre os Faustos de Muller e de Lessing.
Quando a vi, exclamei:
– Você esta mudada.
– Sim — respondeu. — Como nós nos conhecemos! Não preciso nem falar para você saber o que estou sentindo.
Então nos olhamos dentro dos olhos, em um êxtase de beatitude.
– Obrigado — respondi.
Nada me comovia tanto como a admissão, por parte de Paulina, da intima conformidade das nossas almas. Confiante, eu me entreguei a essa lisonja. Não sei quando foi que me perguntei (incredulamente) se as palavras de Paulina não escondiam outro sentido. Antes que eu chegasse a considerar essa possibilidade, ela começou uma confusa explicação. De repente ouvi:
– Nessa primeira tarde já estávamos perdidamente apaixonados.
Eu me perguntei quem estava apaixonado. Paulina continuou.
– É muito ciumento. Não se opõe a nossa amizade, mas jurei que, por um tempo, não veria mais você.
Eu ainda esperava a impossível explicação que me tranquilizaria. Não sabia se Paulina estava falando sério ou era brincadeira. Não sabia que expressão havia no meu rosto. Não sabia como era dilacerante a minha angustia. Paulina acrescentou:
– Vou indo. Julio me espera. Ele não subiu para não nos incomodar.
– Quem? — perguntei.
E logo em seguida temi — como se nada tivesse acontecido — que Paulina descobrisse que eu era um impostor e que nossas almas não estavam tão unidas.
Paulina respondeu com naturalidade:
– Julio Montero.
A resposta não podia me surpreender; no entanto, naquela tarde horrível, nada me abalou tanto como essas duas palavras. Pela primeira vez me senti longe de Paulina. Quase com desprezo, perguntei…
– Vocês vão se casar?
Não lembro o que ela respondeu. Acho que me convidou para o casamento.
Depois fiquei sozinho. Tudo era absurdo. Não havia pessoa mais incompatível com Paulina (e comigo) que Montero. Ou eu estava enganado? Se Paulina amava esse homem, talvez ela nunca tivesse se parecido comigo. Uma abjuração não me bastou; descobri que já havia vislumbrado muitas vezes a horrenda verdade.
Fiquei muito triste, mas não creio que estivesse com ciúmes. Deitei na cama, de bruços. Ao esticar a mão encontrei o livro que estava lendo pouco antes. Joguei-o longe, com nojo.
Sai para caminhar. Em uma esquina fiquei olhando um carrossel. Naquela tarde parecia impossível continuar vivendo.
Durante anos me lembrei dela, e como preferia os dolorosos momentos da ruptura (porque os tinha passado com Paulina) à solidão posterior, eu os percorria e os examinava minuciosamente e voltava a vivê-los. Nessa angustiada cavilação pensava descobrir novas interpretações para os fatos. Por exemplo na voz de Paulina declarando o nome de seu amado surpreendi uma ternura que, a principio, me emocionou. Pensei que a moça sentia pena de mim e sua bondade me comoveu da mesma forma que antes o seu amor me comovia. Depois, pensando melhor, deduzi que aquela ternura não era para mim e sim para o nome pronunciado.
Aceitei a bolsa e, silenciosamente, fui cuidar dos preparativos da viagem. No entanto, a notícia correu. Na ultima tarde Paulina veio me visitar.
Eu já me sentia distante dela, mas quando a vi me apaixonei de novo. Sem que Paulina dissesse, entendi que a sua vinda era furtiva. Segurei suas mãos, trêmulo de gratidão. Paulina exclamou:
– Sempre vou te amar. De algum modo, sempre vou te amar mais do que a qualquer outra pessoa.
Talvez ela tivesse achado que cometera uma traição. Sabia que eu não duvidava de sua lealdade a Montero, mas, parecendo contrariada por ter pro­nunciado palavras que implicassem — não para mim, para uma testemunha imaginária — uma intenção desleal, acrescentou rapidamente:
– Evidentemente, o que sinto por você não conta. Estou apaixonada por Julio.
Todo o resto, disse, não tinha importância. O passado era uma região deserta onde ela havia esperado por Montero. Do nosso amor, ou amizade, não se lembrou.
Depois falamos pouco. Eu estava muito ressentido e fingi ter pressa. Fui com ela até o elevador. Quando abri a porta, retumbou, imediata, a chuva.
– Vou procurar um taxi — disse.
Com uma súbita emoção na voz, Paulina me gritou:
– Adeus, querido.
Atravessou, correndo, a rua e desapareceu ao longe. Eu me virei, tristemente. Ao erguer os olhos vi um homem escondido no jardim. O homem se ergueu e encostou as mãos e o rosto na porta de vidro. Era Montero.
Raios de luz lilás e de luz alaranjada se entrecruzavam sobre um fundo verde, com boscagens escuras. O rosto de Montero, apertado contra o vidro molhado, parecia pálido e disforme.
Pensei em aquários, em peixes em aquários. Depois, com uma amargura frívola, pensei que o rosto de Montero sugeria outros monstros: os peixes deformados pela pressão da água que habitam no fundo do mar.
No dia seguinte, de manha, embarquei. Durante a viagem quase não sai do camarote. Escrevi e estudei muito.
Queria esquecer Paulina. Nos dois anos que passei na Inglaterra, evitei tudo o que me fizesse pensar nela: dos encontros com argentinos até os poucos telegramas de Buenos Aires que os jornais publicavam. É verdade que ela me aparecia nos sonhos, com uma vividez tão persuasiva e tão real que me perguntei se minha alma não compensava de noite as privações que eu lhe impunha na vigília. Evitei obstinadamente a sua lembrança. No final do primeiro ano, consegui excluí-la das minhas noites e, quase, esquecê-la.
Na tarde em que cheguei da Europa voltei a pensar em Paulina. Com apreensão, pensei que quando chegasse em casa as lembranças talvez fossem vivas demais. Ao entrar em meu quarto senti alguma emoção e me detive respeitosamente, comemorando o passado e os extremos de alegria e de aflição que eu havia conhecido. Então tive uma revelação vergonhosa. O que me comovia não eram os monumentos secretos do nosso amor, subitamente manifestados no mais íntimo da minha memória, mas sim a luz enfática que entrava pela janela, a luz de Buenos Aires.
Por volta das quatro fui até a esquina e comprei um quilo de café. Na padaria, o dono me reconheceu, cumprimentou-me com estrondosa cordialidade e me informou que fazia muito tempo — seis meses, pelo menos — que eu não o honrava com minhas compras. Depois dessas gentilezas pedi, tímido e resignado, meio quilo de pão. Ele perguntou, como sempre:
– Moreno ou claro?
Respondi, como sempre:
– Claro.
Voltei para casa. O dia estava límpido como um cristal, e muito frio.
Enquanto preparava o café, pensei em Paulina. Ali pelo fim da tarde nos acostumávamos tomar uma xicara de café preto.
Como se estivesse em um sonho, passei de uma afável e equânime indiferença a emoção, à loucura que o aparecimento de Paulina me provocou. Cai de joelhos quando a vi, pus o rosto entre as mãos dela e, pela primeira vez, chorei toda a dor de tê-la perdido.
Sua chegada foi assim: ouviram-se três batidas na porta; eu me perguntei quem podia ser o intruso; pensei que o café ia esfriar por sua culpa; abri, distraidamente.
Depois — não sei se o tempo que transcorreu foi muito longo ou muito breve — Paulina mandou que a seguisse. Entendi que assim estava corrigindo, com a persuasão dos fatos, nossos antigos erros de comportamento. Tenho a sensação (mas além de incorrer nos mesmos erros, sou infiel a essa tarde) de que os corrigiu com uma determinação excessiva. Quando me pediu que segurasse sua mão (“A mão!”, disse. “Agora!”), eu me entreguei à felicidade. Olhamos nos olhos um do outro e, como dois rios confluentes, nossas almas também se uniram. Lá fora, sobre o telhado, contra os muros, chovia. Interpretei essa chuva — que era o mundo inteiro surgindo novamente — como uma pânica expansão do nosso amor.
A emoção não me impediu, contudo, de descobrir que Montero havia contaminado a fala de Paulina. Às vezes, quando ela falava, eu tinha a ingra­ta impressão de estar ouvindo o meu rival. Reconheci o peso característico das frases; reconheci as ingênuas e trabalhosas tentativas de encontrar o termo exato; reconheci, ainda despontando vergonhosamente, a inconfundível vulgaridade.
Fazendo um esforço, consegui me sobrepor. Fitei o rosto, o sorriso, os olhos. Ali estava Paulina, intrínseca e perfeita. Ali não a haviam mudado.
Então, enquanto a contemplava na penumbra mercurial do espelho, rodeada pela moldura de grinaldas, de coroas e de anjos negros, achei-a diferente. Era como se descobrisse outra versão de Paulina; como se a visse de um modo novo. Dei graças pela separação, que havia interrompido meu hábito de vê-la, mas que a devolvia ainda mais bonita.
Paulina disse:
— Já vou. Julio está me esperando.
Notei em sua voz uma estranha mistura de menosprezo e de angústia, que me desconcertou. Pensei melancolicamente: Paulina, em outros tempos, não trairia ninguém. Quando ergui os olhos, tinha ido embora.
Apos um instante de vacilação, chamei-a. Voltei a chamá-la, desci e fui até a entrada, corri pela rua. Não a encontrei. Na volta, senti frio. Pensei: “Refrescou. Foi só uma pancada de chuva”. A rua estava seca.
Quando voltei para casa vi que eram nove horas. Não estava com vontade de sair para comer; a possibilidade de encontrar algum conhecido me acovardava. Fiz um pouco de café. Tomei duas ou três xícaras e mordi a ponta de um pão.
Não sabia sequer quando nos veríamos de novo. Eu queria falar com Paulina. Queria pedir que me explicasse... De repente, minha ingratidão me assustou. O destino me proporcionava a felicidade, e eu não estava contente. Aquela tarde era a culminação de nossas vidas. Paulina tinha entendido assim. Eu mesmo entendi assim. Por isso quase não nos falamos. (Falar, fazer perguntas, teria sido, de certo modo, diferenciar-nos.)
Parecia impossível ter de esperar até o dia seguinte para ver Paulina. Com um alívio incomodo, determinei que nessa mesma noite iria à casa de Montero. Desisti rapidamente; sem falar antes com Paulina, eu não podia ir visitá-los. Resolvi procurar um amigo — achei que Luis Alberto Morgan era o mais indicado — e pedir que ele me contasse tudo o que sabia da vida de Paulina durante minha ausência.
Depois pensei que era melhor ir dormir. Descansado, no dia seguinte veria tudo com mais clareza. Por outro lado, não estava disposto a ouvir falar frivolamente de Paulina. Quando me deitei tive a impressão de ter caído em uma armadilha (lembrei-me, talvez, de noites de insônia, dessas em que ficamos na cama para não admitir que estamos acordados). Apaguei a luz.
Eu não ia mais especular sobre o comportamento de Paulina. Sabia muito pouco para querer entender a situação. Como não podia esvaziar a mente e parar de pensar, eu me refugiaria na lembrança daquela tarde.
Continuaria gostando do rosto de Paulina, mesmo encontrando em seus atos algo de estranho e hostil que me afastava dela. O rosto era o de sempre, o rosto puro e maravilhoso que me amara antes do abominável aparecimento de Montero. Pensei: há uma fidelidade nos rostos que as almas talvez não compartilham.
Ou seria tudo um engano? Eu não estaria apaixonado por uma cega projeção de minhas preferencias e ojerizas? Será que nunca tinha conhecido Paulina?
Escolhi uma imagem daquela tarde — Paulina em frente a escura e tersa profundidade do espelho — e tentei evocá-la. Quando a divisei, tive uma revelação instantânea: eu hesitava porque estava esquecendo Paulina. Quis me concentrar na contemplação da sua imagem. A fantasia e a memoria são faculdades caprichosas: eu me lembrava do cabelo despenteado, de uma prega do vestido, da vaga penumbra circundante, mas minha amada se desvanecia.
Muitas imagens, animadas por uma inevitável energia, passavam diante dos meus olhos fechados. De repente fiz uma descoberta. Como que na beira escura de um abismo, em um angulo do espelho, à direita de Paulina, apareceu o cavalinho de pedra verde.
Essa visão, quando se produziu, não me surpreendeu; só após alguns minutos lembrei que a estatueta não estava em casa. Eu a tinha dado a Paulina dois anos antes.
Pensei se tratar de uma superposição de lembranças anacrônicas (a mais antiga, do cavalinho; a mais recente, de Paulina). A questão estava elucidada, eu já podia ficar tranquilo, e precisava dormir. Formulei então uma reflexão envergonhada e, a luz do que iria descobrir mais tarde, patética. “Se eu não dormir logo’’, pensei, “amanhã estarei pálido e não vou agradar Paulina ”.
Pouco depois percebi que minha lembrança da estatueta no espelho do quarto não era justificável. Nunca a deixei no quarto. Em casa, só a vi no outro aposento (na prateleira, nas mãos de Paulina ou nas minhas).
Apavorado, quis ver essas recordações mais uma vez. O espelho reapareceu, rodeado de anjos e de grinaldas de madeira, com Paulina no centra e o cavalinho a direita. Eu não tinha certeza de que refletisse o quarto. Talvez sim, mas de um modo vago e sumario. Em contrapartida, o cavalinho se empinava nitidamente na prateleira da estante. A estante ocupava toda a parede do fundo, e na escuridão lateral rondava um novo personagem, que não reconheci no primeiro momento. Depois, com pouco interesse, percebi que esse personagem era eu.
Vi o rosto de Paulina, vi-o inteiro (não em partes), como que projetado em minha direção pela extrema intensidade de sua formosura e de sua tristeza. Acordei chorando.
Não sei desde quando eu estava dormindo. Mas sei que o sonho não foi criativo. Ele deu continuidade, insensivelmente, às minhas imaginações e reproduziu com fidelidade as cenas da tarde.
Olhei o relógio. Eram cinco horas. Eu me levantaria cedo e, mesmo correndo o risco de irritar Paulina, iria até sua casa. Essa resolução não mitigou minha angústia.
Levantei às sete e meia, tomei um banho demorado e me vesti devagar.
Não sabia onde Paulina morava. O porteiro me emprestou as listas telefônicas, a de assinantes e a comercial. Nenhuma das duas tinha o endereço de Montero. Procurei o nome de Paulina; tampouco constava. Verifiquei, também que na antiga casa de Montero morava outra pessoa. Pensei em perguntar o endereço aos pais de Paulina.
Fazia muito tempo que não os via (quando soube do amor de Paulina por Montero, interrompi o contato com eles). Agora, para me desculpar, teria de historiar meus pesares. Não tive ânimo.
Decidi falar com Luis Alberto Morgan. Antes das onze não podia aparecer em sua casa. Perambulei pelas ruas, sem ver nada, ou observando com uma fugaz aplicação a forma de uma moldura em uma parede ou o sentido de uma palavra ouvida por acaso. Lembro que na praça Independência havia uma mulher, com os sapatos em uma das mãos e um livro na outra, passeando descalça pela grama molhada.
Morgan me recebeu na cama, às voltas com uma enorme tigela que segurava com as duas mãos. Divisei um líquido esbranquiçado e, flutuando, um pedaço de pão.
– Onde Montero mora? — perguntei.
Ele já tinha bebido todo o leite. Agora pegava os pedaço de pão do fundo da tigela.
– Montero esta preso — respondeu.
Não pude esconder meu assombro. Morgan continuou:
– Como? Você não sabe?
Imaginou, sem duvida, que eu só ignorava esse detalhe, mas, pelo gosto de falar, contou tudo o que acontecera. Pensei que eu fosse perder os sentidos; cair em um súbito precipício; lá também chegava a voz cerimoniosa, implacável e nítida, que relatava fatos incompreensíveis com a monstruosa e persuasiva convicção de que eram familiares.
Morgan me contou o seguinte: suspeitando que Paulina ia me visitar, Montero se escondeu no jardim do meu prédio. Viu-a sair e a seguiu; interpelou-a na rua. Quando se aglomeraram curiosos, ele a obrigou a entrar em um taxi. Rodaram a noite toda pela Costanera e pelos lagos e, de madrugada, em um hotel do Tigre, matou-a com um tiro. Isso não tinha acontecido na noite anterior àquela manha; tinha acontecido na véspera da minha viagem a Europa; tinha acontecido havia dois anos.
Nos momentos mais terríveis da vida muitas vezes caímos em uma espécie de irresponsabilidade protetora e, em vez de pensar no que esta acontecendo, dirigimos nossa atenção a trivialidades. Nesse momento perguntei a Morgan:
– Está lembrado do nosso ultimo encontro, lá em casa, antes da minha viagem?
Morgan se lembrava. Continuei:
– Quando você viu que eu estava preocupado e foi procurar Paulina no meu quarto, o que Montero estava fazendo?
– Nada — respondeu Morgan, com certa vivacidade. — Nada. Pensando melhor, agora me lembro: estava se olhando no espelho.
Voltei para casa. Cruzei, na entrada, com o porteiro. Demonstrando indiferença, perguntei-lhe:
– Sabe que a senhorita Paulina morreu?
– Como não iria saber? — respondeu. — Todos os jornais falaram do assassinato e eu acabei prestando depoimento à policia.
O homem me olhou inquisitivamente.
— Esta tudo bem? — perguntou, aproximando-se muito de mim. — Quer que o acompanhe?
Agradeci e fugi para cima. Tenho uma vaga lembrança de ter pelejado com uma chave; de ter apanhado umas cartas, do outro lado da porta; de estar de olhos fechados, deitado de bruços, na cama.
Depois me surpreendi em frente ao espelho, pensando: “O fato é que Paulina me visitou esta noite. Morreu sabendo que o casamento com Montero tinha sido um equívoco — um equívoco atroz — e que nós éramos a verdade. Voltou da morte para completar o seu destino, o nosso destino”. Lembrei de uma frase que Paulina havia escrito, anos antes, em um livro: Nossas almas já se reuniram. Continuei pensando: “Esta noite, finalmente. No momento em que segurei sua mão”. Depois, pensei: “Sou indigno dela: duvidei, senti ciúmes. Ela veio da morte para me amar”.
Paulina tinha me perdoado. Nunca havíamos nos amado tanto. Nunca estivemos tão perto.
Eu estava me debatendo nessa embriaguez de amor, vitoriosa e triste, quando me perguntei — ou melhor, quando meu cérebro, movido pelo simples hábito de propor alternativas, perguntou — se não haveria outra explicação para a visita daquela noite. Então, fulminante, a verdade me atingiu.
Eu gostaria de descobrir agora que estou enganado de novo. Infelizmente, como sempre acontece quando surge a verdade, minha horrível explicação esclarece os fatos que pareciam misteriosos. Estes, por seu lado, a confirmam.
Nosso pobre amor não tirou Paulina do túmulo. Não houve fantasma de Paulina. Eu abracei um monstruoso fantasma dos ciúmes do meu rival.
A chave do que aconteceu esta na visita que Paulina me fez na véspera da minha viagem. Montero a seguiu e a esperou no jardim. Brigaram a noite toda e, como não acreditou em suas explicações — como esse homem podia entender a pureza de Paulina? —, matou-a de madrugada.
Eu o imaginei na prisão, cismando naquela visita, representando-a com a cruel obstinação do ciúme.
A imagem que entrou em casa, o que depois aconteceu lá, foi uma projeção da horrenda fantasia de Montero. Na época não descobri isso, porque estava tão comovido e tão feliz que a minha única vontade era obedecer a Paulina. No entanto, não faltaram indícios. Por exemplo, a chuva. Durante a visita da verdadeira Paulina — na véspera da minha viagem —, eu não ouvi a chuva. Montero, que estava no jardim, sentiu-a diretamente no corpo. Ao imaginar-nos, ele achou que a tínhamos ouvido. Por isso ouvi chover ontem a noite. Depois vi que a rua estava seca.
Outro indício é a estatueta. Só esteve em minha casa por um único dia o dia da recepção. Para Montero, ela se tornou um símbolo do lugar. Por isso apareceu esta noite.
Não me reconheci no espelho porque Montero não me imaginou claramente. Também não imaginou o quarto com muita precisão. Nem sequer conheceu Paulina. A imagem projetada por Montero se comportava de uma maneira que não é própria de Paulina. Além do mais, falava como ele.
Urdir esta fantasia é a tortura de Montero. A minha é mais real. É a convicção de que Paulina voltou não porque estivesse desenganada de seu amor. E a convicção de que eu nunca fui seu amor. E a convicção de que Montero não ignorava aspectos de sua vida que eu só vim a conhecer indiretamente. É a convicção de que, ao segurar sua mão — no suposto momento da união das nossas almas —, obedeci a um pedido de Paulina que ela nunca me dirigiu e que meu rival escutou muitas vezes.